sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Há futuro para o emprego no jornalismo?

Por Leonardo Sakamoto, em seu blog:

Meus amigos mais saudosistas acreditam que o jornal em papel vai durar para sempre. Sim, concordo. E será tão importante quanto a ampliação impressa de fotografias…

Mudanças acontecem e a nova geração que, hoje, pega uma revista e, com dois dedinhos, tenta ampliar uma foto como uma tela sensível ou que não entende porque a TV da sala não responde aos seus toques terá um relação diferente com o papel que temos hoje. Jornais vão morrer no meio dessa transição. Outros migrarão para a internet. Veículos novos vão surgir, pensados para plataformas digitais, multimídias, interativas. Quem não se adaptar e não se planejar para essa virada, vai comer capim pela raiz mais cedo.

A informação já está se tornando mais democrática dessa forma, com um número maior de pessoas produzindo notícias, fazendo-as circular e espalhando um ponto de vista que não encontrava eco em publicações tradicionais. A imposição da volta da obrigatoriedade de um diploma para o exercício do jornalismo, nesse contexto, vai ter pouca importância. É um debate parecido com direitos autorais, cujo sentido foi revolucionado pela internet. Aplicar antigos modelos a uma nova realidade.

Contudo, temos uma forte produção jornalística em formato de empresa tradicional e, durante muito tempo, ainda teremos. Talvez essa parte nunca mude, garantindo as coisas boas e ruins dessas estruturas. O fato é que isso está sustentado em uma relação capital/trabalho, ou melhor dizendo, patrão/empregado. Sim, colegas jornalistas, apesar de muitos de nós pensarem que não, nós somos trabalhadores. É difícil ouvir isso, mas é a realidade.

De tempos em tempos, somos surpreendidos com notícias de demissões coletivas em veículos de comunicação. Motivos são vários: garantir a sobrevivência do veículo, aumentar a margem de lucro, gerar capacidade de investimento em outros produtos da empresa. Há ainda os casos em que um jornal fecha as portas e boa parte das pessoas simplesmente vai para a rua por má gestão e erros na condução da publicação.

Razões podem existir para o encerramento das atividades de um veículo ou a diminuição de sua força de trabalho. Mas o que não entra pela minha cabeça é que isso seja encarado tão bovinamente por todos nós.

E que algumas empresas que defendem a democracia e o diálogo como processo de construção de uma sociedade melhor, ignorem isso quando se trata delas próprias. É um negócio e pertence a alguém? Claro! Mas cresceu graças ao suor de trabalhadores, que deveriam ser consultados e chamados a compartilhar decisões. Quando demissões coletivas ou fechamentos de fábricas acontecem em linhas de montagem de veículos, metalúrgicos mobilizam o Pai, o Filho e o Espírito Santo, informam a população, além de cruzarem os braços até que uma solução seja encontrada para reverter o corte de vagas ou, pelo menos, criar compensações à altura. Nós, não. Vemos colegas irem embora e não fazemos nada. Ou melhor, ficamos com medo de sermos os próximos.

E não estou falando de um caso específico, pois veículos têm fechado as portas, como ocorreu nesta semana. E outros tantos sangram lentamente.

Raramente fico sabendo de um ato de solidariedade aos demitidos por aqui. Por exemplo, braços cruzados e hoje não tem jornal/revista/telejornal. Se fosse na BBC, no Corriere della Sera, no El Pais, seria diferente.

“Ah, mas nossa atividade é de primeira necessidade e não somos irresponsáveis como cobradores de ônibus que pedem melhores salários e fazem a população sofrer.” Legal como os discursos sobre a nossa pretensa importância foram martelados em nossa cabeça desde cedo, como bem lembrou ontem um amigo. Como se tivessemos um Bernardinho gritando no nosso ouvido: “Vai, você é o cara! O time depende de você! O país depende de você! O universo depende de você! Prossiga! Prossiga!” – com trilha sonora de Eye of the Tiger, é claro.

Nós, jornalistas, muitas vezes não nos reconhecemos como classe trabalhadora. Devido às peculiaridades da profissão, desenvolvemos laços com o poder e convivemos em seus espaços sociais e culturais, seduzidos por ele ou enganados por nós mesmos. Só percebemos que essa situação não é real e que também somos operários, transformando fato em notícia, quando nossos serviços não são mais necessários em determinado lugar.

Alguns colegas vão repetir: japa, mas essas mudanças são boas. Agora, os jornalistas vão poder trabalhar por conta própria e criar seus próprios veículos na internet. Como se um grupo de pessoas que, durante toda a vida, trabalhou em uma estrutura empresarial possa, de uma hora para outra, tornar-se um empreendedor de sucesso. Tendo família para sustentar, contas a pagar e sem a disposição de tentar do zero e dar com a cara no muro. Financiamento coletivo, patrocínio cruzado, enfim, há quem lide com isso de forma mais fácil. Mas lembrem-se que a maioria não foi programada para isso. Por isso, temos o chamado “Milagre da Multiplicacão dos Frilas”, que eram assalariados e tornaram-se “chefes de si mesmos”. Alguns são felizes por não terem férias remuneradas. Outros, não.

Talvez o futuro seja um misto de tudo isso, emprego CLT, frilas, empreendedores individuais ou coletivos, pessoas produzindo conteúdo em redes, ONGs, enfim. Mas, hoje, o que me preocupa são os viventes e suas contas a pagar.

O que estou pedindo? Jornalistas do mundo, uni-vos? Que tamancos sejam jogados nas prensas dos jornais? Nem… isso seria muito brega. Ou melhor, kitsch. O que gostaria de lembrar é que as coisas vão mudar cada vez mais rápido. E temos duas opções: encarar isso sozinhos ou juntos.

Como já citei aqui antes, gosto do poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht que trata da indiferença:

“Primeiro levaram os comunistas,/Mas eu não me importei/Porque não era nada comigo./Em seguida levaram alguns operários,/Mas a mim não me afetou/Porque eu não sou operário./Depois prenderam os sindicalistas,/Mas eu não me incomodei/Porque nunca fui sindicalista./Logo a seguir chegou a vez/De alguns padres,/ Mas como nunca fui religioso,/também não liguei./Agora levaram a mim/E quando percebi,/Já era tarde.”

Maiakovski e Niemöller, entre outros, também fizeram textos semelhantes, escrevendo sobre o não fazer nada diante da injustiça, até que, enfim, o observador passivo se torna a vítima. Acrescento a isso John Donne, poeta inglês, citado em “Por Quem os Sinos Dobram”, de Ernest Hemingway, ao defender que a morte de qualquer homem me diminui, pois sou parte da humanidade: nunca procure saber por quem os sinos dobram.

Pois eles dobram por ti.

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