domingo, 17 de maio de 2020

Bolsonaro quer modelo sueco contra Covid-19

Painel Covid-19, 17/5/20, Centro de Ciência e Engenharia
de Sistemas (CSSE) da Johns Hopkins University
Por Paulo Moreira Leite, no site Brasil-247:

Na tenebrosa conversa com empresários onde anunciou que está preparando uma guerra aos governadores, Bolsonaro disse tem um modelo para enfrentara covid-19, inspirado na Suécia.

É uma afirmação terrível. Mostra que os erros, desvios e manobras desastrosas que Bolsonaro tem cometido desde que a pandemia chegou ao país não são fruto do desconhecimento nem de mal-entendidos. É caso pensado.

Conhecida por ter inventado o Estado de Bem-Estar Social, em 1920, ponto de partida para o nascimento de uma das sociedades mais prósperas e equilibradas do planeta, o desastre acumulado pela Suécia na luta contra o coronavírus é um caso antológico

Recusando o regime de quarentena, aplicado na quase totalidade da Europa, inclusive entre os demais países nórdicos, o governo da Suécia cruzou os braços, evitando qualquer medida mais severa que implicasse em impor controles sobre a população.

Argumentando que cada família e cada cidadão seria capaz de cuidar de si, deixou a pandemia espalhar-se livre e solta.

O resultado é que hoje o país cumula um dos piores desempenhos entre os países desenvolvidos - e o mais ruinoso entre os nórdicos, que possuem um grau de desenvolvimento social semelhante.

Assim, conforme dados publicados pelo portal Nexo, em 8 de maio número de mortos na Islândia era de 10 pessoas.

Na Noruega, 217. Na Finlândia, 255 e na Dinamarca, 514. Já na Suécia, o total, já batia em 3040 - um número quase seus vezes superior ao segundo da lista.

Avaliando-se o total de habitantes pelo número de vítimas fatais, também se encontra uma diferença enorme: 300 mortos por um milhão de habitantes na Suécia. Na Dinamarca, 89, na Finlândia, 46 e na Noruega 40.

O aspecto grave no anuncio de Bolsonaro, é outro, porém.

Estamos falando num desastre ocorrido num país que possui um elevado grau de desenvolvimento econômico e equilíbrio social, sem comparação com a realidade brasileira.

A renda per capta na Suécia fica um pouco acima de US$ 30 000 - a brasileira é de US$ 8900 - e é infinitamente melhor distribuída.

A diferença entre o bloco dos 20% mais ricos é 4 vezes superior a dos 20%, enquanto a situação brasileira é aquele conhecido escândalo mundial. Conforme dados do IBGE,2,7% das famílias brasileiras concentram 20% do total de renda.

Outro dado envolve o mercado de trabalho.

Na Suécia, 77% dos homens têm emprego regular, acessível também para 68% das mulheres. Há muitos anos vigora, ali, uma versão pioneira de um programa de renda básica semelhante ao projeto de Eduardo Suplicy. Atinge não só as camadas mais pobres, mas também jovens universitários que precisam de renda própria.

Neste quadro, cresce hoje um consenso de que a opção de cruzar os braços foi um erro terrível. Países como a Inglaterra do conservador Boris Johnson chegaram a seguir o mesmo caminho de Estocolmo, mas já voltaram atrás.

Cabe considerar, também, um aspecto previsível.

Não há dúvida de que os defeitos deletérios de uma orientação errada puderam ser em parte minimizados pelo colchão de políticas públicas construído ao longo de um século.

E é claro que, em países com uma realidade social perversa, como o Brasil, ainda mais sob Bolsonaro-Paulo Guedes, o impacto só pode ser muito maior.

E aí chegamos ao ponto essencial.

Quando os cientistas de todo mundo já consolidaram conhecimento sobre a natureza indispensável da quarentena como única alternativa disponível para minimizar os danos do novo coronavírus, a única razão para Bolsonaro falar em "modelo sueco" nada tem a ver com saúde pública ou bem-estar de brasileiros.

Esta não foi nem será uma prioridade para seu governo, o que até ajuda compreender a permanente instabilidade de seus ministros da Saúde, incapaz de atingir os graus de crueldade que o presidente gostaria.

Como fez com a Previdência, as leis trabalhistas e um pacote inédito contra os direitos dos trabalhadores e da população superexplorada, Bolsonaro quer aproveitar a pandemia para pro multiplicar novos favores ao mercado financeiro. Só isso.

Alguma dúvida?

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