quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Quando a ignorância provoca orgulho

Por Ayrton Centeno, no jornal Brasil de Fato:

Aqueles que observam o fenômeno Bolsonaro de forma mais crítica e, por que não dizer, com certo humor, revelam uma discordância sobre as eleições e a ressaca pós-eleitoral. Um dos grandes nomes da fotografia, o brasileiro Sebastião Salgado, acha que o Brasil “ficou louco”. No seu diagnóstico, o país já dava “sinais de insanidade”, dois anos atrás quando operou um impeachment sem crime de responsabilidade. Quadro patológico que, agora, se agravou. Muita gente também entende que o Brasil não enlouqueceu, mas foi assaltado por um surto incontrolável de idiotia.

Bem, as duas hipóteses não são excludentes. Até porque, tanto a loucura quanto a burrice podem se enamorar do fascismo. Nos dois casos, os sintomas do paciente são similares: negacionismo, intolerância, brutalidade. Para quem sofre as consequências pouco importa se o motor daquilo é demência ou disparate.

Os italianos, que conviveram por décadas com o fascismo, primeiro apaixonadamente e depois com uma raiva que acabou dependurando Mussolini num gancho de açougue, sempre gostaram de discutir o assunto.

Federico Fellini, por exemplo, tratou dele no cinema e numa antiga entrevista ao El País, da Espanha. “A época do fascismo elevou a imbecilidade ao nível de pensamento político”, comentou o diretor. Para nós, 73 anos após a derrota do fascismo de Mussolini, é uma descrição que parece bem familiar, não?

Outro italiano, Umberto Eco, notou que, sob o prisma fascista, “pensar é uma forma de castração”. O escritor e filósofo explicou que, por isso mesmo, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas.

“Foram tempos em que caía bem apresentar-se como ignorante”, agregou Fellini. O que nos aclara outro ponto: numa sociedade regida pelo fascismo, a cultura não só é suspeita como deplorável. Mais vale cultuar o corpo do que o espírito. Na Itália fascista, reparou Fellini, todo mundo se pôs a fazer ginástica e os músculos, desde logo, ganharam mais importância do que o saber. Para ele, “o fascismo foi triste porque fez com as pessoas se tornassem estúpidas e más. O italiano, em geral afável, despreocupado e generoso, tornou-se venal e instável”.

Logo, se a cultura é suspeita, cultiva-se a ignorância. O que Fellini e Eco testemunharam, na Itália fascista, reproduz-se em Pindorama. Aqui, turbinado pelas fake news que fazem vítimas aos milhões e instantaneamente. Sob bombardeio, figuras antes até doces, transformam-se. Convertidas, buscam a verdade que mais se adapta a sua transformação. Da cogitação partem em velocidade de trem-bala para a convicção sem um pit-stop na reflexão.

Então, fica mais fácil entender a existência de pessoas que, ainda hoje, acreditam naquela montagem da capa da revista Forbes apresentando Lula como o sujeito mais rico do país. Ou que o ex-presidente também é dono da Folha de S. Paulo. Juram que Dilma importou 50 mil haitianos para votarem nela em 2014. É a mesma massa que, em 2018, acreditou na existência do kit gay e que Haddad distribuiu mamadeiras em formato de pênis. Muitos professam a teoria da terra plana. Aos terraplanistas juntam-se os criacionistas e os que rejeitam a vacinação, expondo suas crianças a doenças que podem ter consequências trágicas.

Nenhuma dessas tolices – e dezenas de outras – é admitida em voz baixa, quase em sussurro, em particular. Muito pelo contrário. São gritadas para o mundo na rua, no whatsapp, no facebook, no instagram, nas caixas de comentários.

Há uma espécie de orgulho de ser burro. Como escreveu um amigo, é a “burrice-ostentação”. Algo que não exige maior esforço. Afinal, não é necessário estudar para ser fascista. É uma ideologia absorvida mais pelo emocional do que pelo racional. Mais pelos bíceps do que pelo cérebro. E, para azar do Brasil, muito mais vem a caminho.

* Ayrton Centeno é jornalista. Trabalhou, entre outros veículos, no Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra e autor de "Os Vencedores" (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017), entre outros livros.

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