![]() |
| Charge: Fraga |
Um dos bordões prediletos do mercado financeiro é a “lição de casa”. Pedro Malan, Antonio Palocci repetiam a todo instante: para crescer o país tinha que fazer a “lição de casa”. Que consistia, geralmente, em contenção dos salários, reforma da Previdência, redução dos gastos sociais, cortes na educação, na pesquisa científico-tecnológica.
Fazia-se o que o mercado queria. Não apareciam resultados. No final do ano, o diagnóstico invariável era que a lição de casa não havia sido suficiente.
São décadas nesse jogo retórico, endossado por apenas dois tipos de especialistas:
- os papagaios, cabeças-de-planilha, incapazes de análise mínima sobre a realidade;
- os cínicos.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em nenhum momento pode ser classificado no primeiro grupo.
Mas sabe repetir disciplinadamente todos os princípios da “lição de casa” em seus comunicados ao mercado. Ele sabe que a gente sabe que ele não acredita em um pingo no que diz. Mas o ritual exige que se repita o mantra.
Assim, na exposição que fez na CEO Conference, do Banco BTG, esgrimiu com a agilidade de um D’Artagnan, versão do The Three Stooges, os mantras do mercado.
O primeiro óbolo pago ao anfitrião foi a afirmação que o país enfrenta um problema estrutural, a baixa produtividade da economia. E diz que os reajustes salariais têm superado tanto a inflação quanto os ganhos de produtividade. Dito assim, parece que a baixa produtividade está ligada aos aumentos de salários.
Ora, produtividade depende de incorporação e tecnologia, de investimentos em novos equipamentos.
Não precisa ser sábio para estabelecer correlações diretas entre a queda de produtividade e a falta de investimentos, provocada pela Selic a 15% – taxa sem nenhuma influência das reivindicações salariais.
As grandes indagações filosóficas de Galipolo:
“Por que mesmo com taxas de juros mais elevadas, a gente continua assistindo essa dificuldade para conseguir produzir a convergência da inflação para a meta e uma economia tão resiliente para uma taxa de juros tão elevada?”
Ele reforça que “no final do dia a função do banqueiro central é combater a inflação independente da razão“. Como assim, independente da razão? Saber a razão é o ponto inicial de qualquer diagnóstico. Um médico não pode sair receitando doses cavalares de antibiótico a um paciente vítima de infecção bacteriana.
O grande fator de influência da inflação brasileira é o fluxo de capital especulativo, que entra e sai do país através das chamadas operações de “carry trade” – operações em que o investidor toma juro barato em países centrais, para aplicar em juros elevados em países emergentes, especialmente o Brasil.
Toda a lógica do BC tem sido a de manter o fluxo de entrada de capital especulativo – um capital deletério, que prejudica inclusive o capital externo produtivo.
No entanto, a saída proposta por Galípolo consiste em manter as taxas elevadas e acertar as condições macroeconômicas do país para que ele possa, levantando como um transatlântico, ir mudando o rumo.
Nenhuma sugestão sobre como diminuir a volatilidade dos mercados futuros, como reduzir a influência do “carry trade” no câmbio, como impedir o livre trânsito do capital gafanhoto.
Alguém poderia alegar, acertadamente, que combater essas restrições não é trabalho individual de um presidente do BC, mas um projeto de governo. É tarefa grandiosa, perigosa, mas essencial para o país retomar o caminho do desenvolvimento.
Mas quem irá botar o guizo no gato?
Nessa fase de profundas transições, a única chance do país não perder definitivamente o bonde da história será um presidente que ouse, que apresente um plano de metas eficiente, que levante a bandeira do desenvolvimento como aspiração nacional, livrando a economia definitivamente da praga do livre fluxo de capitais.
Não foi Lula 1, nem Lula 2, nem Lula 3. E existe apenas um político com dimensão para enfrentar esse desafio: Lula 4. Se não acordar a tempo, até é possível que livre o Brasil do desmonte a partir de 2026. Mas continuará empurrando o país com a barriga por mais 4 anos até a grande hecatombe de 2030.

0 comentários:
Postar um comentário