segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Marina: Um pé aqui, outro acolá

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa:

O Globo traz em sua primeira página, na edição de segunda-feira (1/9), uma charge que retrata a ex-ministra Marina Silva, candidata do PSB à Presidência da República, dando aquele passo atrapalhado que celebrizou o falecido ex-presidente Jânio Quadros. A imagem do então presidente com o tronco voltado para trás, o pé direito apontando para a frente e o pé esquerdo virado para a direita, virou símbolo de desorientação política.

Esse é o timbre que a imprensa cola na testa de Marina Silva nesta semana. O tropeço de Jânio ocorreu no dia 21 de abril de 1961, quando ele caminhava pela ponte que liga a cidade gaúcha de Uruguaiana a Paso de Los Libres, na Argentina, para um encontro com o então presidente daquele país, Arturo Frondizi. O fotógrafo Erno Schneider acompanhava a caminhada quando, atrás do grupo, ocorreu um tumulto. Jânio se virou para ver o que se passava e Schneider registrou a imagem que lhe daria o Prêmio Esso de Fotojornalismo no ano seguinte.

O tropeço simbólico de Marina Silva foi dado no fim de semana, em seu esforço para conquistar os votos mais conservadores e ao mesmo tempo manter o apoio dos idealistas que acompanham suas pregações por uma “nova política”. Na sexta-feira (29/8), a candidata divulgou seu programa de governo, no qual se misturavam uma política econômica conservadora, com a independência formal do Banco Central e a redução das atribuições do Estado, e ideias tidas como liberais no campo social, como a emancipação de casais do mesmo sexo e a realização de abortos, com autorização judicial, em hospitais públicos.

O programa propunha a regulamentação da união civil entre homossexuais e a equiparação do crime de homofobia ao racismo, e anunciava a distribuição, para estudantes, de material didático sobre a diversidade de orientação sexual e novas possibilidades de conformação familiar, com a adoção de crianças por casais do mesmo sexo.

O texto causou a reação imediata de líderes religiosos evangélicos, que, num quadro como o anunciado, poderiam ser criminalizados a cada sermão contra gays ou nas sessões que propõem a “cura” do homossexualismo.

Pega na mentira

Ameaçada de perder o apoio da própria igreja a que se filiou, a Assembleia de Deus, Marina Silva recuou já no dia seguinte, divulgando uma retratação apressada cuja veracidade não resistiu ao fim de semana. No sábado (30), ela declarou que a proposta liberalizante em relação ao homossexualismo tinha sido uma “falha processual na editoração do texto”. No domingo, seu candidato a vice-presidente, o deputado Beto Albuquerque, veio a público para desmentir Marina Silva, dizendo que o texto foi resultado de “um desafino” e "exagero" da coordenação da campanha.

O programa continha outro ponto de conflito: a ampliação do uso da energia nuclear na matriz energética do Brasil – proposta que também foi retirada do texto original. Um plano alternativo foi delineado em nota discreta passada pela chefia da campanha do PSB aos jornalistas, com alterações em todos os itens que haviam provocado divergências. Essas idas e vindas deram ao chargista Chico Caruso o material para cravar na capa do Globo o momento de indecisão que marca a trajetória da candidata.

No que toca aos observadores da imprensa, convém deixar o lado político da questão e interpretar as escolhas dos editores: os principais diários de circulação nacional, que até o fim de semana destacavam a impressionante ascensão de Marina Silva nas pesquisas de intenção de voto, na segunda-feira (1/9) parecem inclinados a desconstruir a imagem da ex-ministra.

Além da charge no Globo, que ilustra o farto material sobre as idas e vindas de seu programa de governo, os jornais ressaltam outros aspetos que podem ser considerados controversos. Por exemplo, a Folha de S. Paulo diz, na primeira página, que a candidata do PSB recorre à “roleta bíblica”, ou seja, busca orientação na escolha aleatória de textos bíblicos, para tomar decisões importantes. Essa informação, confrontada com a afirmação de seu candidato a vice, de que “a política não deve mandar na religião, nem a religião na política”, coloca Marina Silva em condições adversas para o segundo debate público pela televisão, no começo da noite da segunda-feira (1/9).

Com toda certeza, seus adversários vão explorar suas indecisões e o fato de ela haver mentido para justificar a mudança em seu programa. Ao dizer que foi um erro de digitação, Marina mentiu?

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