quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Caso Fábio Luís, maior desafio dos jornalões

Por Luís Nassif, no Jornal GGN:

É importante entender a lógica dos jornalões, que atuam fortemente em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro.

Essa ofensiva se dá em três frentes. Na primeira, escondem-se as relações dele com Daniel Vorcaro e enfatizam-se as ligações de Fábio Luís com Roberta Luchsinger - embora, até agora, não se saiba qual ilícito teria sido cometido por ele.

A lógica é a mesma da Lava Jato, quando tentaram criminalizar Lula por uma proposta de venda de apartamento encontrada em sua casa, sem nenhum tipo de assinatura ou registro, e pelos pedalinhos da chácara de Jacó Bittar, colocada à sua disposição por um amigo.

Em nenhum momento apareceu um mísero documento que comprovasse que a chácara pertencia a Lula. Pouco importa! O interesse era meramente político.

O mesmo ocorre agora com o caso Fábio Luís-Roberta Luchsinger.

Segundo O Globo de hoje, a compra do medicamento só ocorreria para atender a demandas judiciais — ou seja, decisões que dependem de sentença do Judiciário.

Havendo a sentença, o Ministério da Saúde é obrigado a comprar, fora dos procedimentos normais de licitação. É a chamada judicialização da saúde, um expediente que não depende do Ministério da Saúde nem do governo, mas sim do Judiciário.

Segundo o próprio Ministério da Saúde, a judicialização da saúde consumiu R$ 1,84 bilhão até agosto de 2025 apenas com os dez medicamentos mais caros - considerando somente ações individuais, sem contar ações coletivas.

Os gastos totais da União com o cumprimento de decisões judiciais em saúde chegaram a R$ 1,5 bilhão em 2025. Para dar dimensão: o valor equivale a cerca de um terço do orçamento anual do Mais Médicos, a quase metade do Brasil Sorridente e ao orçamento anual inteiro do Samu.

Era esse o mercado que se pretendia atingir - e ele não dependia de Fábio Luís nem do Ministério da Saúde.

O tráfico de informações irrelevantes pela Polícia Federal tem, no entanto, seu efeito político.

E, mais à frente, quando o processo for anulado - por falta de provas ou por excesso de ilegalidades -, a anulação será atribuída a manobras políticas escusas.

A segunda frente é o pessimismo reiterado nas manchetes de primeira página.

Se o desemprego cai a níveis recordes, a manchete destaca a queda na geração de novos empregos formais. Os indicadores econômicos mostram um mercado em calma; as manchetes e os editoriais criam a ficção de uma economia em chamas.

A terceira frente é o desmonte da barreira institucional do Supremo Tribunal Federal. A última investida foi contra o ministro Flávio Dino.

Valem-se bastante do efeito manada, brandindo bordões sem aprofundamento, como o conceito absoluto de liberdade de imprensa, sem se deter na análise dos fatos.

O interesse escuso

Afinal, o que pretendem os jornalões?

A situação é tão insólita que, ao contrário de outros tempos, não houve adesão do primeiro time da imprensa a esse jogo. As manipulações ocorrem na pauta, na edição e na reabilitação do tráfico de vazamentos entre policiais federais e colunistas conhecidos.

O que ocorre é um pouco mais complexo.

O país passou por um enorme desmonte institucional no período da Lava Jato, do impeachment e dos governos Temer e Bolsonaro.

Esse desmonte desequilibrou toda a hierarquia institucional, provocou um superdimensionamento dos órgãos de controle, em detrimento da racionalização dos métodos, e esparramou-se pelo mercado financeiro.

A partir da gestão de Roberto Campos Neto, o mercado financeiro foi invadido pelo crime organizado e pela engenharia tributária.

Permitiu-se a criação de uma série de fundos pouco transparentes, que transformaram o mercado na maior máquina de descontrole da República.

Foi um dos pontos mais graves do desmonte institucional.

O grande desafio das próximas décadas será reconstruir o arcabouço institucional, tapar os vazamentos que beneficiam o crime organizado e estabelecer transparência no controle das verbas públicas.

Diante desse tema, há duas posições absolutamente conflitantes: Flávio Bolsonaro representa a desregulação como instrumento para armar o crime organizado; Lula, a tentativa de uma reconstrução lenta e penosa, para recuperar ferramentas mínimas de políticas públicas.

Desafios da imprensa

Entra-se, agora, em uma nova fase crucial para o futuro da imprensa.

Há uma desconfiança antiga em relação ao papel da imprensa.

Em Public Opinion (1922), Walter Lippmann argumentava que o cidadão comum nunca tem acesso à realidade dos fatos - apenas a “imagens na cabeça” fabricadas pela imprensa, que por sua vez trabalha com estereótipos, fontes interessadas e limitações de tempo e espaço.


Para Lippmann, o ideal do “cidadão informado” que fiscaliza o poder por meio da imprensa é uma ficção; ele propunha, como correção, órgãos técnicos de inteligência especializada - em vez de confiar na opinião pública mediada pelos jornais.

Habermas falava em “refeudalização” dessa esfera pública, quando a imprensa comercial de massa passa a fabricar consenso e vender opinião como mercadoria, em vez de intermediar debate racional.

O Brasil passou por poucos consensos na história: a campanha da Abolição, a do “O Petróleo é Nosso” e a das Diretas Já. Em cada um desses episódios, os jornais construíram ou destruíram as próprias reputações.

A última delas, a das Diretas, permitiu à Folha de S. Paulo transformar-se no jornal mais influente do país, porque soube captar o momento.

A Lava Jato, pelo contrário, provocou a desmoralização de veículos como Veja, O Globo e Estadão assim que os detalhes vieram à tona.

A história há de registrar que, neste ano da graça de 2026, o país enfrenta o maior desafio de sua história: a luta pela democracia e pela reinstitucionalização. E há de cobrar um preço caro do veículo que não entender o momento.

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