terça-feira, 4 de junho de 2013

A entrevista de Lula aos peruanos

Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

Vai ficando engraçado.

Para você saber o que Lula ou Dilma realmente pensam, você tem que ler entrevistas de jornais estrangeiros.

Por razões mais que justificadas, nenhum dos dois confia nas boas intenções da grande mídia nacional.

Agora vemos Lula falar sobre a mídia a um jornal peruano que, ele sabe, não irá distorcer suas palavras ou editá-las tendenciosamente.

Algumas coisas na entrevista de Lula chamam a atenção. Primeiro, a admissão de seu problema com a mídia.

Espirituosamente, como de hábito, Lula diz que quando é atacado pela mídia dizem que é uma crítica, e quando ele critica dizem que é um ataque.

O talento de Lula como frasista, amplamente traduzido em votos e aprovação pela voz rouca das ruas, é subestimado pelos doutores gramaticais que povoam o ambiente jornalístico e político nacional.

Na entrevista, Lula afirma também, com uma ponta de orgulho, que nunca deixou de colocar publicidade em veículos que o atacavam.

Bem, aí a questão é um pouco mais complexa.

Lula perdeu a oportunidade, em seus oito anos de presidência, de corrigir uma aberração provocada por uma invenção abjeta de Roberto Marinho, os infames BVs (bônus por volume).

Os BVs são uma propina legalizada pela qual a Globo mantém agrilhoadas as agências de publicidade. Muitas delas simplesmente dependem do BV, aliás pago antecipadamente, para não quebrar. Isso quer dizer que as agências vão veicular seus anúncios na Globo, para receber a comissão, ou propina, salvadora.

É um artifício tão abjeto quanto a reserva de mercado de que gozam as empresas jornalísticas, livres da competição capitalista que tanto reclamam para os outros.

Você pode e deve perguntar: mas e os anunciantes, por que ficam calados com o BV? Afinal, é o dinheiro deles que está sendo usado para que a Globo libere o BV para as agências.

Este é um ponto que tende a ser mais e mais debatido. Nos dias em que a Globo tinha audiências de 60%, 70%, 80%, nenhum anunciante ousava correr o risco de entrar na lista negra da emissora.

Isso muda, naturalmente, quando as audiências, sob o impacto da internet, vão se reduzindo brutalmente.

O anunciante temia ficar de fora do Fantástico com 60% de audiência. Mas e do Fantástico com menos de 20%, e caindo, e caindo, e caindo?

O mercado vai fazer com o BV o que a administração de Lula poderia ter feito ao longo de oito anos. Enterrá-lo, em nome da moralidade e da concorrência justa.

Mas Lula não fez o que deveria fazer, em parte por seu caráter conciliador. Em vez disso, preocupou-se em comparecer ao enterro de Roberto Marinho, decretar luto nacional e elogiá-lo numa nota pública.

A omissão de Lula, na questão da publicidade oficial, resultou em 6 bilhões de reais anunciados com dinheiro do contribuinte na Globo em dez anos – inercialmente e absurdamente.

O espírito conciliador, se vê bem nesse caso, é o mais superestimado dos defeitos, porque inibe transformações vitais.

E então chegamos à parte mais importante da entrevista. Com toda razão, Lula lembra que tevê é concessão pública. Deveria ser usada para elevar culturalmente os brasileiros, e não para promover o poder e a fortuna da família Marinho.

Também não poderia ser usada como ‘partido político’, como afirmou Lula.

Perfeito.

Mas o que ele fez como presidente para evitar isso?

A conciliação cobrou também aí um preço alto – pago pela sociedade, aliás.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente: