quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A cólera dos falsos moralistas

Por Gleisi Hoffmann, na revista Carta Capital:

"A cólera é um cavalo fogoso; se lhe largamos o freio, o seu ardor exagerado em breve a deixa esgotada". William Shakespeare

Nesses dias de profunda tristeza, que nos levam a temer pelo futuro do nosso povo e desse extraordinário País, e depois de ouvir de perto o choro de um homem perseguido pelo ódio, pela calúnia e pela infâmia, me veio à lembrança uma cena singela que há 14 anos acendeu em mim a esperança que agora tanto me atormenta.

Falo daquele abraço que o recém-eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu no então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Nelson Jobim, durante a solenidade de diplomação. Era dezembro de 2002. Naquele simbolismo ficou a imagem do operário buscando socorro nos braços de um Poder supremo para conter a emoção. "E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República do meu país”, disse Lula.

Lembro-me também do primeiro pronunciamento do presidente logo depois de eleito, quando anunciou, para fascínio de milhões de brasileiros e espanto dos privilegiados de sempre, que o governo criaria um ministério para combater a fome no País. Foi, de verdade, o começo de uma nova era.

Com o programa Fome Zero e o Bolsa Família, Lula e o PT deram início a uma verdadeira revolução social que se estendeu por todos os rincões dessa nação. Mais de 35 milhões de pessoas saíram da miséria absoluta. Pais e mães viram seus filhos desfrutarem de três refeições por dia, coisa que nunca haviam experimentado antes.

Da mesma forma, milhares de jovens obtiveram acesso à universidade e a cursos técnicos abertos em localidades até então desprezadas pelo poder público. Também por 13 anos, milhões e milhões de trabalhadores puderam ser enquadrados na categoria de consumidores de verdade, graças aos aumentos reais do salário mínimo que ainda proporcionaram dignidade a outros milhões de homens e mulheres aposentados.

Mas não foi só isso. Ao contrário do que pregavam os engravatados da Wall Street tupiniquim e seus apaniguados, Lula e o PT também estabilizaram a economia, derrubaram a inflação que disparava e fortaleceram a indústria e o setor de serviços. Da mesma forma, foi Lula que soube conduzir o País durante a tempestade financeira de 2008.

Promovemos ainda uma das menores taxas de desemprego da história, geramos confiança nos agentes econômicos, acumulamos reservas internacionais de mais de US$ 300 bilhões e recebemos o grau de investimento que nos tornou um país respeitável lá fora. O Brasil decolou e passou a ser protagonista no cenário político e econômico mundial.

Tudo isso, porém, está ameaçado. A necessidade legítima e universal de qualquer mandatário de buscar uma coalizão parlamentar capaz de garantir o mínimo de governabilidade pelo bem geral corre o risco de naufragar quando o que se encontra pela frente é um misto de oportunismo, pequenez, ganância e a falta do mais simplório espírito público. Foi isso que aconteceu.

O PT cometeu erros, não negamos. Mas o maior desacerto pelo qual estamos pagando foi o de nos permitir compor uma aliança política em que as chantagens e os interesses escusos se sobrepuseram à construção de projetos que permitissem avançar nas conquistas da população.

Durante séculos, a elite retrógrada e preconceituosa sempre compactou com o que há de mais espúrio na política brasileira. Agora, na mais repugnante orquestração golpista, essa mesma elite recorre à hipocrisia para destruir aquilo que mais a ameaça: a ascensão do povo brasileiro ao papel que sempre lhe foi negado, o de protagonista de seu próprio destino. Para isso, é preciso destruir, sem piedade, aquele que moveu essa roda da História.

Lula está sendo massacrado porque o conluio das forças antipopulares não se conforma com a possibilidade de o maior líder político de esquerda da América Latina voltar a ser o “comandante máximo”, o “maestro regente” e o “general”, isto sim, das transformações que o Brasil ainda necessita. Essas forças, que se aliaram a setores cujos interesses eram inconfessáveis, mas que agora estão à vista de todos, não admitem ser apeadas do poder pela quinta vez, em 2018.

Vale tudo. Vale humilhar o presidente e a sua família em rede nacional, vale invadir a sua residência e vasculhar até o colchão do casal e vale montar espetáculos pirotécnicos vergonhosos, impulsionados pela fraqueza da vaidade, para formular acusações sem uma única prova. E, sobretudo, vale ajudar a destruir a economia e as empresas nacionais que já foram severamente atingidas pela crise política.

O Brasil está sem rumo. Que a cólera dos falsos heróis da moralidade não espalhe ainda mais a devastação que a todos atormenta. Essa é a minha convicção e a de muitos brasileiros de bem.

* Gleisi Hoffmann é senadora pelo PT do Paraná e presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

2 comentários:

Fernando Cavalcante disse...

Não por estas palavras mais por todas verdades que as palavras da senadora nos trás sou muito mais PT agora

Anônimo disse...

Por mais que eu seja crítico do PT, é evidente, que perto destes Golpistas do P$DB e dos seus satélites do PMDB, DEM, PP, PSB, etc., o PT é uma quase "maravilha" !!!
O atual governo é um buraco negro, é nota zero:
1.000.000 x 0 = 0
qualquer número x 0 = 0
Voltamos à Idade Média !!! ... ao Período das Trevas !!!