quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O golpe na Ucrânia e o imperialismo

Foto: REUTERS/Valentyn Ogirenko
Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:

Eu sempre gostei do blog Castorphoto, porque ele oferece traduções de artigos incríveis sobre política internacional. O brilhante Pepe Escobar, que escreve em inglês para o Asian Times, aparece frequentemente por lá.

A única coisa que se podia criticar no Castorphoto era uma visão algo paranoica do imperialismo americano e suas mídias corporativas.

Bem, depois das revelações do Wikileaks, ou mesmo antes delas, com a constatação de que o Iraque foi invadido à toa, pois não tinha armas de destruição em massa, depois de Snowden e a revelação do grau de sofisticação da espionagem da NSA, com programas capazes até de prever comportamentos, não há mais espaço para ingenuidade.

Todas as teorias paranoicas se revelaram, em verdade, tímidas.

Mais recentemente, as revoltas no mundo árabe foram completamente manipuladas pelo imperialismo americano e europeu. Usaram-se manifestações espontâneas e legítimas para derrubar governos incômodos. A quantidade de desinformação que rolou durante a primavera árabe é assustadora. Lembro-me das histórias terríveis que circulavam contra Kadafi, na Líbia. Até eu balancei. Só que, perto da situação atual, a Líbia de Kadafi era um paraíso. Hoje se tornou uma colônia de EUA e Europa.

A coisa fica ainda mais estranha, porém, quando vemos manifestações dita populares querendo derrubar governos eleitos, como se vê na Tailândia e Ucrânia. Isso é um perigo, que ocorre em países onde não há um sistema interno de comunicação maduro e onde há influência excessiva de alguns valores ocidentais – não necessariamente democráticos, mas imperialistas – na cabeça da juventude.

A presença da violência é um elemento chave para identificar o germe golpista. Manifestações genuinamente democráticas não costumam apelar à violência. Quando a violência aparece, desperta uma espiral que não tem fim, e faz abrir o olho do dragão: os mafiosos da indústria bélica internacional, sempre interessados em fomentar guerras civis mundo à fora para venderem mais armas.

Então, pessoal, olho vivo! Ainda mais porque todos os grupinhos de extrema-direita presentes no Brasil andam um bocado excitados com o que ocorre na Ucrânia, e são os mesmos que apoiam o movimento #naovaitercopa.

Segue mais um artigo atento do Moon of Alabama, traduzido pelo pessoal da Vila Vudu.

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EUA e União Europeia juntos para derrubar a democracia na Ucrânia

8/2/2014, no blog Moon of Alabama
“U.S. EU United To Overthrow Democracy In Ukraine”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu, no blog Castorphoto.

O barulho em torno da declaração da secretária-assistente de Estado Nuland, dos EUA, para a qual “Foda-se a União Europeia”, está, de certo modo, ajudando a mascarar a questão real.

Um telefonema feito por linha não encriptada, entre Nuland e o embaixador dos EUA em Kiev foi, ao que parece, gravado pelos serviços de segurança da Ucrânia. Enquanto o Departamento de Estado tentava (como já é rotina nesses dias) culpar os russos, o tuíto de um funcionário russo lembrava que a gravação só apareceu mais de 24 horas depois de outra fonte ter distribuído, pelo Twitter, o link correspondente. O funcionário russo, portanto, não era a fonte original.

O telefonema gravado revela várias questões:

1. Os EUA estão, inegavelmente, tentando derrubar um governo democraticamente eleito e o presidente da Ucrânia; e querem pôr lá, no governo, um dos fantoches da “oposição”, como preposto dos norte-americanos. A própria Nuland diz (vídeo, em 7’26 a seguir) que os EUA, desde os anos 1990s, “investiram” mais de $5 bilhões para a tal “democratização” da Ucrânia. É altamente provável que os EUA, como o governo ucraniano tem dito, esteja pagando muitos dos “manifestantes” em Kiev.

2. Alguns países da União Europeia (Alemanha, Polônia e países do Báltico) também querem derrubar o governo da Ucrânia; esses (especialmente Merkel) também querem um fantoche, lá, como o boxeador Klitschko, no posto de manda-chuva. Mas os demais países da União Europeia não querem ter de pagar para comprar um novo governo para a Ucrânia, em troca de saquear país já muito pobre; esses países da União Europeia que também querem um golpe têm pouco a oferecer; e não têm meios para ameaçar a Ucrânia com sanções nem com qualquer outro tipo de chantagem.

O “Foda-se a União Europeia” é coisa, só de diferença de estilo. Os EUA querem, primeiro, impor sanções contra governo legal e contra o povo ucraniano, para, depois, instalar lá um fantoche dos EUA; e os países da União Europeia querem fantoche diferente; e querem golpe menos barulhento e escandaloso.

O barulhão no proscênio também está ajudando a esconder outra questão importante que se desenrola nas coxias. Os protestos na Ucrânia estão sendo liderados por movimentos e grupos de extrema direita, que não se deterão ante nenhum tipo de brutalidade e podem levar até à guerra civil:

“A organização física dos protestos, a construção de barricadas em torno das praças, grande parte do acampamento já construído e o policiamento, e as furiosas batalhas contra a polícia são, quase integralmente, ação da extrema direita. Em algumas cidades menores do interior da Ucrânia, os “protestos” locais e a tomada de prédios públicos parecem ser trabalho, exclusivamente, do Pravy Sektor.

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Aqui em Kiev, alguns membros do exército de mascarados com capacetes dizem que apoiam o principal partido de direita dos nacionalistas ucranianos, o Partido Svoboda (Liberdade), que recebeu apenas 10% dos votos nas eleições parlamentares de 2012, e cujo líder Oleh Tyahnybok, é conhecido por insultar judeus.

Mas o pessoal que forma os grupos maiores e mais agressivos, que em geral recusam-se a falar com jornalistas, são membros do Pravy Sektor, grupo guarda-chuva no qual se reúnem fascistas, nacionalistas, torcidas organizadas de times de futebol e gangues de extremistas de direita – alguns com história de militância em grupos neonazistas –, considerado em geral como à direita do Partido Svoboda e que opera como gangue extremamente fechada, cheia de segredos. Até agora, o Pravy Sektor ainda não se apresentou como partido político.

Quer dizer, então, que os EUA e a União Europeia parecem acreditar que conseguirão manter sob controle essas forças? Ou as estão pagando? Mas… Exatamente como os terroristas na Síria, os fascistas na Ucrânia logo estarão mandando no jogo, tão logo a pressão pelos EUA e a União Europeia contra o governo legal dê àqueles grupos fascistas qualquer pequena chance de assaltar diretamente o poder. Eles já ameaçaram, até, com iniciar uma guerra civil.

Encurralando o presidente eleito da Ucrânia e empurrando-o na direção de renunciar, os EUA e a União Europeia estão visivelmente – por razões que só interessam a EUA e União Europeia – criando o perigo de lançar a Ucrânia numa guerra interna que EUA e União Europeia não conseguirão controlar.

O barulho que a imprensa-empresa está fazendo sobre o “Foda-se a União Europeia” está ajudando a encobrir esses outros aspectos desses planos enlouquecidos.

2 comentários:

  1. Querido MIRO e obrigado por postar o MIGUEL DO ROSARIO DO BLOG O CAFEZINHO, vale acrescentar que o mesmo panfleto distribuído na SÍRIA pelos terroristas é igual ao que foi distribuído na UCRÂNIA só muda a escrita, cheque o panfleto no site PRAVAD.RU.e os assessores americanos dando aula de terrorismo a oposição, a verdade é que os americanos querem a base russa no mar negro.

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  2. Acho que fotos como essa acabam gerando o efeito contrário no Brasil. Aqui os jovens não sabem quem é o inimigo, e imitam o quem veem na mídia. Quanto a transparência no acesso ao poder, aí a discussão muda de figura. Não é redutível à fórmulas ou simplificações.

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