quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Foram os evangélicos que elegeram Bolsonaro?

Por Alexandre Brasil Fonseca, no site Carta Maior:

Olhar os números e dados disponíveis sobre as eleições é um exercício que pode levar a inúmeras conclusões. Uma delas que têm aparecido em diferentes espaços é de que teriam sido os evangélicos os responsáveis pela vitória de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil. Esse tipo de afirmação certamente soa como música nos ouvidos de pastores como Silas Malafaia e Magno Malta. Se fosse possível definir um tipo ideal do eleitor de Bolsonaro certamente ele seria evangélico, mas também teria que ser homem, residir em Santa Catarina, com isso poderia ser luterano, mas provavelmente imagino que seja batista. Certamente seria branco com idade em torno dos 30 anos, escolaridade de nível superior e renda acima de 10 salários mínimos. Essa figura está longe de ser o evangélico médio que povoa nosso cotidiano.

O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves comparou a votação dos candidatos e a relação entre a proporção de católicos e evangélicos nos Estados. Há pontos fora da curva, particularmente na Região Sul e de forma destacada em Santa Catarina, Estado em que Bolsonaro obteve a segunda maior votação percentual e onde a presença evangélica (20%) é menor do que a média nacional encontrada no Censo de 2010 (22%). Situação que somente ocorre em outros dez Estados. Neste caso é importante lembrar que o fato de haver alguma associação não implica, necessariamente, em uma causa, questão sinalizada pelo autor em alguns momentos de seu artigo.

Sobre a presença evangélica nos Estados é interessante notar, por exemplo, que no segundo Estado com maior percentual de evangélicos, o Espírito Santo (33,1%), aconteceu a derrota do Senador Magno Malta do PR, líder evangélico no parlamento, candidato à reeleição e bastante próximo ao presidente eleito. Já no Piauí, estado com menor percentual de evangélicos no Brasil (9,7%), aconteceu a reeleição da deputada federal Rejane Dias, evangélica e filiada ao PT.

Evangélicos se tornaram um ator político e eleitoral importante no Brasil recente, disso não há dúvida e várias candidaturas levaram isso em consideração seriamente. A principal delas foi a de Jair Bolsonaro. O presidente eleito tem dialogando com várias lideranças do seguimento evangélico desde que deu início à sua campanha há alguns anos atrás. Conversas que envolvem grupos evangélicos variados, indo muito além daqueles que já habitavam o universo político-eleitoral. Certamente há identificações e alguma convergência de opiniões, mas não se pode ignorar que também há um conjunto de ações intencionais que são direcionadas tendo em vista um determinado público.

Outros candidatos fizeram périplos similares com menor ou maior consistência e competência. Tivemos várias idas de Meirelles do MDB a eventos de evangélicos no tempo em que atuou como Ministro e depois como candidato. Alckmin do PSDB também buscou esta frente intensamente, incluindo lideranças evangélicas e políticas em sua grande coligação. Marina da Rede também fez reuniões e mesmo o PSOL contou com o apoio dos “Evangélicos com Boulos”. Provavelmente o candidato que tenha mais tardiamente considerado de forma mais efetiva este segmento tenha sido exatamente Fernando Haddad do PT que, somente, na segunda semana do segundo turno participou de uma reunião específica com pastores e lideranças evangélicas.

Olhar os resultados das pesquisas em relação à religião e a votação de Bolsonaro de fato impressiona. Os dados do IBOPE divulgados no dia 27 de outubro dão números um pouco mais modestos, talvez pela coleta de dados ter ocorrido posteriormente à do Datafolha (divulgado no dia 25 de outubro). Pela análise das duas é correto afirmar que entre os 42 milhões de eleitores evangélicos Bolsonaro obteve cerca de 20 milhões de votos e Haddad 10 milhões. Brancos, nulos e abstenções teriam ficado em torno de 12 milhões, o que representaria cerca de 67% dos votos válidos de evangélicos para Bolsonaro, enquanto Haddad teria recebido 33%. Também é importante sublinhar que pelos levantamentos feitos pelo Ibope no decorrer do segundo turno a campanha de Haddad virou, entre evangélicos, um pouco mais de 2 milhões de votos.

A diferença de votos entre os evangélicos foi praticamente a mesma diferença final geral obtida entre os candidatos. Considerar que a totalidade desta diferença se explica pela religião é algo totalmente desprovido de sentido e razoabilidade. É preciso observar o percentual a mais que o candidato obteve nos vários estratos oferecidos pelas pesquisas. Foi entre evangélicos, mas também na Região Sul, entre pessoas com nível superior e com renda acima de 5 salários mínimos que houve uma maior adesão à candidatura de Bolsonaro, com percentuais significativamente mais altos do que os obtidos na média da população.

