domingo, 9 de agosto de 2026

As ameaças de Trump e os portões de Múcio

Charge: Aroeira/247
Por Manuel Domigos Neto

Referindo-se a uma possível agressão estadunidense em nosso território, Múcio disse: o mais sensato seria “abrir os portões”, posto não termos capacidade de nos defender.

O fato se deu em evento na Confederação Nacional da Indústria, diante de pessoas ávidas por investimentos públicos de longo prazo em equipamentos e tecnologias de guerra.

Múcio usou o prosaísmo reacionário que marcou sua carreira política.

Revoltados, alguns pedem sua cabeça. Indignação ingênua. Proposição temerária. Descabida.

O Ministro foi jocoso, não aleivoso. Não temos, de fato, capacidade de reação militar ao imperialismo.

As corporações de que dispomos integram esquema comandado pelo Pentágono para o exercício do domínio mundial. Na cultura militar vigente, não há lógica em se preparar para tecer armas contra a potência que nos “protege”.

No mais, nossos portões nunca estiveram efetivamente fechados aos estrangeiros gananciosos.

O militar brasileiro, desde a Independência, voltou-se contra o “inimigo interno” e os vizinhos. Persiste cultuando glórias do tempo colonial-escravista. Não se preparou para dizer não às vontades imperiais. A Armada, então, persiste batendo continência para descendentes de reis portugueses e repudiando o Almirante Negro.

Múcio não recebeu o cargo para mudar a Defesa Nacional. O presidente confiou-lhe o apaziguamento de quartéis agitados por devaneios golpistas e delírios militaristas. Não recebeu o cargo para reposicionar militarmente o país na ordem mundial em construção.

A rigor, Múcio sequer é propriamente ministro: não apresentou nem gerenciou planos, não formulou estratégias, não propôs reformas, não conteve voracidades corporativas. Assumiu-se como alegre porta-voz de quartéis.

O presidente da República rendeu-lhe elogios e afetos. Lula quis governar sem contrariar as fileiras. Tal como seus antecessores, respeitou a plena autonomia castrense. Não assumiu o papel constitucional de comandante supremo das Forças Armadas.

Outras instituições relevantes para o controle da autonomia corporativa também evitaram contrariar as fileiras. O STF e o Senado foram obsequiosos com comandantes que permitiram militância golpista nos quartéis. Nem a Corte nem o Senado foram atacados pelos que querem a cabeça de Múcio.

A sugestão de “abrir os portões” prejudicou a campanha eleitoral?

Aqui, a prosa fica mais complexa. Múcio deu mote inflamado para o discurso do nacionalismo de esquerda, pouco ou nada afeito às questões da Defesa Nacional.

Mas, por outro lado, cativou contingente expressivo em eleição apertada: a “família militar”.

Ao justificar desajeitadamente investimentos públicos em material de guerra, Múcio pode ter neutralizado eleitores propensos a votar na direita. Se for deposto, a direita pode ganhar as eleições.

O inegável é que o debate propiciado pelo jocoso ministro mostra o quanto os nacionalistas de esquerda precisam avançar na defesa consistente da Soberania Nacional.

Um projeto efetivo de Defesa Nacional deve ser arvorado para que o próximo mandato de Lula suplante os desafios à soberania do Brasil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente: