domingo, 10 de setembro de 2023

Mourão, Villas Bôas e o cabidão dos generais

Charge: Aroeira
Por Altamiro Borges


Os jornalões especulam que “causou alívio” no comando do Exército a decisão do tenente-coronel Mauro Cid, ex-faz-tudo do “capetão” Jair Bolsonaro, de prestar “delação premiada”. Com isso, as Forças Armadas esperam “virar a página” das denúncias contra a instituição, que vêm sofrendo crescente desgaste. Mas não será nada fácil superar os abalos na sua imagem. Derrotado o fascismo – nas urnas e nas tentativas golpistas –, a cada dia surge um novo escândalo envolvendo as altas cúpulas dos militares.

Um dia após o desfile cívico-militar do 7 de Setembro, o jornalista Aguirre Talento postou no site UOL que “a mulher do general e senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), uma filha e uma sobrinha do general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, estão entre os parentes de militares na folha de pagamento de uma associação privada vinculada ao Exército, a Poupex”.

Cabide de emprego de parentes de militares

Criada em 1982, a Poupex é administrada pela Fundação Habitacional do Exército (FHE), órgão vinculado diretamente às Forças Armadas. “Sem transparência nem a obrigação de prestar informações públicas sobre sua lista de funcionários, a associação se tornou um cabide de emprego para parentes de militares. O UOL teve acesso, com exclusividade, a documentos internos que comprovam a contratação de parentes de militares de alta patente para trabalhar na associação”, explica o jornalista.

Em maio deste ano, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou “indícios contundentes’ de nepotismo, com a identificação de 221 casos de parentesco entre contratados da Poupex e integrantes das Forças Armadas. “Os dados analisados permitem concluir que se encontram presentes fortes indícios de que a existência de relação laboral com o Exército, com o Ministério da Defesa ou com as demais Forças ou de parentesco com membros do conselho de administração, da diretoria e com militares do Exército são fatores possivelmente relevantes para se determinar o êxito na tentativa de se conseguir emprego na Poupex. Neste contexto, aparentemente tem relevância o nível hierárquico ocupado pelo familiar nas Forças”, afirma o relatório do TCU.

A esposa de Mourão e a filha golpista de Villas Bôas

Na reportagem, Aguirre Talento dá detalhes picantes sobre as citadas mais famosas. “Casada com o general Hamilton Mourão, Ana Paula Leandro de Oliveira Mourão foi contratada em 2016 pela Poupex. Ela ocupa a função de assessora especial. Paula Mourão também fez carreira militar e se filiou ao Republicanos em 2022, quando Mourão decidiu concorrer ao Senado. O próprio general Mourão também ocupou cargos vinculados à Poupex. Em 2016, ele foi nomeado como presidente do Conselho de Administração da FHE. Ficou no posto até fevereiro de 2018. Os salários da Poupex não são públicos. Uma tabela interna da remuneração dos cargos, obtida pelo UOL, define que o posto de assessor especial tem remuneração básica de R$ 17 mil. Esse valor, entretanto, pode variar a depender de gratificações e remanejamentos”.

Já o ex-comandante do Exército entre 2015 e 2019, general Eduardo Villas Bôas, tem dois parentes com cargos na Poupex. “Uma de suas filhas, Ticiana Haas Villas Bôas, foi contratada pela associação em 2017. Documentos da ficha funcional de Ticiana na Poupex identificam que ela tem o posto de analista júnior, cujo salário inicial previsto é de R$ 8 mil. Sua remuneração, entretanto, pode variar a depender de gratificações e penduricalhos”. O jornalista lembra ainda que “a filha de Villas Bôas apareceu em relatórios da Polícia Federal sobre o telefone celular de Gabriela Cid, mulher do tenente-coronel Mauro Cid. Nos diálogos, ela manifesta apoio a ações golpistas contra a posse do presidente Lula e faz críticas à vacina contra a covid-19”.

Repasse para o Instituto General Villas Bôas

Outra citada é a sobrinha do ex-comandante do Exército. Marina Carvalho entrou na Poupex em 2016 e atua como analista júnior. A matéria também denúncia que “a FHE já repassou recursos para um instituto do general. De acordo com reportagem da Folha, a fundação repassou ao menos R$ 60 mil ao Instituto General Villas Bôas. Villas Bôas se tornou conhecido na política nacional por causa de declarações com grande repercussão pública. Em 2018, às vésperas do julgamento de um habeas corpus no STF sobre a liberdade do presidente Lula, à época preso em Curitiba, o general fez uma publicação em rede social que foi vista como uma ameaça velada ao Supremo, citando ‘repúdio à impunidade’. No fim do ano, ele publicou uma mensagem de apoio aos atos antidemocráticos nas unidades militares, que contestavam o resultado da eleição”.

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