Por Rogério Baptistini, no site Dissidente:
A sabatina de Lula na Globo não foi jornalismo. Foi um ato político. Em 40 minutos de entrevista, 25 foram dedicados à corrupção. A mídia corporativa brasileira tem lado e sua estratégia é clara: associar, repetir e manchar. Enquanto a extrema-direita avança com discursos moralistas e sem propostas, a mídia insiste em pautar o debate pela indignação, alimentando o clima de escândalo que beneficia os inimigos da democracia.
A sabatina do presidente Lula, candidato à reeleição, na Rede Globo, não foi um exercício de jornalismo. Foi um ato político. Durante 40 minutos, 25 foram dedicados à corrupção. Não às propostas de governo, não ao balanço de um mandato, não aos projetos para o futuro. A corrupção foi o centro. O objetivo pareceu ser associar, repetir e manchar a imagem de Lula.
A mídia corporativa brasileira não é neutra. Ela tem lado. E sua estratégia tem sido pautar o debate público a partir de ilações, suspeitas e meias-verdades. Não importa a falta de provas ou condenações. Importa a repetição exaustiva de algo que, ao final, se fixa no imaginário coletivo como verdade. O alvo, desde Getúlio Vargas, tem sido os líderes comprometidos com a justiça social. A extrema-direita, livre de um escrutínio semelhante, avança com discursos moralistas e sem propostas.
A sabatina conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli foi um exemplo claro de agenda-setting, quando a mídia define o que é relevante para o debate público. E, nesse caso, não eram as realizações do governo, como a retomada do crescimento econômico ou os programas sociais. O relevante era a sugestão de corrupção. Importante era associar o círculo íntimo do presidente a um mar de lama, como em 1954.
Josias de Souza, colunista do UOL, do grupo Folha de S.Paulo, enfatizou, repercutindo, que “De 40 minutos, cerca de 25 foram dedicados à corrupção.” Mas esqueceu de mencionar que as condenações de Lula foram anuladas pelo STF. Por algum motivo, sua memória apagou o fato de que as acusações do tríplex e do sítio de Atibaia foram desmontadas. Preferiu reforçar o grito de que “nada apaga o petrolão”, como se a corrupção fosse um monopólio do PT.
A menção à Roberta Luchsinger é emblemática. A foto em que ela aparece ao lado de Lula não prova nada. Mas a repetição da imagem em diversas mídias cria uma associação subliminar. O objetivo claro é causar danos à imagem do presidente. Não importa a falta de provas. Importa a sugestão, a insinuação e a mancha.
Enquanto a mídia corporativa explora à exaustão a sugestão de corrupção em torno de Lula, os escândalos da extrema-direita simplesmente desaparecem das manchetes. Não há o mesmo furor investigativo em relação às fraudes no INSS durante o governo Bolsonaro/Paulo Guedes, às rachadinhas de Flávio Bolsonaro, ao patrimônio imobiliário adquirido em dinheiro vivo pelo mesmo Flávio, às coincidências macabras entre o assassinato de Marielle Franco e o condomínio do ex-presidente Jair Bolsonaro, ao Banco Master e ao financiamento do padrão de vida de Eduardo Bolsonaro, foragido da Justiça, à seletividade dos vazamentos dos inquéritos sob condução do juiz André Mendonça, um bolsonarista evangélico.
A corrupção é um tema emocional. Ela gera indignação moral, e a indignação moral é o combustível do autoritarismo. Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, estudou o fenômeno. A propaganda autoritária se alimenta da incapacidade de distinguir a verdade da mentira. O súdito ideal do totalitarismo é aquele que, em seu ódio irracional, deixa de lado a razão e abraça a narrativa simplista.
A mídia corporativa sabe disso. E, por isso, insiste em pautar o debate pela indignação. Não importa se as acusações são infundadas. Não importa se não há condenações. Importa manter o clima de escândalo, de desconfiança generalizada, de caos.
Esse clima beneficia candidatos que não têm um programa claro ou que dependem de discursos moralistas para alcançar o poder. A estratégia não é nova. Em 1954, a mídia ajudou a levar Getúlio Vargas ao suicídio. Em 1964, contribuiu para o golpe militar. Em 2016, foi fundamental para o impeachment de Dilma Rousseff, sob falsos pretextos. Em 2018, aprisionou Lula e destruiu empresas, desestabilizando o sistema político brasileiro.
A história se repete. E a mídia, mais uma vez, participa ativamente do processo.
A mídia corporativa não é um observador neutro. Ela é um ator político. E, como tal, tem interesses. Sua pauta beneficia a extrema-direita, que usa o tema da corrupção para desviar a atenção de seus próprios escândalos e de sua falta de propostas; beneficia os oligarcas midiáticos (como a família Marinho, donos da Globo), que mantêm seu poder de influência; beneficia as big techs, que lucram com a polarização e a desinformação.
A mídia não está interessada em debater propostas. Está interessada em manter o status quo, em preservar seus privilégios, em evitar que avance a democratização do Estado brasileiro. Ela é a expressão de uma elite econômica que encara o povo e a terra como algo a explorar.
Enquanto think tanks ultraliberais povoam escolas, universidades e igrejas evangélicas, fazendo o serviço sujo dos inimigos do povo e da nação, jornalistas a soldo posam de isentos e a vida segue rumo ao abismo. As democracias morrem e a oligarquia engorda. Bravo!
* Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.
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