Concordo com a afirmação de Eustáquio de que o voto evangélico foi fundamental para a eleição de Jair Bolsonaro, sendo que considero que sua importância se deu mais por aspectos qualitativos do que quantitativos. Uma primeira questão a sublinhar é que ao final a rejeição à Bolsonaro no segmento evangélico permaneceu em patamares baixos (28%), inferiores à média geral de 39% na população. Ainda mais devido ao fato de que, na média geral, houve um “empate técnico” das rejeições dos candidatos na reta final da campanha.

Outro fator é que a campanha direcionada aos evangélicos em vários níveis, inclusive na pauta dos valores, favoreceu o avanço de Bolsonaro em um segmento populacional em que este grupo é mais presente. Falo aqui de pessoas com escolaridade de nível médio (34% são evangélicos) e renda entre 2 e 5 salários mínimos (32% são evangélicos), grupos em que a vitória de Bolsonaro se efetivou exatamente por terem votado de forma distinta do que votaram na eleição de 2014. Nestas eleições tanto entre os mais pobres o PT manteve a liderança, como também manteve o baixo desempenho entre os mais ricos, a diferença se deu nos segmentos médios, os quais acabaram por dar a vitória ao candidato do PSL.

Portanto, é importante sublinhar que a religião não explica isoladamente o não-voto no PT, faz parte e fundamenta uma narrativa, mas não é suficiente. O PT ainda aparece como o partido preferido entre os evangélicos, como também para o conjunto da sociedade, partido que mais elegeu governadores e deputados federais e que tem à sua frente o desafio de se recolocar como oposição após anos em que ocupou o lugar de vidraça.

Para se relativizar ainda mais uma possível determinação do voto evangélico é um salutar exercício pensar que existiram motivações variadas que levaram, por exemplo, a cerca de 30% de pessoas LGBTI a votarem em Bolsonaro ou a um pouco menos da metade de pretos e pardos a também tomarem essa decisão. Existem motivos que perpassam a sociedade como um todo e que envolvem diversos segmentos. Nas análises é preciso incluir a associação com a crise por que passa o país e que é relacionada à questão da corrupção e às gestões do PT, por um lado e, por outro lado, que demarcam a identificação construída pela campanha de Bolsonaro de que este seria resposta para e negação da “velha política”. Neste sentido o resultado pífio de partidos históricos como PSDB e MDB - mesmo com recursos financeiros, estrutura e tempo de TV – são sintomáticos. Também há uma situação de grave insegurança pública que afeta o conjunto da população brasileira de forma emblemática. Ter um discurso enfático sobre essa questão foi uma das bandeiras de Bolsonaro e deve fazer parte do repertório de explicações que buscam compreender as motivações para o voto no candidato.

Lembro do título de um livro organizado pelo professor Wilson Gomes diante dos holofotes que foram direcionados para o neopentecostalismo no final do século passado. Ao propor uma abordagem analítica e crítica sobre os fenômenos que vinham ocorrendo e que recebiam um conjunto de afirmações preconceituosas o autor afirmou que era importante ter em mente que os neopentecostais não representavam “nem anjos, nem demônios”.

Ao pensar no resultado eleitoral de 2018 penso ser temerário parabenizar lideranças evangélicas em relação à vitória do Bolsonaro, como também – a depender do gosto do freguês – apontar o dedo para o segmento afirmando ser este o “culpado” por esta vitória. A complexidade de fatores e as multivariadas explicações envolvidas não nos permitem ir tão longe. Ainda lembrando do texto de Gomes, penso ser possível afirmar sim uma “eficiência comunicativa” da campanha de Bolsonaro em relação aos evangélicos, grupo que reúne expressivo segmento populacional com significativa organicidade. E isto envolve tanto uma estratégia, mas passa também por convicções e pelo compartilhamento de visões de mundo e valores. Aqui é importante lembrar da necessidade e da importância de uma candidatura ter verossimilhança na campanha eleitoral, elemento que esteve muito presente em Bolsonaro e que foi pouco percebido, por exemplo, na campanha de Alckmin.

Questão que não ficou somente no discurso, mas que tem se manifestado concretamente em atos que reafirmam e reforçam o compromisso de Bolsonaro para com este grupo de eleitores. Situação que passa tanto pela escolha de seu lema de campanha, mas que também inclui ida a cultos, encontros com religiosos e mesmo a oração antes do seu primeiro discurso. Concretamente também temos entre os nomeados na equipe de transição a presença de, pelo menos, três lideranças ligadas ao mundo evangélico com perfis distintos que dão bem a dimensão de como Bolsonaro tem atuado junto a amplos segmentos evangélicos, grupo que envolvem diferentes realidades, mas que se convencionou chamar de uma coisa só.

