quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Bem-vindos à Escola Sem Partido

Por Guilherme Boulos, na revista CartaCapital:

Em alguma escola desta terra sofrida chamada Brasil, quando ficção e realidade já não se distinguem mais:

‒ Hoje é um momento muito especial para nossa escola. É o primeiro dia de aula depois da aprovação do projeto de lei que tanto esperávamos. Sejam todos bem-vindos à Escola Sem Partido!

‒ Graças à nossa luta, neste momento, as salas de aula de todas as escolas do Brasil têm um cartaz como este. Leiam com muita atenção: “Os professores estão proibidos de promover qualquer opinião e preferência moral ou política”. Estou aqui para contar a verdadeira história! Quem ensina não pode escolher a versão dos fatos que mais lhe agrada.

‒ Mãos à obra. Hoje entraremos na década de 1960. Entre 1961 e 1964, o Brasil foi presidido por João Goulart. Jango, como era conhecido, foi um presidente muito próximo de países com índole subversiva. Promoveu a desordem durante seu governo e incitou à divisão dos compatriotas entre ricos e pobres.

‒ Abram a apostila e lerão o discurso que o então presidente fez em comício na Central do Brasil em março de 1964. Sublinhem ao menos três palavras de viés comunista. Boa escolha, Amanda. “Reforma agrária”, “pelo voto do analfabeto” e “justiça social”.

Em cada linha há ao menos mais três. A ideologia marxista foi a base desse discurso feito para milhares de agitadores no Rio de Janeiro. As reformas de base de Jango eram na verdade uma armadilha para a implantação de uma ditadura comunista no Brasil.

‒ Mas isso foi felizmente evitado! Na sequência, vocês podem ver as fotos da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, poucos dias depois do comício na Central. Observem, um a um, os rostos dos brasileiros que aparecem na imagem. Notam o patriotismo das faixas “Vermelho bom, só batom” e “Verde Amarelo, sem foice e sem martelo” nas mãos desses corajosos que fizeram história?

‒ Foi esse movimento de defesa da pátria e da família brasileira que salvou a democracia do perigo representado pelo então presidente. Os militares tiraram Jango do poder para evitar a infiltração comunista e restaurar a ordem no País. Tudo dentro da lei, como pode ser lido no discurso do presidente do Supremo Tribunal Federal do dia 2 de abril.

‒ Leiam todos juntos: “O desafio feito à democracia foi respondido vigorosamente. Sua recuperação tornou-se legítima através do movimento realizado pelas Forças Armadas, já estando restabelecido o poder de governo pela forma constitucional''. Muito bem.

‒ Como vocês podem imaginar, foram muitas as tentativas de desestabilizar a lei e a ordem. A linha do tempo dos 21 anos do “movimento de 64” mostra a foto dos cinco militares que tiveram como missão presidir o País. Sem dúvida, o que teve mais dificuldades em manter a Constituição e conter a subversão foi o terceiro da lista: o general Costa e Silva.

Em dezembro de 68, foi obrigado a decretar o Ato Institucional nº 5 para assegurar a ordem pública. Leiam no quadro explicativo: "Encontrar os meios indispensáveis para a obra de reconstrução econômica, financeira e moral do País" foi a justificativa da importante medida.

‒ O presidente fechou o Congresso Nacional, que estava sob suspeita de infestação pelos subversivos, suspendeu direitos humanos para humanos que não eram assim tão direitos e mandou prender uma série de políticos, entre eles o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

‒ Rubens, vejo que está com a apostila antiga, onde ainda aparece a foto de um homem enforcado em uma cela. A foto da morte de Vladimir Herzog em outubro de 1975 saiu do material escolar porque a Escola Sem Partido não aceitará mais narrativas esquerdistas de que ele foi torturado até a morte. Na verdade, como foi exaustivamente comprovado à época, o jornalista suicidou-se em sua cela.

‒ Para os que desejarem alguma bibliografia complementar, sugiro o livro A verdade sufocada, do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, na nova edição especialmente feita pelo governo para todas as escolas do País. Tá ok?

‒ Muito bem, encerramos nossa aula de hoje com o exercício de preparação para novo Enem, devidamente fiscalizado pela autoridade máxima de nossa República. A primeira questão pede para assinalarmos os resultados alcançados do regime militar:

Resgate da família e dos bons costumes. Eliminação da ameaça comunista. Fim da corrupção. Perfeito, Roberto, a resposta certa é letra d: todas as anteriores! Até semana que vem, senhores. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!

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