terça-feira, 22 de setembro de 2020

Liberalismo é tragédia para os trabalhadores

Por Jair de Souza

Foi tão somente há alguns dias que vimos se formar um enorme fuzuê quando, inesperadamente, Caetano Veloso declarou publicamente seu rompimento ideológico com o liberalismo.

Se tivesse sido feita aos cochichos e para apenas um punhado de amigos no escondidinho de algum bar, esta insólita revelação poderia ter sido abafada e teria se desvanecido rapidamente sem maiores transtornos para ninguém. Mas, o desbocado do Caetano resolveu fazê-la justo durante uma entrevista para a rede Globo que estava sendo vista por milhões de pessoas pelo Brasil afora. E como se isto por si só já não significasse um violento choque que atordoaria muita gente, ele fez questão de informar que sua mudança radical de opinião aconteceu por influência do jovem comunista Jones Manoel, quem lhe tinha apresentado os trabalhos do filósofo e historiador italiano Domenico Losurdo.

Portanto, nas palavras de Caetano, ele já não é mais o mesmo liberaloide de antes. Depois de ler alguns dos livros de Losurdo, sua anterior visão sobre o liberalismo não podia mais se sustentar. E, além disso, ele também passou a olhar as experiências socialistas com muito mais respeito.

Não resta dúvida de que a divulgação pública dessas novidades poderia ter um efeito desastroso para as elites econômicas que dominam nosso país! Por isso, o caso deveria ser tratado com seriedade. Se os questionamentos levantados por Losurdo em seus livros foram capazes de mudar a cabeça até de um intelectual do porte de Caetano Veloso, aos 78 anos e com um longo histórico de adesão à sacrossanta ideologia-mor do deus mercado, o que não poderia acontecer se o interesse por esses livros se espalhasse para um número significativo de gente preocupada em encontrar novos caminhos para o país?

Algo precisava ser feito de imediato, antes de que os conteúdos dos livros de Losurdo passassem a ser conhecidos e debatidos entre nossa intelectualidade. Assim sendo, os intelectuais orgânicos a serviço de nossas elites econômicas puseram mãos à obra na tarefa de minimizar danos. Como seria impossível encontrar argumentos convincentes para se contrapor às demolidoras revelações críticas sobre o liberalismo que os livros de Losurdo apresentam, a solução mais conveniente seria desviar o foco de atenção do tema em questão e tratar de desqualificar o mensageiro.

E foi assim que teve início um acalorado bate-boca sobre se Jones Manoel é ou não stalinista, ou se Domenico Losurdo era ou não stalinista, ou até mesmo para definir se Caetano tinha ou não se tornado stalinista.

Mas, o que preocupa não é saber se Jones Manoel é stalinista, ou trotskista; não interessa para nada se Domenico Losurdo é stalinista, ou trotskista. O que de fato importa é saber se o que ele nos revela acerca do liberalismo é verdadeiro ou falso. Na verdade, precisamos saber o que de importante Caetano encontrou naqueles livros para fazê-lo decidir se desvincular do liberalismo e começar a nutrir respeito pelo socialismo.

Teria sido porque Losurdo mostra documentalmente que a bela imagem pintada dos pilares do liberalismo não têm nada a ver com a realidade? Como seria possível o liberalismo representar a ideologia dos verdadeiros amantes da liberdade se todos os próceres do pensamento liberal foram entusiastas defensores da escravidão? Como entender que os grandes nomes na história do liberalismo foram ferrenhos defensores de instituições que tratavam de privar de direitos e de liberdade as maiorias populares?

O certo é que, através de uma rigorosa análise histórica, vamos nos dando conta de que John Locke, Alexis Tocqueville, Benjamin Franklin, Edmund Burke, George Washington, Bernard Mandeville e tantos outros dos grandes expoentes do liberalismo foram ardorosos apoiadores de regimes escravistas. Muitos deles não apenas em teoria, mas também na prática, pois eram proprietários de escravos. Quanto a isto, basta relembrar que os tão celebrados liberais que conduziram o processo de independência dos Estados Unidos eram senhores de escravos (George Washington e Benjamin Franklin, entre eles).

No entanto, não foi preciso inventar nada, nem mentir ou tergiversar, visto que são os próprios ideólogos do liberalismo que, em suas próprias palavras e em seus próprios atos, expressam sua aprovação à escravidão. Segundo eles, a liberdade é um direito fundamental e inalienável, mas não para todos, e sim para os grandes proprietários. Tanto assim que consideravam que o mais importante de todos os direitos era o direito à propriedade, o qual era tão sagrado que não deveria estar sujeito a nenhuma tentativa de interferência ou limitação em seu usufruto. E como para os liberais os escravos eram parte dos bens intocáveis de um proprietário, acabar com a escravidão seria uma agressão à liberdade.

Foram também os ideólogos do liberalismo os principais defensores do racismo e do colonialismo. O abominável sistema de segregação racial que se instalou no sul dos Estados Unidos era tido como digno de louvor pela maioria dos pensadores liberais naquele tempo (e continuou sendo ainda por muito tempo). Para eles, a supremacia branca era algo tão natural e aceitável que deveria ser defendida abertamente e sem titubeios. Sabemos que foi este regime de segregação racial dos Estados Unidos a fonte de inspiração para outros modelos segregacionistas bem conhecidos, como o nazismo alemão e o apartheid sul-africano.

Conforme nos relata Losurdo, quase todos os movimentos que travavam a luta para pôr fim à subjugação nacional a que os povos periféricos estavam submetidos buscavam sua inspiração e apoio no socialismo. Por sua vez, os adeptos do liberalismo estavam na linha de frente da expansão e manutenção do colonialismo, que tanta desgraça e sofrimento causou pelo mundo afora. Figuras até hoje tão queridas para a maioria dos liberais, como Winston Churchill, tiveram um papel relevante na ocupação, repressão e dominação de nações e povos colonizados. Até os mal-afamados campos de concentração estão entre as invenções de dirigentes políticos ligados ao liberalismo.

Ao ler os escritos de Losurdo, Caetano Veloso também deve ter entendido que os regimes mais sanguinários que já passaram pela América Latina foram sustentados por ideólogos do liberalismo. O Chile de Pinochet e a Argentina da Junta Militar serviram como modelo para a posta em prática de várias das políticas defendidas pelo liberalismo em sua fase neoliberal. E é este mesmo ideal do liberalismo que se estende até os dias de hoje ao Brasil na figura de Paulo Guedes. Ou seja, hoje, como antes, o propósito do liberalismo é conceder liberdade total para os grandes proprietários e limitar ao máximo os direitos dos trabalhadores.

É sobre este tipo de questões que nós deveríamos estar debatendo. Mas, como já procurei explicar, nossas elites do dinheiro não querem que seja assim. Eles trabalham para que os militantes de esquerda fiquem enfronhados numa disputa sem sentido entre “stalinistas” e “trotskistas”, enquanto os liberais vão tratando de impor sua agenda e destruir todas a conquistas dos trabalhadores.

Por mais divergências que tenha havido entre Trotsky e Stalin em seu tempo histórico, nos dias atuais, nenhum lutador que busca com sinceridade ajudar na construção de um mundo melhor para nosso povo deveria se deixar levar por esse sectarismo que só beneficia aos exploradores.

* Jair de Souza é economista formado pela UFRJ; mestre em linguística também pela UFRJ.

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