O principal articulador político de Bolsonaro e futuro Ministro da Casa Civil, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), é membro da Igreja Evangélica Luterana do Brasil e na internet é possível encontrar fotos de reuniões em que ele presta contas de seu mandato à Diretoria da denominação. Também há o Procurador da Fazenda e pastor da Igreja Cidade Viva Sérgio Queiroz, sua comunidade tem origem na Primeira Igreja Batista de João Pessoa e tem perfil de classe média e alta, possuindo Queiroz doutorado em teologia.

O outro evangélico é Pablo Tatim, advogado que é membro da Diretoria e procurador da Igreja Assembleia de Deus Ministério da Restauração. Tatim foi chefe de gabinete do Ministro do Trabalho Ronaldo Nogueira, de quem era assessor parlamentar em seu mandado como deputado federal pelo RS. Atualmente desempenha o papel de Secretário Executivo do Ministério da Secretaria-Geral da Presidência, pasta que tem o deputado federal pelo DF Ronaldo Fonseca à frente. Além da relação com Tatim, tanto Nogueira como Fonseca têm em comum o fato de serem pastores da Assembleia de Deus e de não terem sido reeleitos.

A democracia prevê a participação social dos cidadãos e cidadãs de um país nos processos decisórios, neste sentido hoje se impõe aos partidos políticos considerar e promover discussões que tenham no horizonte as diferentes gramáticas e narrativas existentes na sociedade. Em relação aos evangélicos há uma enorme diversidade e fortes estruturas econômicas que envolvem empresas diversas que atuam junto ao segmento. Porém também há grupos e pessoas identificadas com a religião e que estão envolvidas em diferentes movimentos sociais, sejam de sem-terra; sem teto; de promoção e defesa dos Direitos Humanos, entre tantos outros. 

As esquerdas não podem cair no equívoco de crer que há uma indesejável divisão do Brasil entre “nós e eles” que coloca os evangélicos todos somente de um lado. Muitos pastores gostam de repetir e defender isto, mas como já pregou o, já aqui citado, Pastor Sérgio Queiroz é possível encontrar entre os primeiros e diretos assessores-discípulos de Jesus representantes tanto da extrema direita com da extrema esquerda daquela época. A diversidade e a descentralização são características centrais da comunidade evangélica, entender isso é um primeiro passo para quem tenha real interesse em estabelecer diálogo.

Afirmar uma “culpa evangélica” na eleição de Bolsonaro interessa especialmente àqueles que estão ao lado do presidente eleito e que empenharam tempo e recursos em apoio a ele. Pelos dados do Ibope do dia 27 de outubro, pode-se afirmar, por exemplo, que percentualmente o desempenho de Bolsonaro foi mais significativo entre pessoas residentes na Região Sul e entre pessoas com renda superior a 5 salários mínimos. Se olharmos para a questão quantitativa, considerando quantos votos a mais da média da população que ele obteve em determinados segmentos, temos que entre pessoas que se declararam brancas e entre homens ele teve o volume mais significativo de votos. Nos dois casos, tanto no quantitativo de votos como no percentual, o segmento evangélico aparece na terceira posição.

Não há dúvidas de que o voto evangélico desempenhou importante papel na vitória de Bolsonaro, especialmente por sua capacidade em atingir setores que na última eleição votaram mais na candidatura do PT à Presidência. A campanha de Bolsonaro assumiu tanto no discurso como em atos práticos uma preferência para com este segmento. Daí a afirmar de que a culpa ou o mérito recai sobre os evangélicos é um passo longo que ignora uma série de outros elementos da conjuntura que, felizmente, não é tão simples e dicotômica como algumas análises parecem desejar que fossem.

Afirmar que a responsabilidade da vitória de Bolsonaro foi dos evangélicos pode ser cômodo e até mesmo prático, mas está longe de ser útil enquanto análise social e penso que seja ainda menos útil para a reflexão daqueles que foram às urnas com livros nas mãos. Vaticinar essa responsabilidade ignora uma série de anseios e desejos que povoaram expressiva parcela da população e desconsidera uma campanha que utilizou na sua narrativa um conjunto de informações relacionadas a valores, os quais – é preciso sublinhar pelo pitoresco que representa – se consolidaram a partir de uma estrutura de difusão de mentiras.

Entender o voto em Bolsonaro, passa por considerar estes elementos, mas também considerar a adesão consciente e os desejos e respostas que esta candidatura materializou, alcançando, entre tantos outros, uma significativa parcela dos evangélicos. Grupo que, curiosamente, já foi identificado – antes da chegada dos smartphones – exatamente como o “povo do Livro”.

* Alexandre Brasil Fonseca é sociólogo, professor associado da UFRJ e doutor em sociologia pela USP com pós-doutorado pela Universidade de Barcelona. É autor de “Evangélicos e Mídia no Brasil” e de “Relações e Privilégios: Estado, secularização e diversidade religiosa no Brasil”.

* Republicado a partir do site da IHU On-Line.

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