quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Bolsonaro, Trump e os falsos idiotas

Por Paulo Nogueira Batista Jr., na revista CartaCapital:

Há muito tempo, leitor, não trato de um tema que me era caro outrora: a ascensão fulminante e irresistível do idiota. E, no entanto, hoje mais do que nunca vivemos as consequências desse fenômeno arrasador – não só no Brasil, mas em grande parte do mundo.

Tudo começou no século XX. O primeiro a diagnosticar o fenômeno foi, salvo engano, o filósofo espanhol Ortega y Gasset. A sua obra A Rebelião das Massas marcou época. Décadas depois, Nelson Rodrigues retomou o tema com mais verve e mais graça. Os idiotas sempre existiram - e em grande número.

Sempre foram a maioria - sólida e compacta maioria. Mas, até o século passado, os idiotas ignoravam a sua condição de maioria e, portanto, viviam omissos e acomodados, ignorantes da força que a sua condição lhes proporcionava. A deferência era seu traço característico. Nunca lhes ocorreria incomodar os outros com opiniões, ideias, projetos.

De repente, tudo mudou. O idiota descobriu o próprio peso e desencadeou-se por toda parte com força brutal. Passou a publicar, dar entrevistas, gerir empresas e - o que é pior - ocupar cargos públicos da maior importância. Isso foi, como dizia, no século passado.

De lá para cá, o campo ocupado pelo idiota só fez expandir-se. É notório, por exemplo, que as redes sociais ampliaram sobremaneira as suas possibilidades de atuação. Convenhamos, leitor: o que temos, hoje, não é mais a ascensão do idiota, mas o seu completo e indiscutível triunfo. Os não idiotas sobrevivem assustados e acuados. Quando botam a cabeça para fora, sofrem as piores agressões.

O fenômeno se reproduz em todas as esferas. Começa no seio das famílias. Em outros tempos, os idiotas da família eram bem-comportados. Não arriscavam um palpite, um parecer, sequer faziam perguntas. Hoje, não. As reuniões familiares são dominadas pelos patetas, sempre ruidosos e cheios de convicções. Nunca lhes ocorrerá, é claro, que a dúvida tem um papel salutar. Nietzsche, não por acaso, escolheu o jumento como metáfora para o portador de convicções…

Obviamente, os patetas não se contentam em tumultuar reuniões familiares ou sociais. Querem “influir nos destinos da nação”.

Em 2016, leitor, quem é que marchava atrás de pato na Avenida Paulista, na Avenida Atlântica e em tantas outras avenidas Brasil afora? O idiota, ora, o idiota na sua mais límpida e cristalina manifestação. E ali começou a nossa desgraça atual.

Mas o fenômeno está longe de ser apenas nacional. Basta dar uma espiada nos Estados Unidos, por exemplo. É uma grande nação. Já teve um Abraham Lincoln como presidente da República. Lincoln, além de grande líder político, era um artista da palavra. Escrevia ele mesmo, com grande cuidado, os seus discursos e pronunciamentos. Alguns deles são verdadeiras obras de arte.

Bem. Esse mesmo país elegeu George W. Bush para a Presidência (duas vezes!) e agora Donald Trump. Bush tinha, ao menos, certo senso de humor. Trump, nem isso. Mas, enfim, quem sou eu para menosprezar o presidente dos EUA? Trump tem, sem dúvida, pontos fortes e qualidades apreciáveis. Mas aí é que está: consegue disfarçá-los de maneira magistral. Pode parecer estranho, mas não há mistério nem paradoxo. Num mundo dominado inapelavelmente pelos idiotas, um homem de talento como Trump tem de se comportar como se idiota fosse.

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, trilha exatamente o mesmo caminho. Comporta-se, às vezes, como perfeito idiota. Mas é tudo manobra, tudo disfarce. Na campanha, Fernando Haddad deu um show de inteligência e cultura. Chegou a lançar expressões em latim na cara do eleitor. Um grande erro, evidentemente.

Bolsonaro, assim como Trump, mostra traços de verdadeira genialidade no modo como simula idiotice. A escolha de alguns ministros causou sensação.

Um exemplo: o embaixador Ernesto Araújo, futuro ministro das Relações Exteriores. Pelos seus escritos, percebe-se que é um diplomata de vasta cultura. Mas, para subir na vida, é obrigado a fazer concessões medonhas.

Em texto recente, citado na mídia, Araújo sugeriu que o Brasil questione os Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A sua ideia é que se tente, no lugar, constituir “um agrupamento nacionalista Brasil – EUA – (Rússia?) – (Índia?) – (Japão?) – (países de Visegrado?)”, em suma “um BRICS antiglobalista sem a China”. O futuro chanceler sugere ainda que o governo explore “a possibilidade de um núcleo composto pelos três maiores países cristãos, Brasil-EUA-Rússia”.

Insuperável.

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