quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Folha pensa? Pobre jornalismo!

Por Altamiro Borges

Para quem ainda imaginava que a Folha de S.Paulo faz jornalismo, o especial do jornal desta quarta-feira (19) confirma que ela faz política. “O que a Folha pensa” é o título do longo e laudatório artigo. Nele o diário da famiglia Frias – que apoiou o golpe militar, aliou-se ao setor linha dura da ditadura, cedeu seus veículos para os órgãos de repressão e tornou-se um dos principais veículos dos dogmas neoliberais, entre outros crimes que comprovam que o jornal é um verdadeiro partido da direita nativa – apresenta a sua plataforma para a atualidade. A linha editorial da Folha revela bem os limites estreitos do seu jornalismo – e coitado do jornalista que não reze de seus dogmas.

O artigo apresenta os “principais pontos de vista defendidos pela Folha”, que completou 93 anos de existência nesta quarta-feira. O jornal ainda tenta se travestir de eclético e pluralista para enganar os mais ingênuos, mas a sua visão elitista e autoritária fica patente. No terreno econômico, por exemplo, a Folha endeusa a “livre-iniciativa” e a “economia de mercado”. Já no campo da política, as suas propostas são de uma democracia liberal ainda mais restritiva, com voto distrital, cláusula de barreira, voto facultativo e outros contrabandos para afastar a participação popular. Apenas na área do comportamento é que a Folha apresenta algumas ideias progressistas em defesa das liberdades individuais.

O jornal confessa que “tais princípios gerais funcionam como pedra de toque para os editoriais que a Folha publica diariamente. Cabe à editoria de Opinião, a cada novo assunto, elaborar argumentos coerentes com tais diretrizes, tentando traduzi-las para um público amplo. Exceto quando há mudança expressa de posição, o próprio histórico dos editoriais serve de baliza. Opiniões já publicadas funcionam como ‘jurisprudência’ do jornal. O fato de a Folha declarar sua opinião por meio dos editoriais não impede que os colunistas (de colaboração periódica) e os articulistas (esporádica) manifestem posição diferente”. Exatamente por isto, a Folha escalou um time de notórios reacionários, com raríssimas exceções.

Mesmo declamando que “o pluralismo é uma das marcas da Folha”, o artigo fixa seus “principais pontos de vista” sobre vários temas. Em todos, o jornal não esconde seu viés oposicionista, sempre destilando veneno contra os governos Lula e Dilma. No item Copa do Mundo, por exemplo, ele faz questão de realçar os gastos excessivos e o péssimo legado. Já sobre o Bolsa Família, o jornal diz que “o Brasil ainda precisa de programas de transferência direta de renda, mas eles devem exigir contrapartida do beneficiário... O programa peca pelas poucas portas de saída, ou seja, oportunidades criadas para que os beneficiários deixem de precisar da bolsa”.

A visão ultraliberal da Folha fica mais evidente no debate sobre a economia. O jornal defende “reduzir o gasto público”; “perseguir inflação baixa e reduzir a meta oficial no médio prazo”; “reduzir e reformar progressivamente a carga tributária”; “reformar a Previdência, o que implica, entre outras medidas, aumentar a idade da aposentadoria”; “conceder mais serviços públicos à iniciativa privada”; entre outros pontos. Um típico programa neoliberal, bem ao gosto de FHC – que quase levou o Brasil à falência no seu triste reinado – e da oligarquia financeira que afundou os EUA e a Europa numa das piores crises da história do sistema capitalista mundial.

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3 comentários:

  1. Eu deixei de ler a Folha desde o primeiro mandato do FHC. Depois que comecei a perceber sua tendência, parei de ler os editoriais, depois parei de ler as notícias e finalmente passei a sentir asco. Ainda bem que tem blogs como esse hoje.

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  2. Ex-chefe da Casa Civil do governo tucano recebeu US$ 1,1 milhão em propinas da Alstom

    O ex-chefe da Casa Civil do governo Mário Covas (PSDB), Robson Marinho, abriu por correspondência a conta secreta 17321, que mantém há 16 anos no Credit Agricole em Genebra, por meio da qual recebeu US$ 1,1 milhão em propinas do caso Alstom, segundo a Procuradoria da República e o Ministério Público Estadual. Sem sair de São Paulo, Marinho - hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) - assinou os cartões de abertura e a eles juntou cópias de seu passaporte e de sua mulher.

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  3. Tenho estado cada vez mais preocupada com muitos acontecimentos que vêm ocorrendo nos últimos meses, como todos os que leem o que escrevo e ou publico no facebook devem perceber. Nos últimos dias, a mídia empresarial brasileira, a velha mídia, está se superando na falta de responsabilidade e, na minha interpretação, de má fé. OESP publicou, no último dia 19 de fevereiro, o texto de um general (Rômulo Bini Pereira), que defende explicitamente o golpe de 1964 e a ditadura militar, com um tom ameaçador e golpista (na seção "Opinião"). A Folha de S. Paulo publicou, hoje, um texto sobre "manifestantes" na Ucrânia que produzem coquetéis molotov ao lado da estação de metrô. Nenhuma palavra sobre a existência de neonazistas entre os oposicionistas ucranianos. O tom da matéria é de "justificativa" dessa violência como resistência à violência e repressão das forças de segurança do Estado (que é real). A cobertura sobre os acontecimentos na Venezuela praticamente só critica a violência e a repressão da Polícia Nacional e das milícias chavistas (o que também é fato), mas não critica a violência de setores da oposição e o fato de que Leopoldo López é um golpista declarado. A situação na Venezuela é muito grave e há violência partindo dos dois lados, em um país dividido. A mídia empresarial brasileira está perdendo completamente o pudor e, em nome da "liberdade de expressão", publica textos que, explícita ou implicitamente, defendem o rompimento com a constitucionalidade, não só em outros países como no Brasil. E ainda há pessoas que acham que os setores golpistas são minorias sem relevância e que não há motivo para preocupação... P.S.: não vou colocar aqui os links dessas matérias e artigos para não propagar ainda mais essa irresponsabilidade da "grande" mídia. Mas não é difícil localizar os textos aos quais estou me referindo.

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