sexta-feira, 8 de maio de 2026

Nos EUA, Lula fez barba, cabelo e bigode

Por Tereza Cruvinel, no site Brasil-247:

O êxito incontestável do encontro do presidente Lula com Donald Trump superou as expectativas do próprio governo brasileiro e suplantou até a crônica má vontade da mídia corporativa para com ele.

E antes de qualquer avaliação sobre ganhos políticos ou eleitorais, o que mais importa é o reconhecimento de que Lula foi à Casa Branca em defesa dos interesses do Brasil, disposto ao diálogo e à negociação, mas demarcando como limite a observância da soberania e da democracia brasileiras.

Trump, tão áspero, foi mais que amistoso, não há que negar: mandou estender o tapete vermelho, e sorridente recebeu o visitante na porta com caloroso aperto de mão. Aceitou, de pronto, o pedido para que não houvesse sessão com a imprensa no Salão Oval no início do encontro, temendo uma daquelas emboscadas que Trump já armou para outros. Depois da visita, nas redes, chamou Lula de “muito dinâmico” e, mais tarde, de “bom homem” e de “um cara inteligente”. Na sexta-feira passada, teria encerrado o telefonema que fez para Lula com um inusitado “I love you”. Ele, que ouviu isso de Bolsonaro, talvez tenha pensado que seja um costume político brasileiro entre aliados. Lá, não é. Nem aqui, mas foi um indicador da temperatura que haveria na Casa Branca.

Lula também fez seus salamaleques, como o de sugerir que Trump fosse mais sorridente, que sorrisse na foto oficial, pois ele era “mais bonito” sorrindo, e outros de que não tivemos notícia. E com isso ganhou uma excelente “photo opportunity”, que pode lhe render votos.

O fru-fru diplomático parece fútil mas tem seu valor semiótico, como indicador das disposições subjetivas dos atores. De tudo, resultou o que o presidente Lula chamou de “um passo importante para a consolidação da relação histórica e democrática que o Brasil sempre teve com os Estados Unidos”.

Música pura para as elites nacionais, que colocam a relação com os EUA no altar das questões que não admitem ser comprometidas por qualquer governo.

Nada concreto foi anunciado, pode dizer a oposição. Bobagem pura. Trump nem falou contra o pix ou em classificar as organizações criminosas brasileiras como narco-terroristas. Dispensado aqui explicar o que isso significaria. Vitória de Lula.

Quando a conversa começou a azedar sobre tarifas, Lula disse ter proposto o grupo de trabalho para acertarem os ponteiros dentro de 30 dias. Há muito o que ser acertado ainda nesta área: tarifas ainda em vigor, pesando especialmente sobre o aço e o alumínio, e a investigação, com base na seção 301 da lei comercial deles, sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil.

Sobre terras raras, Lula não prometeu exclusividade aos Estados Unidos, mas foi completamente aberto à participação de empresas norte-americanas na exploração, desde que todo o processo de tratamento e refino seja feito no Brasil, gerando tecnologia, empregos, divisas...

Lula queria muito acertar logo um acordo de cooperação para combaterem juntos o crime organizado. Agregando inclusive outros países das Américas. Não deu, mas combinaram de criar, para isso, outro grupo de trabalho.

Aqui no Brasil costuma-se dizer que quando o governo não quer resolver um problema, cria-se um GT, um grupo de trabalho. Não acho que isso se aplique aos grupos aprovados no encontro da Casa Branca.

Obviamente, o governo de Trump tem muitos outros abacaxis sobre a mesa, com destaque para a guerra desnecessária que ele mesmo criou com o Irã, mas a diplomacia brasileira, como me disse hoje um diplomata, vai marcar cerrado para que o trabalho avance, em reuniões presenciais ou remotas com os pares do lado de lá.

Tudo que foi tratado, com total transparência, é do interesse nacional. Nem por isso, deixam de existir os ganhos eleitorais. Tanto para Trump, que amarga a impopularidade, e enfrentará eleições para o parlamento no final do ano, como para Lula, que tentará a reeleição, está com a aprovação baixa e, segundo as pesquisas, neste momento, está empatado tecnicamente com Bolsonarinho (Cantalice, foi adotar seu tratamento para o filhote).

Muito ainda se pode dizer e compreender a partir do encontro, uma vitória do pragmatismo bilateral (para além da existência ou não da tal de “química”). E da diplomacia presidencial, que muita gente enxerga como diletantismo de Lula, contando os dias que já passou fora do país. Todas as viagens foram no interesse nacional, mas com esta ele marcou seu gol mais importante nesta área.

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