sexta-feira, 21 de maio de 2021

O show inútil do general kamikaze

Por Tereza Cruvinel, no site Brasil-247:


No depoimento à CPI da Covid, o general Pazuello candidatou-se a ser chamado de tudo, menos de não ser caninamente leal a Jair Bolsonaro.

Para blindar o chefe, assumindo o papel de bode expiatório que lhe foi reservado, mentiu, tergiversou, distorceu fatos e manipulou a história em curso do morticínio por Covid19.

A história que ele contou não bate com a que foi vivida e sofrida pelos brasileiros.

Jurou que fez tudo certo, tudo por conta própria e nunca recebeu ordens de Bolsonaro, embora tenha dito “um manda e o outro obedece”.

Inútil, porque as digitais de Bolsonaro estão bem gravadas.

Ele mesmo registrou, por todos os meios, sua pregação contra as medidas de isolamento e proteção, como o uso da máscara, contra a compra de vacinas e a favor da cloroquina e de outros emplastos inúteis, dando uma ilusão de segurança aos seguidores de seu apelo para levarem uma “vida normal”, ao encontro da doença e da morte.

Para blindar Bolsonaro, agindo como um soldado kamikaze, chegou ao ponto de dizer que o chefe é um nas redes sociais, postagens e aglomerações, e outro na vida real do governo.

Seu nervo vago não reagiu quando foi confrontado com vídeos em que Bolsonaro vociferava contra vacinas e negava a realidade da pandemia.

Dizendo-se defensor do isolamento, calou-se quando surgiu o vídeo em que ele diz que não adiantava ficarem todos em casa.

Isso lá em Manaus, com o vírus galopando.

Que o importante era irem ao posto de saúde e pegar os remédios se sentissem algo.

Sim, os remédios recomendados pelo Tratecov, o aplicativo que ele jura nunca ter sido postado.

Um hacker é que o colocou no ar, e como disse um senador, hacker tão competente que conseguiu veicular uma matéria na TV Brasil, nossa antiga TV pública, hoje TV do Bolsonaro, exaltando a utilidade do aplicativo.

Não vou ficar enumerando mentiras.

Foram muito mais que as 14 do primeiro dia, contadas pelo relator Renan Calheiros.

O Brasil inteiro viu, e mesmo o bolsonarista mais renitente deve ter sentido vergonha alheia por ver um general do Exército mentir tanto.

Quando mentia, era inteligente.

Quando não mentia, fingia-se de burro. Foi o que fez quando o senador Randolfe tocou num dos pontos mais graves, e este vale repetir aqui.

A compra das vacinas Pfizer continuava empacada no final do ano, por conta da inexistência de uma lei que autorizasse o governo a assinar um contrato isentando o fabricante de responsabilidade por efeitos colaterais.

A minuta de uma medida provisória continha artigo neste sentido.

E Randolfe teve acesso a ela na época.

Mas quando o texto chegou ao Congresso com a assinatura de Bolsonaro, o artigo não constava do texto.

O senador fez uma emenda reiterando a autorização, que foi aprovada, mas o trecho foi vetado por Bolsonaro.

Ele não queria a compra da vacina.

E só com isso, ele atrasou em muito o contrato.

O assunto acabou sendo resolvido pelo Congresso, num projeto assinado pelo presidente do Senado, para não irritar o Planalto com a autoria do senador da oposição.

E finalmente foi sancionado, porque naquela altura Bolsonaro e filhos já haviam se rendido à vacina, ante a pressão crescente por uma solução para a mortandade.

O esforço de Pazuello serviu para complicar mais sua situação, para caracterizar melhor suas responsabilidades, mas não servirá para isentar Bolsonaro de todo o mal que fez ao povo brasileiro, empurrando milhares para a morte, seja com as pregações que levaram a descuidos, seja com a sabotagem da vacina ou a empurroterapia da cloroquina.

O relatório não será feito em cima de depoimentos, mas do conjunto de elementos probatórios.

E Bolsonaro os forneceu e continua fornecendo com fartura.

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