quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Suspeição age contra a revolução bolivariana

Por Bianca Borges, no site da União da Juventude Socialista (UJS):

A recente tentativa por parte dos Estados Unidos de desestabilizar a Venezuela não pode ser compreendida a partir de seus fatores internos isoladamente. Há décadas, os Estados Unidos tratam a América Latina como um tabuleiro geopolítico no qual governos, economias e instituições são pressionados, movidos ou substituídos conforme interesses estratégicos ligados a energia, recursos naturais e influência regional.

Esse padrão não é novo. Foi assim nos anos 1960 e 1970, com golpes militares articulados sob o discurso da “segurança hemisférica”. Repete-se sempre que um governo ousa romper com a lógica da dependência, nacionalizar recursos estratégicos ou afirmar um projeto soberano apoiado em base popular. A Venezuela se insere exatamente nesse histórico.

Desde o início da Revolução Bolivariana, o país passou a ocupar um lugar central na disputa geopolítica regional. Não apenas por suas reservas de petróleo, gás e minerais críticos, mas por ter afirmado um projeto político que confronta diretamente a hegemonia estadunidense no continente. A resposta a isso foi um conjunto articulado de sanções unilaterais, operações de desestabilização política, tentativas de isolamento diplomático e, em momentos mais agudos, ameaças explícitas de intervenção militar.

A retórica da “defesa da democracia” e dos “direitos humanos” tem funcionado, nesse contexto, como cobertura discursiva para uma prática histórica de ingerência externa. O que está em jogo não é a democracia venezuelana em abstrato, mas o controle de recursos estratégicos e a contenção de qualquer experiência que sinalize autonomia política na América Latina.

Para o Brasil, esse cenário acende alertas que não podem ser ignorados. A instabilidade produzida de fora compromete a integração sul-americana e cria precedentes perigosos. Quando uma potência externa se arroga o direito de definir o destino político de um país vizinho a partir do sequestro de seu presidente e pressões posteriores, inaugura-se uma lógica segundo a qual qualquer nação que contrarie interesses estratégicos pode ser submetida ao mesmo tipo de pressão. A tentativa recente de interferência de setores ligados a Donald Trump em processos institucionais brasileiros, como no julgamento de Jair Bolsonaro, mostra que essa lógica não se restringe à Venezuela.

É nesse ambiente de guerra que surge a narrativa de que teria havido traição por parte de Delcy Rodríguez ou de outros dirigentes da cúpula bolivariana após o sequestro de Nicolás Maduro. Essa hipótese, no entanto, não se sustenta em fatos verificáveis ou quaisquer evidências concretas. Trata-se de uma construção típica de cenários de agressão externa, marcada por desinformação, especulação e operações psicológicas.

A acusação de traição cumpre uma função política clara. Para opositores, explorar supostas fissuras no chavismo serve para desacreditar a Revolução Bolivariana e reforçar a narrativa de colapso do regime. Ao deslocar o foco da análise da agressão imperialista para uma explicação moralizante e personalizada, essa leitura obscurece a correlação real de forças e simplifica um processo político muito mais complexo.

Do ponto de vista dos defensores da Revolução Bolivariana, o sequestro de Maduro deve ser compreendido como resultado direto de uma ofensiva externa marcada por enorme assimetria militar, tecnológica e econômica, e não como fruto de um pacto interno ou de uma ruptura deliberada da direção política do Estado.

Um primeiro elemento objetivo que desmonta a hipótese de traição é o número de mortos e os confrontos armados ocorridos durante a operação. Operações baseadas em traição política não produzem resistência real nem baixas significativas entre forças leais. A existência de combates, sacrifícios e perdas humanas entre militares e agentes de segurança do próprio governo indica que houve resistência efetiva, ainda que insuficiente diante da superioridade do agressor. Isso é incompatível com a ideia de uma entrega negociada ou de colaboração consciente da cúpula governamental.

Outro ponto central é o dilema enfrentado por Delcy Rodríguez após o sequestro. Não se trata de uma escolha simples entre lealdade e traição, mas de uma decisão dramática entre resistir sem chances reais de vitória, aprofundando o risco de colapso institucional e guerra civil, ou assumir a condução do governo para preservar a continuidade do Estado e conter a escalada da desestabilização pretendida pelos EUA. Longe de caracterizar traição, esse dilema revela a profundidade da pressão exercida sobre a liderança bolivariana em um contexto de derrota pontual de seu processo revolucionário.

A própria continuidade da Revolução Bolivariana é um elemento decisivo contra a narrativa da traição. Suas organizações políticas, sua base popular, sua identidade ideológica e suas estruturas institucionais seguem existindo e operando. Se houvesse traição estratégica da cúpula, o resultado esperado seria a dissolução imediata do chavismo como força organizada, o que não ocorreu.

Nesse sentido, o episódio deve ser compreendido como uma derrota tática, localizada no plano militar e conjuntural, e não como uma derrota estratégica do projeto bolivariano. Derrotas táticas fazem parte de processos históricos prolongados que enfrentam potências imperialistas e não implicam abandono de princípios, capitulação política ou renúncia ao horizonte revolucionário.

A insistência na narrativa da traição cumpre, portanto, o papel de deslocar a análise da agressão estrutural para um julgamento moral individual, funcional à guerra psicológica e à tentativa de fragmentar o campo popular. Ao transformar uma ofensiva imperialista em suposta falência moral interna, essa leitura acaba servindo mais aos interesses da desestabilização da Venezuela do que à defesa consequente da Revolução Bolivariana.

Rejeitar a narrativa da traição não é um gesto de indulgência política nem de cega lealdade. É um exercício de rigor analítico diante de um cenário marcado por assimetria de poder e guerra comunicacional, em que transformar derrotas táticas em falências morais internas é parte do repertório histórico das intervenções imperialistas, não dos revolucionários e solidários à causa dos povos. No caso venezuelano, sustentar essa leitura apenas legitima, ainda que involuntariamente, a lógica da desestabilização. Defender a Venezuela é afirmar que a democracia e a autodeterminação dos povos não podem ser redefinidas a partir dos interesses de Washington, e que o destino da América Latina só pode ser decidido por seus próprios povos.

* Bianca Borges é presidenta da UNE.

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