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| Charge: Mariano Ruszaj/Cartoon Movement |
O governo de Javier Milei só continua existindo nos editoriais e artigos dos colunistas liberais dos jornais brasileiros e na cabeça dos bolsonaristas. Na imprensa argentina, e mesmo nos grandes jornais de direita, El Clarín e La Nación, o que noticiam é que Milei está morto politicamente e que a Argentina submerge em mais uma crise sem volta.
Nessa semana, as capas dos jornais têm duas informações devastadoras. A primeira notícia é sobre a quarta manifestação de rua de estudantes, professores e servidores, na terça-feira, em defesa da universidade pública, em Buenos Aires e nas grandes cidades. E a segunda sobre uma pesquisa com números inimagináveis até o início do ano.
A pesquisa, publicada com chamada de capa pelo Clarín, informa o seguinte, segundo a consultoria Sentimientos Públicos: 73,5% dos argentinos não votariam em Milei na eleição de outubro de 2027.
Apenas 26,5% dos entrevistados apoiariam sua reeleição. O cientista político Hernán Vanoli, diretor da consultoria, avisa: estamos próximos de chegar ao colapso da promessa milagrosa do Liberdade Avança, o partido de Milei.
As eleições só acontecerão daqui a 16 meses. Mas o retrato hoje é esse: Milei perdeu sua base social poucos meses depois da eleição parlamentar de meio de mandato, de outubro, que o salvou de um desastre com a ajuda do socorro de US$ 20 bilhões de Donald Trump.
A consultoria dá outra notícia ruim: Milei perdeu sustentação entre metade dos eleitores da senadora Patricia Bullrich, que foi aliada decisiva na eleição do extremista e sua ministra da Segurança e é hoje o principal nome alternativo da direita para substituí-lo e enfrentar o peronismo no ano que vem. Bullrich é uma ameaça a Milei dentro do fascismo.
Pesquisas divulgadas a partir de março indicam que Axel Kicillof, governador peronista da província de Buenos Aires, poderia derrotar Milei por até cinco pontos. Mesmo que as sondagens eleitorais na Argentina sejam inconfiáveis, por apresentarem muitas diferenças.
Kicillof, que não mantinha boas relações com Cristina Kirchner, mas tenta amenizar algumas diferenças, firma-se como o nome das esquerdas e da ressurreição do peronismo, depois do fracasso do governo de Alberto Fernández.
O consolo para Milei: ele mantém maior apoio entre os jovens de 18 a 28 anos, com 36% que votariam na sua reeleição. Entre os eleitores do setor rural, historicamente de direita, o apoio cai para 30%.
Os ricos ainda apoiam Milei. E a rejeição mais forte é observada na Região Metropolitana de Buenos Aires, entre pessoas de 29 a 44 anos. Essa é a região de maior densidade peronista em toda a Argentina e onde Kicillof se consolida como liderança da oposição.
Nessa área metropolitana, oito em cada 10 entrevistados não votariam em Milei em 2027. A pesquisa também alerta para uma perda de fidelidade: 48% dos que votaram nele em novembro de 2023 dizem que não repetiriam esse apoio.
Tem mais coisa ruim. Para 61,5% dos argentinos, não há motivo para esperança e o sentimento é de piora da situação econômica. A inflação voltou a subir em março, para 3,4%, recuou para 2,6% em abril e está acumulada em 12 meses em 32,6%.
A desolação é generalizada. Apenas 14% afirmaram na pesquisa que mantêm expectativas positivas, e outros 12,5% entendem que não há outra saída e que o governo faz o que deve ser feito.
A economia argentina está estagnada, o arrocho fiscal desmontou programas sociais, há quebra de grandes empresas e fuga de talentos para o Exterior. Milei perdeu parte importante da base política no Congresso e continua acossado por investigações policiais, no Ministério Público e no parlamento em torno da criação da $Libra.
É a criptomoeda que ele a irmã, Karina, ajudaram a vender, no começo do ano passado, como sócios de um esquema mafioso internacional. O fascista enfrenta ainda o cerco do MP ao chefe da Casa Civil, Manuel Adorni, envolvido em corrupção e enriquecimento ilícito.
Mas, se os brasileiros lerem as edições recentes dos nossos jornalões, verão que o liberalismo está vencendo e que tudo continua normal na Argentina. Mas não há normalidade para os jornalões deles.
O La Nación informou, depois da marcha em defesa da universidade pública e das instituições dedicadas à pesquisa científica, que também sofrem cortes de verbas, que a manifestação “abalou o governo”.
A Folha, maior entusiasta do liberalismo gângster de Milei, vai dizer que não. Mas essa é a realidade. A Argentina está em sofrimento e a caminho de mais uma tragédia política.

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