Do site do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre:
O quarto módulo do projeto Diálogos Para Ação, promovido pelo SindBancários Porto Alegre e Região em parceria com a UFRGS, reuniu um bom público no auditório da Faculdade de Arquitetura, na noite dessa terça-feira (18/8). O encontro abordou um dos principais desafios da atual conjuntura: o avanço da extrema direita e as estratégias para fortalecer a democracia brasileira.
Participaram Altamiro Borges, jornalista e coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé; Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap); e Juarez Guimarães, cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A atividade foi mediada por Everton Gimenis, diretor do SindBancários e vice-presidente da CUT-RS.
O debate reforçou que enfrentar a extrema direita exige organização social, disputa política e comunicação capaz de apresentar alternativas concretas para a população. A tarefa passa tanto pela derrota eleitoral do bolsonarismo quanto pela construção de um projeto capaz de enfrentar as condições que sustentam seu crescimento.
Raízes da extrema direita
Os debatedores analisaram fatores sociais, políticos e econômicos que favoreceram a ascensão do bolsonarismo. Para Altamiro Borges, a crise do capitalismo e a resposta neoliberal estão entre as principais razões. O neoliberalismo, avaliou, promoveu o desmonte do trabalho, do Estado e da própria ideia de nação, ampliando o ressentimento e a falta de perspectivas, especialmente entre os jovens.
O jornalista também apontou a crise das instituições, as transformações no mundo do trabalho e as dificuldades das forças progressistas como elementos que abriram espaço para a extrema direita. Para ele, a fragmentação dos trabalhadores dificulta a organização coletiva, enquanto o discurso antisistema explora a frustração social. “O bolsonarismo trouxe muitas coisas que estavam enterradas, como uma expressão de vários movimentos. Ele conseguiu catalisar o racismo, o patriarcalismo, o machismo, o militarismo e os saudosos da ditadura”, afirmou.
Camila Rocha chamou atenção para a forma como problemas concretos da população são apropriados pelo bolsonarismo. Pesquisa recente do Cebrap com eleitores indecisos analisou temas como segurança pública, saúde, educação, desemprego e mudanças climáticas. Segundo ela, o medo da violência é frequentemente utilizado para alimentar discursos que dividem a sociedade entre “cidadãos de bem” e “bandidos”, legitimando políticas de encarceramento e ações policiais violentas nas periferias.
Comunicação é campo estratégico
A disputa no ambiente digital foi apontada como fundamental para barrar a força da extrema direita. A partir de pesquisas do Cebrap, Camila apresentou o conceito de “Partido Digital Bolsonarista”. “O bolsonarismo se tornou uma máquina digital de poder e age como um partido, parasitando os partidos oficiais. Eles contam com esse ecossistema digital, com uma militância nas redes sociais que é muito organizada”, explicou.
Juarez Guimarães destacou a existência de uma estrutura para disputar o poder eleitoral e formar a opinião pública, impulsionada pela força dos algoritmos e pela ausência de regulação das plataformas digitais. Para ele, isso ajuda a explicar a resiliência do bolsonarismo mesmo após a derrota eleitoral de 2022.
Altamiro alertou para a capacidade de financiamento e organização da direita nas redes. “Estamos perdendo a guerra da comunicação. Sem regulação das big techs, o terreno fica aberto para a disputa da extrema direita. Precisamos de soberania digital”, defendeu.
Derrotar o bolsonarismo e superar o neoliberalismo
Juarez questionou os principais mitos utilizados pelo bolsonarismo, como a ideia de que representa o patriotismo, a defesa da família e uma posição antissistema, já que consideram o sistema político corrupto e até criminoso. Para ele, o movimento está ligado à continuidade do regime neoliberal e possui como objetivo a destruição da democracia.
“O bolsonarismo não é uma força de direita na democracia, é uma força de extrema direita visando destruir a democracia. O que está se fazendo é resistir a essa força de destruição da democracia e da soberania brasileiras”, afirmou.
O enfrentamento, porém, não pode se limitar à disputa eleitoral. É preciso modificar as condições sociais que alimentam a extrema direita. Pois, apesar dos avanços em políticas sociais, o cientista político avaliou que a classe trabalhadora ainda convive com baixos salários, longas jornadas, precarização e endividamento.
“As forças de esquerda precisam apresentar saídas do regime neoliberal de Estado, em todas as dimensões. Por exemplo estabelecendo metas para os direitos dos trabalhadores e para os direitos fundamentais do povo brasileiro”, defendeu.
Apesar das dificuldades apresentadas, Juarez é otimista. “A extrema direita traz essa distopia para assolar os nossos sonhos, com o propósito de transformá-los em pesadelos. Mas somos maiores do que isso: já derrotamos a ditadura militar, as forças neoliberais que se expressaram na luta política brasileira; fomos capazes de resistir à prisão do Lula e derrotar o bolsonarismo no governo”, concluiu o professor.
