sábado, 16 de fevereiro de 2019

Precisamos democratizar a mídia

Foto: Lucas Martins / Jornalistas Livres
Por Lucas Martins, no site Jornalistas Livres:

Se você mora na cidade de São Paulo e, ontem, por volta das 17h ou 18h, circulou pelas regiões atendidas pela avenida 23 de Maio, você com certeza enfrentou um trânsito fora do comum, mesmo para os padrões congestionadíssimos da grande Metrópole. Muito provavelmente, você não sabe por que ficou parado um tempão a mais no trânsito. Já abrimos o spoiler: o que congestionou mais ainda a cidade foi a greve dos servidores municipais. “Como?” Olha aí… você nem sabia que os servidores estavam em greve.

Mas o que isso tem com mídia? Bom, se você não é servidor ou muito próximo de um, mesmo que seja atendido quase diariamente por eles, direta ou indiretamente, você está sem saber da greve porque o movimento dos funcionários públicos municipais tem sido apagado de toda a grande mídia. Desde o dia 4 de fevereiro, várias categorias (professores municipais, servidores da saúde, serviço funerário, etc. pararam o trabalho. Trata-se de um protesto contra a Reforma da Previdência que o prefeito Bruno Covas quer impor goela abaixo dos funcionários.

Agora responda: quantas vezes isso apareceu em algum grande jornal impresso, ou no jornal matinal e noturno que você vê, ou no rádio que te informa sobre o trânsito?

Ontem, alguns milhares de servidores saíram da Prefeitura e passaram mais de duas horas em caminhada, saindo da Praça do Patriarca, passando pela 23 de Maio e terminando na av. Paulista. As multidões em movimento mereceriam pelo menos alguns takes de um Globocop. Quem sabe você tenha ouvido algum rápido comentário, meio atrapalho e balbuciado, mas nada que passasse de parcos segundos. Sem imagens, com certeza.

Como pode isso? Existe um conceito que pode nos ajudar a entender. Trata-se da “Agenda Setting”, ou “agendamento”, que é o estabelecimento de uma agenda temática e discursiva comum entre diferentes veículos da imprensa.

Opa! Opa! Pera lá… Isso só pode ser teoria desses esquerdistas conspiracionistas, dirá o leitor desconfiado. Como podem os vários veículos, que competem entre si, montarem um cartel editorial e, em conjunto, evitar ou trabalhar uma mesma pauta?” É uma pergunta muito justa… Vamos enfrentá-la.

As grandes empresas de jornalismo, que hoje são conglomerados, são poucas. As marcas, os nomes que usam, podem até dar a impressão de que não é tão reduzido assim, mas olhem o exemplo: só as Organizações Globo detêm algumas emissoras de rádio, com nomes diferentes, mas pertencentes à mesma empresa. As Organizações Globo têm TVs, têm jornais, têm revistas, têm internet, financiam filmes e peças de teatro. Todos esses “negócios” obedecendo ao mesmo grupo de acionistas. Há, no Brasil, poucos grupos de acionistas que controlam a mídia toda… A Editora Abril, Folha de S.Paulo, Estadão, TV do Bispo Edir Macedo, de Silvio Santos, a Band e o grupo RBS, para ficar nos mais importantes. Poucas empresas para um país de dimensões continentais, como é o Brasil.

Um dos maiores estudiosos de mídia, Francisco Fonseca, aponta em seu clássico “O Consenso Forjado: A grande Imprensa e a Formação da agenda ultraliberal no Brasil” que as empresas de mídia são, antes de tudo, empresas.

“Impressiona a ausência de vozes discordantes nos jornais, seja nas coberturas seja sobretudo nos argumentos que a opinião editorial esgrima (quanto a esta, representa a síntese de um periódico, pois orienta e influencia toda a cobertura jornalística e poderia, no mínimo, discutir os diversos argumentos disponíveis). Tudo se passa como se a grande imprensa estivesse invariavelmente do ‘lado certo’, da ‘verdade’.”

A discussão entorno da Reforma da Previdência, como temos visto, tem uma única narrativa veiculada em todos os grandes jornais brasileiros: ela é emergencial! Se não for feita imediatamente, o País vai à falência! A Reforma da Previdência é o caminho da Modernidade! E por aí vai.

Tudo mentira. Como grandes empresas que são as empresas de comunicação, em geral devedoras da previdência, essa reforma lhes interessa. Isso explica, por exemplo, o silêncio sepulcral sobre a greve dos servidores, que luta contra a reforma da previdência municipal.

Esse é um exemplo de como a concentração midiática gera, como tem sido o caso desta greve, casos de censura velada. O silêncio, por parte da imprensa é uma forma de auto-censura, para que não seja discutida a pauta colocada em vias públicas, pelos grevistas. O papel social da comunicação é o de trazer e aprofundar as discussões sobre assuntos que explodem na epiderme social. E como pode um silêncio desse, quando milhares de pessoas param uma das principais avenidas da cidade? É a defesa do próprio interesse desses grandes conglomerados de mídia.

Mas podemos entrar em vários aspectos de como esse cartel midiático molda o debate público.

Um dos casos mais batidos, e não menos importante: o jovem e o traficante. Quantas manchetes já não vimos falando sobre um indivíduo que foi preso na posse de alguma quantidade de droga. Se é um jovem negro e pobre, a manchete grita “Traficante”. Mas, se o implicado for um jovem branco, morador de um bairro rico, o texto o designará apenas como “Usuário”.

São alguns exemplos. Mas, chegamos aos finalmentes, o que isso tem com democratização da mídia? Esse esses vícios jornalísticos se constituíram em um ambiente de concentração entre veículos; poucos são os que tem alcance nacional. A internet nos trouxe algum alento. Surgiram essas que são as mídias independentes… “Opa! Essas mídias independentes são panfletárias, têm pouca credibilidade, são todas militantes!”, dirá um leitor apaixonado pela velha mídia.

Sobre a acusação de militante: as mídias independentes não vacilam ao se assumir como defensoras de um lado da disputa narrativa. O problema é esse verniz da imparcialidade que a grande mídia tenta lançar sobre si, quando seu papel como militante político é total. Suas escolhas e o próprio jornalismo que temos hoje no país são construídos de acordo com uma fórmula padrão que visa a esconder a natureza política da comunicação e do próprio jornalismo. Essas escolhas de pautas, histórias, entrevistados, vocábulos têm um fundo político. Mas envernizado.

Nos resta, menos do que mudar esse jornalismo padrão (que tem sua importância) fortalecer as mídias independentes. Que o melhor ganhe. O jornalismo abertamente politizado ou o dissimulado.

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