quinta-feira, 21 de julho de 2011

DF: território livre do analfabetismo

Por Beto Almeida

O governador Agnelo Queiroz assumiu o corajoso compromisso de erradicar o analfabetismo na Capital da República e no Distrito Federal (DF) até 2014. Este compromisso deve ser apoiado por todos os brasileiros - não apenas pelos moradores do DF -, por todas as forças progressistas, movimentos sociais, intelectuais, movimento estudantil, pois trata-se, simbolicamente, de uma atitude que revela claramente o potencial de que o Brasil, com todos os seus recursos, tem seguramente todas as condições para ver-se livre desta mazela social.



Agnelo está também enviando, como este compromisso, uma mensagem de otimismo, de convocação à luta, de chamado para as transformações sociais, indicando claramente que o Brasil Sem Miséria tem que ser também um Brasil livre da miséria do analfabetismo, da ignorância, da incultura. É como se dissesse: um país com as imensas riquezas que possui, do petróleo ao nióbio, sendo uma das maiores economias do planeta, não tem o direito de conviver com uma herança tão opressiva e desumana que afeta, sobretudo, as camadas mais pobres dos brasileiros, no DF e em todo o território nacional!

América Latina está derrotando o analfabetismo!

A guerra contra o analfabetismo na América Latina sempre esteve vinculada à luta revolucionária, aos programas de governos populares, a governantes antiimperialistas e de esquerda. Agnello está indicando que estão presentes as condições para que o Brasil dê um salto político. Deste modo, está chamando a superar a simples prática e uma administração rotineira, convencional e sem audácia, trazendo para os partidos progressistas o desafio de se colocar à altura das reais possibilidades de transformações sociais que o Brasil possui agora depois de dois governos Lula e após a eleição da presidenta Dilma, derrotando as forças conservadoras, que jamais se levantaram contra o analfabetismo, como também jamais se propuseram a transformar a sociedade.

Vale lembrar que o próprio Plano Estratégico para o Brasil, lançado durante o governo Lula, previa apenas para 2022 a superação do analfabetismo, o que é uma prova de timidez e de falta de prioridade política imensas, se observarmos que vários países muito mais pobres que o Brasil estão conseguindo derrotar o analfabetismo na América Latina. O problema está claramente localizado na esfera das decisões políticas.

Exemplo: como dói a substituição do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães pelo ex-governador Moreira Franco para comandar a Secretária de Assuntos Estratégicos! Colocar como ministro desta pasta um homem que destruiu os CIEPs no Rio de Janeiro, única vez que um governo estadual dedicou 50 por cento de seu orçamento para a educação, é lançar dúvidas sobre um verdadeiro e sincero combate ao analfabetismo.

A atitude de Agnelo Queiroz, na prática, é um chamado às forças progressistas a se mexerem mais além da luta institucional ou parlamentar. Em todos os países que derrotaram o analfabetismo na América Latina a mobilização popular é uma condição indispensável. Assim foi em Cuba, onde o analfabetismo foi extinto há 50 anos!!. Assim foi na Nicarágua Sandinista, quando a Cruzada Nacional da Alfabetização, que contou com a participação ativa de professores cubanos, levou à suspensão das aulas nas universidades por seis meses, período em que os estudantes universitários subiram as montanhas e foram para o campo para alfabetizar os camponeses, numa generosa demonstração de maturidade revolucionária e de entrega, que só os processos revolucionários alcançam, porque elevam as relações humanas, vencem o individualismo, promovem a consciência de que o progresso cultural de um povo ~e tarefa de todos, tarefa coletiva!

Tiririca: alfabetizado com o método cubano

A Venezuela Bolivariana também já é Território Livre do Analfabetismo, com reconhecimento da UNESCO, devendo sua conquista também à generosa ajuda de Cuba com o seu método de alfabetização “Yo si puedo”, que permite aprender a ler e escrever em um prazo de 45 dias em média. Aliás, conforme revelou Frei Betto em Conferência sobre Cuba Hoje, transmitida pela TV Cidade Livre de Brasília, foi com o método cubano que o Deputado Tiririca aprendeu a ler e escrever rapidamente para fazer frente às exigências elitistas e arrogantes da Justiça Eleitoral que não queria dar-lhe o diploma parlamentar a que faz jus em razão de milhares de votos recebidos, em sua maior parte das camadas mais oprimidas do Estado de São Paulo, sobretudo os trabalhadores nordestinos da construção civil, a quem ele apresentou uma série de propostas corretas e necessárias, escondidas maliciosamente pela mídia.