Próximo encontro
O próximo módulo do “Diálogos Para Ação” será realizado em 20 de outubro, com o tema “Economia: o Brasil na crise mundial”. Os convidados serão Arno Augustin (ex-Secretário do Tesouro), Juliane Furno (UFF) e Luiz Augusto Estrella Faria (UFRGS).
Os debatedores analisaram fatores sociais, políticos e econômicos que favoreceram a ascensão do bolsonarismo. Para Altamiro Borges, a crise do capitalismo e a resposta neoliberal estão entre as principais razões. O neoliberalismo, avaliou, promoveu o desmonte do trabalho, do Estado e da própria ideia de nação, ampliando o ressentimento e a falta de perspectivas, especialmente entre os jovens.
O jornalista também apontou a crise das instituições, as transformações no mundo do trabalho e as dificuldades das forças progressistas como elementos que abriram espaço para a extrema direita. Para ele, a fragmentação dos trabalhadores dificulta a organização coletiva, enquanto o discurso antisistema explora a frustração social. “O bolsonarismo trouxe muitas coisas que estavam enterradas, como uma expressão de vários movimentos. Ele conseguiu catalisar o racismo, o patriarcalismo, o machismo, o militarismo e os saudosos da ditadura”, afirmou.
Camila Rocha chamou atenção para a forma como problemas concretos da população são apropriados pelo bolsonarismo. Pesquisa recente do Cebrap com eleitores indecisos analisou temas como segurança pública, saúde, educação, desemprego e mudanças climáticas. Segundo ela, o medo da violência é frequentemente utilizado para alimentar discursos que dividem a sociedade entre “cidadãos de bem” e “bandidos”, legitimando políticas de encarceramento e ações policiais violentas nas periferias.
Comunicação é campo estratégico
A disputa no ambiente digital foi apontada como fundamental para barrar a força da extrema direita. A partir de pesquisas do Cebrap, Camila apresentou o conceito de “Partido Digital Bolsonarista”. “O bolsonarismo se tornou uma máquina digital de poder e age como um partido, parasitando os partidos oficiais. Eles contam com esse ecossistema digital, com uma militância nas redes sociais que é muito organizada”, explicou.
Juarez Guimarães destacou a existência de uma estrutura para disputar o poder eleitoral e formar a opinião pública, impulsionada pela força dos algoritmos e pela ausência de regulação das plataformas digitais. Para ele, isso ajuda a explicar a resiliência do bolsonarismo mesmo após a derrota eleitoral de 2022.
Altamiro alertou para a capacidade de financiamento e organização da direita nas redes. “Estamos perdendo a guerra da comunicação. Sem regulação das big techs, o terreno fica aberto para a disputa da extrema direita. Precisamos de soberania digital”, defendeu.
Derrotar o bolsonarismo e superar o neoliberalismo
Juarez questionou os principais mitos utilizados pelo bolsonarismo, como a ideia de que representa o patriotismo, a defesa da família e uma posição antissistema, já que consideram o sistema político corrupto e até criminoso. Para ele, o movimento está ligado à continuidade do regime neoliberal e possui como objetivo a destruição da democracia.
“O bolsonarismo não é uma força de direita na democracia, é uma força de extrema direita visando destruir a democracia. O que está se fazendo é resistir a essa força de destruição da democracia e da soberania brasileiras”, afirmou.
O enfrentamento, porém, não pode se limitar à disputa eleitoral. É preciso modificar as condições sociais que alimentam a extrema direita. Pois, apesar dos avanços em políticas sociais, o cientista político avaliou que a classe trabalhadora ainda convive com baixos salários, longas jornadas, precarização e endividamento.
“As forças de esquerda precisam apresentar saídas do regime neoliberal de Estado, em todas as dimensões. Por exemplo estabelecendo metas para os direitos dos trabalhadores e para os direitos fundamentais do povo brasileiro”, defendeu.
Apesar das dificuldades apresentadas, Juarez é otimista. “A extrema direita traz essa distopia para assolar os nossos sonhos, com o propósito de transformá-los em pesadelos. Mas somos maiores do que isso: já derrotamos a ditadura militar, as forças neoliberais que se expressaram na luta política brasileira; fomos capazes de resistir à prisão do Lula e derrotar o bolsonarismo no governo”, concluiu o professor.
Próximo encontro
O próximo módulo do “Diálogos Para Ação” será realizado em 20 de outubro, com o tema “Economia: o Brasil na crise mundial”. Os convidados serão Arno Augustin (ex-Secretário do Tesouro), Juliane Furno (UFF) e Luiz Augusto Estrella Faria (UFRGS).
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