segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Bolsonaro, Amoêdo e Alckmin são perigo

Por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena, no site Tutaméia:

“Temos que fugir como o diabo da cruz não apenas do Bolsonaro, mas também do Amoêdo e do Alckmin. Essa gente é um perigo muito grande para o Brasil. Eles vão nos condenar ao subdesenvolvimento de longo prazo”.

A advertência é de Luiz Carlos Bresser-Pereira em entrevista ao Tutaméia [confira os detalhes no vídeo]. Para ele, existem hoje “dois candidatos muito bons: Lula/Haddad e Ciro”. Ambos, diz, adotam em seus programas propostas do novo desenvolvimentismo e “têm condições de governar o Brasil”.

Ministro nos governos José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, Bresser defende que as eleições são “uma oportunidade para a democracia voltar a se consolidar no país”. Mas, pondera:
“Depende de quem vai ser eleito e da capacidade dessa pessoa de tentar pacificar o país. Vai ser necessário pacificar o país. Está claro para todo mundo que ódio não resolve coisa nenhuma. Não há coisa mais antidemocrática do que o ódio. Na democracia existe permanentemente concessões mútuas. Não dá para ter só uma classe dominando, como nós temos hoje. Esse governo Temer. que é um horror, [é] um bando de criminosos lá no poder. Colocados por quem? Pelos liberais. Esse pessoal que está no governo não é bobo. Convenceu a alta burguesia brasileira a dar esse golpe [do impeachment]”.

Bresser fala de Lula:

“É uma coisa impressionante o que está acontecendo com Lula. Mostra o enorme poder de liderança de Lula. Ele não está enganando povo nenhum. Ele fez o que sabe fazer e fez o melhor que pode. O povo está dizendo que ele deve ser candidato. Ele tinha 30% e agora tem 40%. Por que amentou tanto assim? Uma parte da população descobriu que realmente o Lula e o PT passaram a ser perseguidos. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. O Judiciário, especificamente o Moro e sua força tarefa e que depois se expandiu –chegou no Supremo, no TRF4– essa gente montou um projeto de poder. E esse projeto de poder estava baseado em atacar dura e fortemente o PT e o Lula. O PT tinha telhado de vidro, o Lula não. Não acharam nada [contra ele], mas pouco importa. Estamos mal servidos de Judiciário”.

Para Bresser, não haverá uma volta à ditadura. “Mas nós tivemos o impeachment da Dilma e aquilo foi um puro golpe, um golpe parlamentar sem dúvida. Foi um ataque, uma agressão grande à democracia brasileira, que desmoralizou todo o processo político brasileiro. Estamos pagando por isso”.

Liberais e autoritários

Bresser se diz nem ou pouco surpreso com o fato de parcela do empresariado, especialmente a ligado às finanças, ter migrado para a extrema direita neste momento:

“O liberalismo é uma ideologia muito autoritária. Eles são contra as democracias. Sempre foram”. Professor emérito da Fundação Getúlio Vargas e fundador do PSDB, ele observa que os liberais se opuseram ao sufrágio universal:
“Sob pressão, tiveram que ceder na virada no século 19 para o 20. Imediatamente trataram de limitar o poder dos políticos eleitos: comprando políticos, financiando campanhas eleitorais. Os ricos fazem questão de comprar os deputados, os políticos. E os políticos se sentem muito felizes com isso. Por que o PSDB lutou contra o financiamento público de campanhas? Porque ele queria ser comprado pelos seus empresários. Ficava tudo em casa”.

E segue: “Outra coisa que a burguesia faz para limitar a democracia é querer transformar boa parte do Estado em agências técnicas, sem qualquer intervenção da política. Se for técnico e não político é facilmente comprável”.

Para ele, o político, se for comprável, sofre consequências. Em contrapartida, diz, “o que o presidente do Banco Central pode ter de mais triste é ser demitido –ele arranja um emprego no setor financeiro. Não é o caso do político. O liberalismo é profundamente antidemocrático. Por isso não estou surpreso [com a adesão do empresariado à direita extrema]. Bolsonaro é um fascista, mas defende as finanças. É isso. Adotou um economista radicalmente liberal, tão liberal quanto o que o Alckmin arranjou, que é o Pérsio Arida”.

“Com isso, obtêm apoio desses liberais profundamente antidemocráticos aqui no Brasil. O que foi o impeachment da Dilma? Foi um ato autoritário apoiado pelos liberais”.

Dessofisticação produtiva

Nesta entrevista ao Tutaméia, concedida no final da manhã de 6 de setembro de 2018, Bresser trata das teses de “Em Busca do Desenvolvimento Perdido”, seu livro recém lançado pela FGV Editora. Nele, o economista mostra como a conjunção de câmbio apreciado e juros altos fez encolher a indústria no país, principal causa da estagnação das últimas décadas.

Ele destaca o crescimento a partir dos anos 1930, sob a liderança de Getúlio Vargas, e depois, durante a ditadura militar. Nos anos 1980, lembra, o país estava em patamar semelhante ao de países asiáticas (com a China mais atrás). “Nós paramos, e eles continuaram”.

Bresser afirma que é insuficiente buscar explicações na questão educacional –que tem melhoras no longo prazo. Para ele, é preciso olhar o histórico das tendências no exterior. Nos anos 1980, diz, “houve a grande virada nos países ricos. Eles, que eram desenvolvimentistas, foram tomados pelo neoliberalismo”. Mais:

“Os EUA e seus assessores decidiram que todo mundo tinha que fazer a mesma coisa. Desregular, adotar aberturas financeira, comercial. O Brasil resistiu até 1990. Depois, entregaram. Os asiáticos, não: conservaram suas políticas. Na China [elas vigoram] até hoje”.

O resultado dessa entrega em números: a indústria de transformação em 1980 representava 21% do PIB; hoje significa 10%. Ou seja, os empregos foram transferidos para atividades menos sofisticadas, com salários menores e com tecnologia mais fraca. “A economia cresce lentamente, se Investe pouco e cada vez mais em atividades menos sofisticadas produtivamente. É uma loucura”, declara. E acrescenta:

“O que está acontecendo no Brasil é que, em lugar de termos uma sofisticação produtiva, estamos tendo uma dessofisticação produtiva”.

Coalização desenvolvimentista

No livro, Bresser, 84, expõe as coalizões que, no passado, possibilitaram o desenvolvimento econômico. Hoje, ele aponta o entreguismo das elites como fator vital para a estagnação e o avanço do rentismo. Nas suas palavras:

“Por que o nacionalismo econômico é tão difícil no Brasil? A classe rica brasileira se imagina europeia. [Diz:] ‘Somos brancos, europeus, esse povão aí, o mestiço..’ [faz gesto desdém]. Há. um preconceito de raça e de classe violento. Na Coreia, qual coreano pensa que é europeu? Nunca! A distribuição de renda na Coreia é muito melhor do que aqui. Eles têm uma ideia de nação. Eles sabem que para desenvolver tem que desenvolver todo o povo. Não pode ser uma pequena elite. Nós, não. Nós queremos desenvolver o Brasil para só uma pequena elite. Isso é inviável! É uma visão entreguista. É uma ideia que reproduz o nosso complexo de inferioridade colonial”.

Bresser identifica na crise um caráter corporativista. Há também uma “pressão dos interesses da classe rica contra o PT”. Para ele, “os liberais são sempre entreguistas e estão sempre associados ao império. Foi sempre assim no Brasil. O império não tem interesse em o Brasil voltar a se industrializar”.

Será possível reconstruir uma coalizão desenvolvimentista como a que vigorou em parte do século 20? Bresser responde: “Não é fácil. É possível. Está cada vez fica mais difícil. Quando Lula foi eleito, em 2002, ainda havia uma classe de empresários industriais relativamente grande. Nesses 16 anos, houve uma redução brutal da indústria no PIB. Empresas fecharam, outras viraram meramente importadoras, em lugar de produzir localmente. A base empresarial para se ter uma coalizão de classes desenvolvimentista diminuiu. O Lula estava indo bem. Estava conseguindo fazer uma coalizão de classes”.

Bresser critica o fato de os governos petistas terem mantido o câmbio apreciado; fala de erros. Diz que a coalizão acabou em 2012. “Os empresários viraram de lado e foram se associar aos liberais. É difícil. Mas, se o Brasil quer se desenvolver, tem que ter uma coalizão desse tipo”, declara. E agrega:

“Tentar montar uma coalizão depende da liderança política. Quando Getúlio chegou ao poder, não havia classe de empresários industriais e nem uma tecnoburocracia. Ele ajudou a construir as duas. Temos que fazer coisas semelhantes se quisermos voltar a crescer”.

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