Por Altamiro Borges
Charge: Aroeira/247
Como já era esperado, a 34ª edição da Marcha para Jesus, comandada
pelo “apóstolo” Estevam Hernandes, dono da Igreja Apostólica Renascer em
Cristo, virou palanque para o presidenciável Flávio Bolsonaro – também apelidado
de Flávio Rachadinha e, nos últimos dias, de Tariflávio – e para vários outros
candidatos da extrema-direita brasileira. A celebração religiosa-midiática
reuniu milhares de fiéis nesta quinta-feira (4), feriado de Corpus Christi, no
centro de São Paulo.
Segundo balanço do site g1, do Grupo Globo, subiram ao principal
trio-elétrico do evento, além do filhote 01 do “capetão”, o governador e
candidato à reeleição Tarcísio de Freitas (Republicanos), o também
presidenciável Ronaldo Caiado (União Brasil), o prefeito Ricardo Nunes (MDB), o
deputado Sóstenes Cavalcante (PL), o ex-secretário da Segurança Guilherme Derrite
(PL), pré-candidato ao Senado, o presidente da Alesp e o também pré-candidato
ao Senado, André do Prado (PL). Outra presença sinistra foi a do ministro André
Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do explosivo escândalo do
Banco Master.
Numa típica blasfêmia, o vendilhão da pátria Flávio Bolsonaro
inclusive discursou no caminhão de som. “Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa
guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do
mal, que vai ser expulso do governo desse Brasil este ano”, rosnou. Numa cena
ridícula, o farsante ainda cantou um louvor, abençoou os participantes e disse
que “o Brasil vai voltar a ser uma nação irmã de Israel”, portando uma bandeira
israelense no pescoço.
Como analisou o jornalista Kiko Nogueira, em postagem no
site Diário do Centro do Mundo (DCM), o evento foi “um escárnio. O presidente
da Marcha para Jesus no Brasil, Apóstolo Estevam Hernandes, admitiu nesta quinta-feira
que o maior evento evangélico do país funciona, na prática, como plataforma
política para os Bolsonaros. Ao declarar que sua ‘tendência natural’ é apoiar a
candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em função do ‘quadro
polarizado que temos hoje’, ele desmontou o discurso de que a Marcha seria um
espaço exclusivamente religioso”.
“A legislação eleitoral brasileira impõe limites claros ao
uso de espaços de uso comum para propaganda política. Igrejas, templos e
eventos religiosos não podem ser transformados em instrumentos de campanha. A
própria Justiça Eleitoral reconhece a figura do abuso de poder religioso quando
a influência de lideranças de fé é utilizada para favorecer candidaturas. Apesar
disso, Flávio Bolsonaro ocupou posição de destaque na Marcha para Jesus,
cercado por aliados como o governador Tarcísio de Freitas, o prefeito Ricardo
Nunes, deputados bolsonaristas e outras lideranças conservadoras... Mais uma
vez, Jesus não foi convidado para a patacoada”.
O governo federal foi representado por Jorge Messias, Advogado-Geral
da União. Em entrevista à transmissão oficial do evento, o ministro da AGU até
deu uma fustigada no oportunismo eleitoral. Ao ser questionado sobre a
importância de unir os crentes, respondeu: “A mesa de Jesus é para judeus e
gentios. Até Judas estava compartilhando a mesa de Jesus”. Já o presidente Lula
atendeu a uma ligação do “apóstolo” Estevam Hernandes e justificou sua
ausência. “Eu vou lhe contar por que eu não vou. Eu não participo de nada
religioso em época de eleição porque eu não quero passar a ideia de que estou
tentando tirar proveito político de uma coisa sagrada”.
Em recente artigo na Folha, o articulista Juliano Spyer,
autor do livro “Povo de Deus” e um dos maiores estudiosos do avanço dos
evangélicos no Brasil, garantiu que o “derretimento de Flávio Bolsonaro abriu
uma oportunidade para seus adversários. Evangélicos representam um terço do
eleitorado e, nos dois últimos pleitos, votaram consistentemente em Bolsonaro.
Agora estão órfãos de candidato”.
Segundo argumenta, Flávio Bolsonaro “foi aceito como herdeiro desse legado,
mesmo tendo dado uma rasteira nos pastores que preferiam Tarcísio de Freitas. E
tinha a vantagem de não falar palavrões nem ter recusado tomar vacina. Mas essa
confiança erodiu quando foi pego pedindo dinheiro a um banqueiro corrupto,
depois de ter negado a existência dessa relação. Evangélicos entendem que o
envolvimento com a política é um mal necessário. Querem representação. Mas a
força desagregadora do olavismo nas igrejas e casos como o do pastor da
Lagoinha envolvido no escândalo do Master tornaram esse eleitor mais cético ao
uso político dos púlpitos”.
A “Marcha para Jesus” desse feriado tentou recuperar o prestígio de Flávio Rachadinha. A conferir se deu o resultado esperado pelos mercadores da fé e pelos oportunistas políticos!
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comente: