Por Tereza Cruvinel, no site Brasil-247:
Iludiram-se os que pensaram, em algum momento da era Bolsonaro, que a TV Globo (por ele perseguida) e outros veículos da grande mídia haviam renunciado ao jornalismo de guerra, restaurando aquele baseado nos cânones fundamentais lastreados no interesse público do conteúdo, na reverência à objetividade e ao equilíbrio e nas boas técnicas apurativas.
Nas sabatinas com os presidenciáveis que antecederam a de Lula, ocorrida ao vivo ontem no Jornal Nacional, a taxa de normalidade jornalística compareceu razoavelmente bem.
Na do presidente, não. Nela reapareceram os velhos cacoetes dos tempos mais ásperos, daquilo que, desde 2005 (mensalão, reeleição de 2006 e aloprados, impeachment de 2016 e finalmente a Lava Jato), eu chamo de jornalismo de guerra.
De guerra porque, nele, o objetivo é constranger, emparedar, testar os limites do entrevistado, arrancar dele declarações que contribuam para que o telespectador chegue a uma determinada percepção do entrevistado. Não é informar; é formar opinião identificada com a do veículo.
Os dois entrevistadores-âncoras gastaram praticamente todo o primeiro bloco com tentativas de constranger Lula com perguntas, feitas em ritmo policialesco, sobre a investigação de seu filho Fábio Luís (rebatizado Lulinha por toda a mídia para explicitar o vínculo familiar).
Lula se manteve sereno, repetiu o que vem dizendo: se o filho dever, pagará, como qualquer cidadão. Mas de sua parte não houve e nem haverá tentativas de conter a investigação. Não serão trocados delegados ou diretores da PF, como fez o antecessor Bolsonaro.
E quando o alvo passou a ser Marcola, Lula concordou com eles: seu ex-chefe de gabinete, pessoa de sua confiança há sete anos, errou ao receber favores da empresária e amiga Roberta Luchsinger, que defendia interesses junto ao governo, embora não tenha conseguido mover uma agulha no Ministério da Saúde, para vender derivados de Cannabis.
Com tanto esforço para vincular Lula a irregularidades e atos de corrupção, embora César Tralli tenha admitido que a Globo já se desculpou pelo famoso PowerPoint de um hoje decaído procurador da Lava Jato…
Já as grandes questões que interessam aos brasileiros ficaram para a parte final.
Na economia, a ênfase foi em política fiscal, também abordada com aspereza, mas respondida com firmeza por Lula. Em primeiro lugar, a economia precisa crescer.
O corte de gastos obrigatórios (pessoal, previdência, assistência social e outros), segundo Tralli, é um clamor nacional, quando na verdade é uma bandeira dos atores neoliberais, especialmente dos coroados do mercado financeiro.
Invocando mais uma vez a lição de dona Lindú, Lula fez profissão de fé na responsabilidade fiscal, mas negou-se a prometer o corte de despesas obrigatórias. É através delas, principalmente, que ele põe mais pobres no orçamento, o que tem de ser mesmo uma obrigação de governantes progressistas.
De educação, emprego, inflação e custo de vida, inclusão social, soberania e defesa de nossas riquezas, do que pretende fazer no segundo mandato, tudo isso ficou comprimido na parte final.
E isso é inevitável no jornalismo de guerra, quando a prioridade dos entrevistadores é dar tiros certeiros no entrevistado.
O Brasil pronto para mais
Hoje teremos o início do horário eleitoral, com a exibição de programas e mensagens de candidatos a governador, deputados federais e estaduais. Amanhã começarão os programas dos presidenciáveis.
Lula vai estrear batendo forte em seu principal e na verdade único adversário real, Flávio Bolsonaro, que apontará como um político que sempre usou os cargos públicos para fazer negócios.
E aí Lula recordará os casos rachadinha, loja de chocolate, compra de mansão, multiplicação extraordinária do patrimônio declarado (imagine-se o não declarado).
Tudo isso em forma de ficha corrida, ao passo que a vida do próprio Lula virá recontada em forma de clipe: da mudança de Pernambuco para Santos num pau-de-arara, passando pela vida sindical, a criação do PT, a chegada à Presidência, seus governos.
O bordão de campanha que vai costurar o programa será “O Brasil pronto para mais”. Lula dirá que, ao tomar posse em 2023, além de uma tentativa de golpe, recebeu de Bolsonaro pai um país completamente estrangulado, o Estado desfigurado, as contas públicas com déficit enorme, as políticas públicas interrompidas ou deformadas.
Que muitas coisas puderam ser feitas no atual mandato, mas que o esforço de reconstrução absorveu muito tempo e recursos. Por isso quer mais um, para fazer mais, em novas e melhores condições.
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