sábado, 23 de junho de 2012

Redes e ruas: esquina revolucionária

Por Ismael Cardoso, no sítio da União da Juventude Socialista (UJS):

Nascida da improvável intersecção da big science, da pesquisa militar e da cultura libertária, a internet é o instrumento social, político e econômico mais poderoso de nosso tempo. Este artigo é uma defesa intransigente desta nova maneira de se comunicar, que tem modificado profundamente as estruturas sociais de nosso tempo.


Antes de qualquer coisa tenho a obrigação de tratar de algumas contradições da internet, é preciso também sair um pouco das redes sociais tradicionais e debater a comunicação em rede, que tem acarretado muito mais transformações em nossas vidas que possamos imaginar, para depois entrar no debate mais saboroso e elogioso desta nova forma de se comunicar.

Origem das redes e a contra-cultura

A origem da internet está na chamada Arpanet (1958), um sistema computacional criado para mobilizar recursos de pesquisa acadêmica com o intuito de alcançar a superioridade tecnológica dos EUA em relação a URSS.

Em 1969, criam-se os primeiros “nós” da rede – computadores que se comunicavam – nas universidades da Califórnia e de Utah nos EUA. Inicialmente, estes nós serviam para a pesquisa acadêmica voltada à segurança nacional, entretanto, não demorou muito para que os próprios pesquisadores percebessem a dimensão mais ampla da Arpanet. Não há espaço neste artigo para que se explique com detalhes a mudança da Arpanet (sistema de pesquisa militar) para a Internet.

O mais importante é entender que a internet – como a conhecemos hoje – foi influenciada pela contra-cultura dos movimentos libertários da década de 1960.

Toda a estrutura física (backbone) da internet estava alojada no interior das universidades e seu desenvolvimento era feito pelos acadêmicos e estudantes destas instituições. A luta social em curso neste período moldou a maneira como ela estava sendo construída. Estes movimentos influenciaram a todos, inclusive os pesquisadores, que mesmo não participando diretamente dos movimentos de 1968, sofreram seus impactos libertários.

Não fosse isto, seria improvável, que no mundo bipolarizado, em plena guerra fria, o governo norte-americano altruisticamente permitisse a construção de um sistema informacional, que não só repassava informações, como também podia buscá-la em qualquer outro computador.

Estas considerações iniciais são importantes, as avaliações simplistas quase nos fazem crer que cabos de fibra ótica estão fazendo revoluções pelo mundo e o povo seria apenas um espectador.
A sociedade não é só expectadora como foi ela própria a fazedora deste poderoso instrumento de interação e luta social.

(Des)Controle de capitais e a internet

Sabemos que a insanidade norteia o capital financeiro, no caso da internet a nitroglicerina é ainda maior.

Diferente de uma safra de arroz, da extração de minérios ou algo que o valha, os investimentos nas inovações da internet são de risco muito superior, por um simples motivo, o aplicativo pode não se popularizar – o “Google +” não superou o “Facebook” – ou um outro desenvolvedor pode estar trabalhando em algo superior sem que ninguém saiba, em qualquer parte do mundo, quando menos se espera o que parecia ser um projeto promissor torna-se inútil.

As instituições financeiras e todo tipo de empresa e indústria ligadas à tecnologia fazem investimentos, preparam modificações na expectativa de comercializar o produto da inovação tecnológica.

Quando o projeto não corresponde às expectativas acontece algo parecido com a crise das ponto.com em 2000-1. Não cabe aqui detalhar todas as nuances desta crise financeira, mas, ela atingiu a Intel, a HP, a Microsoft e a Cisco Systems, que era a empresa mais valorizada do mundo a época, a Cisco tinha um valor de mercado de 555 bilhões de dólares.

Com as transações financeiras ocorrendo em rede, o controle governamental sobre elas é muito limitado. O resultado é o aumento da volatilidade dos mercados financeiros (fuga de capitais), a possibilidade, remota que seja, do não cumprimento de uma expectativa de lucros, pode derrubar em pouco tempo economias inteiras.

Trocando em miúdos, em 2000-1, o mercado se preparou para um grande boom da internet, no que tange aos hardware’s, porém, esta expectativa não se efetivou e veio à crise, o índice Nasdaq caiu 60% em março de 2001, o Standart & Pools 500 caiu 23% e a Dow Jones 12%. Nos EUA, cerca de 4,6 trilhões de dólares em riqueza nominal desapareceu, este valor equivalia a 50% do PIB norte americano na época!

É uma quimera considerar que se pode controlar o capital financeiro como um todo, sempre há algum país que lhe serve de abrigo, como estamos todos ligados em rede, esta riqueza se abrigará em algum paraíso fiscal e jamais voltaremos a vê-la, perguntem ao Cacciola!

O belicismo em Rede

As forças armadas dos países altamente desenvolvidos utilizam cada vez mais as tecnologias da informação para suas estratégias militares e para construção de armas muito poderosas.

São conhecidas as armas guiadas por satélites, as aeronaves não tripuladas e mesmo os satélites que observam cada movimento aqui na terra.

Mas um novo pensamento estratégico para o militarismo tem ganhado força nos EUA e na OTAN, é o conceito de “enxame”, que requer unidades pequenas e autônomas, com alto poder de fogo, bom treinamento e informação em tempo real. Estas unidades concentram-se no alvo inimigo por pouco tempo, causando grandes danos e se dispersando em seguida.

Esta guerra centrada na rede depende inteiramente de comunicações seguras, capazes de manter conexão constante com os nós da rede. A combinação de transmissões por satélites e interconexões móveis permite aos pelotões coordenar sua própria ação, pois apoiados em tecnologias, que lhes dizem onde o inimigo está, para onde ele está indo, e mesmo que equipamentos devem ser levados para as missões militares, colocam seus exércitos em larguíssima vantagem.

Para Castells a transformação que acarreta este conceito de estratégia provocaria mudanças profundas:

“Se essa nova estratégia fosse adotada, as implicações para as forças armadas seriam enormes. Toda a organização em grande escala de corpos, divisões, regimentos e batalhões teria de ser refeita. Seria preciso desmanchar igualmente a divisão tradicional entre diferentes especialidades: infantaria, unidades blindadas, comunicações, artilharia, engenharia. As unidades deveriam ser amplamente multifuncionais e basear-se na capacidade de interconexão, para apoio mútuo. Seriam também inteiramente dependentes do acúmulo e do processamento de informação” (redes).

Imaginem vocês que o Brasil não consegue fechar a compra de uns poucos caças!

Estamos nos preparando para uma guerra do século passado!

Como sofro de ansiedade aguda não terminei a segunda e a última parte deste artigo, mas, já estou publicando a primeira parte, porém, sei que debateremos o comércio de nossa privacidade que vem ocorrendo nas redes, à relação copyleft versus copyright, a origem dos Anonymous e os movimentos sociais na internet e como ninguém se engrandece ou se destrói sem polêmicas, discutiremos também se as redes são ou não uma espécie de novo soviet da modernidade!

Até breve!

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