quarta-feira, 7 de março de 2012

Os protestos de rua e a mídia seletiva

Eduardo Enomoto/R7
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

“Fascistas” e “Talibãs” são as qualificações mais leves que a grande imprensa usa quando ocorrem manifestações de rua das quais não gosta; “demonstração de espírito público” e “exercício da cidadania” são as que usa quando gosta. Os adjetivos variam conforme a cara do freguês.

Esse tipo de detalhe sobre o comportamento das grandes empresas de comunicação costuma passar despercebido para essa maioria despolitizada que adquiriu certa aversão ao exercício de um direito constitucional legítimo como o de reunião e manifestação nos espaços públicos.

Sem querer reduzir o Brasil a São Paulo, uso exemplo de minha cidade que é escandaloso porque o país inteiro sempre acaba acompanhando pelos telejornais de cobertura nacional as manifestações na avenida Paulista.

Sempre que um número considerável de pessoas acorre àquela avenida a mídia rotula a manifestação. Agora mesmo, comentaristas de grandes conglomerados de mídia estão tendo fricotes porque a região abriga muitos hospitais e uma manifestação de ciclistas que lá ocorreu na terça-feira (6) dificultou o acesso a eles.

É óbvio que uma via pública em área urbana ser palco de manifestações, marchas e assemelhados fatalmente acaba interrompendo o tráfego e isso atrapalha a rotina da população, havendo ou não hospitais no local.

Contudo, as pessoas não precisam se deslocar com urgência só quando estão doentes. Por esse ponto de vista da imprensa, seria melhor abolir o direito constitucional de reunião e manifestação em vias de rodagem de veículos.

Entretanto, isso também não resolveria.

Dever-se-ia fazer só manifestações de calçada, então? Não, pois as pessoas não têm urgência de se deslocar só através de veículos automotores. Também posso ter urgência de caminhar por algum lugar e uma grande aglomeração também me impediria.

Suponhamos que eu tenha um enfarto no meio de um ato público de milhares de pessoas; a probabilidade de ser notado e socorrido também se reduziria drasticamente.

Concedamos, então, que o direito de ir e vir prevaleça sobre o de reunião e manifestação. Mas será muito exigir que esses direitos valham para todos? Ou melhor: será que a proibição de se violar o direito de ir e vir não pode ao menos ser para todos?

Para a dita grande imprensa, não pode.

Por duas vezes, ano passado, a avenida Paulista foi tomada por manifestantes que bloquearam as faixas de rodagem dos veículos, mas não foram criminalizados. Houve “marchas contra a corrupção” em 7 de setembro e 12 de outubro. Apesar de essas manifestações terem sido convocadas para feriados, as pessoas não precisam de hospitais só nos dias úteis.

Então os ora sumidos marchadores contra a corrupção dos seus adversários políticos devem ter atrapalhado o trânsito em uma região com muitos hospitais, certo? Segundo a imprensa, não atrapalharam.

Naquelas datas, não se viram editoriais, colunas, artigos e posts furiosos chamando os manifestantes de “fascistas e talibãs”. Ocorreu o contrário: foram exaltados. E o que é pior: os hospitais sumiram das preocupações midiáticas.

Manifestação, para a grande imprensa, só atrapalha quando ela quer. Quando o viés político-ideológico dos manifestantes converge com o seu, a manifestação passa a ser elogiável e torna-se dever cívico tirar o traseiro da cadeira e ir atrapalhar o trânsito

Intriga que consigam vender teorias tão distintas sobre o mesmo fenômeno a certas pessoas. Isto é, caso isso realmente ocorra. É inverossímil que alguém seja tão Mané que não perceba. O mais provável é que essas pessoas sejam tão hipócritas quanto a imprensa.

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