Uma vez mais, foi Cuba, com sua contribuição humanista em escala internacional, que demonstrou, neste episódio do Tiririca, que quando há vontade política, os instrumentos estão disponíveis e podem ser utilizados pelos mais inesperados setores sociais com vistas a elevar sua condição de cidadania. A conclusão é clara: o programa Brasil Sem Miséria, justo e necessário, não deve limitar-se à alimentação e formação profissional dos mais miseráveis. Aos animais é que se oferece apenas alimento, aos seres humanos é preciso oferecer também cultura, educação, livros, produtos culturais etc

Prioridade política ou planejamento conservador?

Se a Bolívia de Evo Morales também já é, segundo a UNESCO, Território Livre de Analfabetismo, as condições para que o Distrito Federal (muito melhor equipado e estruturado), mas também o Brasil alcance tal conquista estão totalmente presentes. É paradoxal que o Brasil seja um dos maiores consumidores de automóveis e de telefones celulares do mundo, que São Paulo tenha a segunda maior frota de helicópteros do mundo, e ainda existam milhões e milhões de analfabetos!

A solução deste dilema está no plano da política. Agnelo está fazendo uma convocatória decisiva, urgente, inadiável! Não há nenhuma razão para que a erradicação do analfabetismo não tenha sequer metas concretas, apesar de oito anos de governo Lula, de vários governos estaduais progressistas que tivemos neste período, mas, ainda assim, sem que o fim do analfabetismo tenha sido encarado com tarefa prioritária, central, realizável.

Basta lembrar que o Evo Morales, em criança, quando seus pais trabalhavam como canavieiros no norte da Argentina, foi considerado inepto para o letramento. Hoje, não apenas ele é o presidente da Bolívia, como nossos irmãos bolivianos, uma das economias mais pobres da América do Sul, já estão livres da praga do analfabetismo! Se um país como o Brasil que conseguiu recuperar a indústria naval, destruída pela privataria tucana, como não poderia superar definitivamente o analfabetismo?

Sobretudo sendo o Brasil a pátria de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire???. É porque tem faltado vontade política e Agnelo, com o compromisso que assumiu publicamente, está demonstrando que é preciso uma nova arrancada política e que Brasília não quer apenas ser a sede da Abertura da Copa do Mundo em 2014, construindo o estádio, mas também tem que mandar ao mundo a mensagem de que erradicou o analfabetismo.

Alfabetização é uma luta política

O governo Agnelo credencia-se a convocar todas as forças progressistas, não aquelas que o apoiaram eleitoralmente, para que seja realizado um verdadeiro Mutirão contra o Analfabetismo. O movimento estudantil, a CUT, o Sindicato dos Professores, as Universidades, todos devem ser convocados e incorporados nesta luta por meio da realização de uma Conferência Popular contra o Analfabetismo no DF, na qual sejam planejadas todas as iniciativas possíveis e necessárias, entre elas a mobilização política, pois derrotar o analfabetismo não é uma tarefa apenas técnica, é de cunho político e transformador. É preciso discutir e planejar tendo presente as experiências do passado, entre elas a do Rio Grande do Sul , que, quando governado por Leonel Brizola, conseguiu erradicar praticamente o analfabetismo no início dos anos 60. É preciso organizar acordos com o governo de Cuba para que seus especialistas possam participar deste Mutirão.

O uso revolucionário do rádio

É fundamental que haja a consciência sobre o uso da Rádio Cultura-FM, uma ferramenta que pode cumprir um papel indispensável nesta empreitada, ao contrário de ser apenas uma caixinha de música como vinha sendo na triste Era Arruda, quando só as bandas de rock apoiadas por esquemas milionários da indústria cultural imperial tinham vez, ao passo que sua direção, naquela época, discriminava a música popular brasileira, o samba, a música de raiz, inclusive os artistas negros, numa orientação claramente racista.

É um verdadeiro desperdício de recursos não ter a Rádio Cultura atuando nesta e outras causas da elevação cultural do povo candango. Aliás, vale lembrar que pedagogos cubanos desenvolveram um método para a alfabetização em dialeto creole do povo haitiano, por meio das ondas do rádio, a partir de Cuba. Temos que abrir espaços à criatividade, ao desenvolvimento de novas experiências, políticas e educativas. E a base para isto é o compromisso assumido pelo governador Agnelo Queiroz, que indica um compromisso de luta!

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