terça-feira, 9 de julho de 2019

Entre estas duas capas da revista Veja

Cynara Menezes, no blog Socialista Morena:

Após 15 anos se comportando como um panfleto antipetista, versão impressa do “Antagonista” – não é à toa que, durante metade desse tempo, a revista foi dirigida pelo mesmo fundador do site que é porta-voz do lavajatismo –, a Veja finalmente presta um serviço ao país neste final de semana. A revista que incensou Moro ao mesmo tempo em que satanizava Lula resolveu fazer jornalismo e revela ao país os diálogos mais contundentes entre o procurador Deltan Dallagnol e o ex-juiz Sergio Moro que têm vindo à tona através do The Intercept Brasil.

Pelos vazamentos aos quais à revista teve acesso graças à parceria com o site de Glenn Greenwald, ficamos sabendo que o então juiz não queria a delação de Eduardo Cunha, cuja esposa, Claudia Cruz, absolveu da acusação de usar dinheiro de corrupção em compras no exterior; que os procuradores comemoravam a “adesão” de ministros do Supremo à sua causa, com o diálogo “Aha, Uhu, o Fachin é nosso”, que se sucede ao já célebre “In Fux We Trust”; e que Moro, de forma ilegal para um juiz, orientava os procuradores, dava broncas e inclusive pedia a inserção de provas. Agia como o chefe de Dallagnol e não como o magistrado que deveria ser segundo a Constituição, o Código de Processo Penal e o Código de Ética da Magistratura. Moro violou os três.

Mas não podemos esquecer que, se resolveu voltar a se comportar como uma revista séria, a Veja (assim como os demais órgãos da imprensa comercial) agiu todos estes anos como cúmplice dos desmandos de Dallagnol, Moro e da Lava-Jato. Em sua Carta ao Leitor, a revista diz que “ao contrário daqueles que fomentam o ódio ou se aproveitam dele, nossos compromissos não são com pessoas ou partidos. São com princípios e valores”. Ou seja, mesmo quando fala a verdade, Veja mente: fomentou o ódio, sim; e se aproveitou dele para conseguir seu objetivo, que era tirar o PT do poder e prender Lula.

Na Carta em que reitera o apoio à Lava-Jato e sua convicção de que fez o correto no passado contra o PT, mesmo tendo sido acusada até de utilizar grampos ilegais para isso, contrariando qualquer manual de bom jornalismo, Veja reproduz as capas em que glorificou Moro, contribuindo vivamente para a aura de “herói” que o ex-juiz amealhou junto à opinião pública, mas omite as capas (mais de 70!) em que demonizou e pré-julgou Lula, exatamente como fez aquele a quem agora acusa. A mais famosa delas, com o ex-presidente vestido como presidiário antes de ser condenado. Se isso não é fomentar o ódio, se aproveitar dele e ter compromisso com partidos, não sabemos o que será.




Tanto quanto Moro e sua turma, Veja trabalhou duro para interferir nos resultados das eleições presidenciais no Brasil. Ou alguém esqueceu a tensão da “capa da Veja” antes de todos os pleitos desde que Lula chegou ao poder, em 2002, sempre sem apresentar nenhuma prova, como Dallagnol fez com o ex-presidente?

Às vésperas da eleição de 2014, a temida capa da Veja era “Eles sabiam de tudo”, baseada justamente na delação de um dos principais colaboradores “premiados” do juiz Sergio Moro desde a época do caso Banestado, o doleiro Alberto Youssef. Vista com os olhos de hoje, é uma espécie de power point do mau jornalismo que serviu para pavimentar o caminho do golpe contra Dilma Rousseff, presidenta legitimamente eleita, dois anos depois.



Veja não está cuspindo no prato que comeu, está cuspindo na fonte que bebeu. A revista da editora Abril não pode alegar que promoveu o ex-juiz de forma “inocente”, porque o mundo inteiro sabia que Moro agia com parcialidade com o objetivo de prejudicar Lula e o PT. Veja não informou a seus leitores disso porque se beneficiou das informações vazadas por este esquema. Moro e a Veja agiram como parças do mesmo conluio. Se Moro era um mau profissional como juiz, o mesmo pode ser dito da Veja em relação ao jornalismo.

Os vazamentos que estão vindo à tona pelo Intercept não são uma surpresa para ninguém, são uma prova de tudo o que a esquerda criticava na Lava-Jato desde o princípio: que era uma operação “contra a corrupção” apenas de um grupo político, fechando os olhos para os demais. Nenhum tucano jamais foi preso pela Lava-Jato, como sempre reclamamos, porque, revelaram as conversas no Telegram, Moro não queria “melindrar” Fernando Henrique Cardoso; assim como nenhum tucano foi demonizado por Veja como foi Lula. Pelo contrário, adversário de Dilma em 2014, Aécio Neves ganhou capa da revista, retratado como favorito, dias antes do segundo turno.



Entre a capa do final de 2015 elevando Sergio Moro ao status de “salvador da pátria”, e a deste final de semana, onde aprofunda seu “desmoronamento”, Veja foi uma das maiores responsáveis pela lama em que o Brasil se encontra chafurdado, chefiado por militares e civis de quinta categoria, pelo fundamentalismo religioso, por brucutus defensores de armas e pelo agronegócio mais predatório, e sem nenhum prestígio internacional.Veja não está cuspindo no prato que comeu, está cuspindo na fonte que bebeu. A revista sabia que a Lava-Jato era uma operação "contra a corrupção" apenas de um grupo político, fechando os olhos para os demais. Não informou a seus leitores porque se beneficiou das informações vazadas por este esquema.


Com mentiras, falsas acusações e a subversão completa do que se espera de um veículo de comunicação sério, a mídia comercial brasileira participou ativamente da conspiração que levou ao impeachment de Dilma e à ascensão da extrema-direita ao poder. É tão culpada pela eleição de Jair Bolsonaro quanto seus brothers da Lava-Jato.

Desde o “mensalão”, a revista Veja e os demais órgãos de comunicação do país cobram em uníssono, de forma repetida, um mea culpa do PT e de Lula em relação aos erros que cometeram. Este site também cobrou dos petistas um mea culpa, e de Lula, uma bem-vinda autocrítica pela excessiva proximidade com empreiteiros e por não ter investido em mudar a forma como se faziam campanhas políticas no país, em vez de se associar a ela. Mas quando chegará a vez de a chamada “grande” imprensa fazer a sua própria confissão de culpa pelo desastre a que levou o país, com seu ódio de classe a um partido político e a seu líder?

A Abril não é mais dos Civita, família que impeliu e orientou a guinada da Veja à direita, ao mau jornalismo e a um anticomunismo datado, não por acaso idêntico ao que impulsionou o bolsonarismo. Se a Veja quer voltar a ser uma revista de respeito, precisa reconhecer o papel sujo que cumpriu em um passado nada remoto.

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