Por Jair de Souza
O fato de que os três maiores jornais das classes dominantes do Brasil tenham lançado, no mesmo dia, uma manchete exatamente com as mesmas palavras pode ter parecido uma incrível coincidência jornalística, exceto para quem acompanha há algum tempo a maneira de atuar de nossos meios de comunicação corporativos.
Também não constitui nenhuma grande surpresa que, em relação com este caso, o propósito indisfarçável dos citados órgãos fosse reforçar e intensificar o projeto por eles mesmos iniciado, lá por meados da primeira década deste século, com vistas a sedimentar na mente de nosso povo a sensação de que o atual presidente Lula é uma pessoa inteiramente associada com a corrupção.
Por isso, muito longe de significar um mero acaso, há enormes revelações e deduções a serem extraídas da decisão de Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo estamparem em sua primeira página o seguinte titular: “Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por tráfico de influência”.
A primeira grande inferência que podemos fazer a partir de uma simples olhada no modus operándis desses veículos informativos das elites econômicas de nosso país é o de que todos eles assimilaram à perfeição as lições ministradas por seu principal mentor em termos de comunicação, que não é outro que o conhecido chefe de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels. Deste, os chefes de redação dos citados órgãos demonstram terem absorvido a essência teórica e prática daquele conceito que reza: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade”.
No entanto, convém ter em conta que, se a funcionalidade da máxima goebbeliana já se havia provado de muita serventia para os propósitos de nossos donos das corporações midiáticas em outras situações, agora, com o avassalador advento dos conglomerados de comunicação digital, sua eficácia viu-se tremendamente mais potencializada.
Portanto, devido ao significado da preponderância das redes digitais na comunicação da atualidade, torna-se imperativo que tenhamos uma boa compreensão de seu funcionamento e das consequências disso derivadas.
Entretanto, pudemos ler e ouvir várias atenuações quanto aos resultados da atitude dos citados “jornalões” em sua difusão sincronizada e concatenada de uma pretensa informação cujo objetivo evidente é sedimentar preconceitos contra Lula, para favorecer o representante dos interesses do imperialismo e das classes dominantes no próximo pleito eleitoral.
Neste sentido, a argumentação mais frequentemente utilizada é a de que essa mídia corporativa já teria se tornado completamente irrelevante, sem a capacidade de impor sua posição a parcelas expressivas da população. Tanto seria assim que, em comparação com outros tempos, as atuais tiragens dos tais jornais são realmente irrisórias, não ultrapassando a casa de uns poucos milhares de exemplares.
Porém, o que podemos dizer a respeito desta interpretação é que, a partir de uma premissa verdadeira, tira-se uma conclusão equivocada. É que, embora esses meios impressos das oligarquias sejam de por si insignificantes em seu alcance direto, eles atuam em plena sintonia com os meios digitais e seus algoritmos. Sobre isto, gostaria de esboçar algumas opiniões sobre o que estamos enfrentando e fazer as correspondentes sugestões de como lidar com a situação.
Precisamos deixar bem claro: se nossos meios corporativos são fervorosos adeptos dos ensinamentos de Joseph Goebbles, as grandes plataformas de redes digitais, as conhecidas Big Techs, encarnaram, encamparam e aprofundaram seu espírito como ninguém jamais o havia feito. Essas redes e seus algoritmos possibilitam que a famigerada tese de transformar mentiras em verdades consiga ter um nível de efetividade infinitamente mais elevado do que o que o criador original do conceito havia vislumbrado.
Então, quando meios impressos de alcance direto desprezível lançam alguma diatribe, seu objetivo real não é que o público venha a ser impactado através dos mesmos. A propagação de seus vieses e manipulações é feito através da repercussão de suas matérias pelas redes sociais mantidas e operadas pelas Big Techs.
Mas, o grande segredo que intensifica a capacidade de transformar mentiras em verdade são as manipulações dos algoritmos. Como detentores quase exclusivos de informações relativas aos sentimentos, aspirações, broncas e paixões de quase toda a população, os controladores das plataformas de redes sabem muito bem o que deve ser endereçado a cada pessoa com vista a gerar na mesma os efeitos por eles desejados. Daí, as mensagens são difundidas seletivamente, de acordo com os propósitos que os norteiam e do conhecimento já acumulado sobre quase todos os aspectos de nossa vida.
Embora os ativistas do campo popular também possam fazer uso dessas redes sociais, é extremamente improvável que consigam ultrapassar os limites das bolhas em que foram inseridos com base nos tais algoritmos. Contudo, o mecanismo opera de maneira inversa quando a mensagem a ser difundida é de interesse estratégico do centro imperialista e das classes dominantes.
Na hipótese anterior, a veiculação é feita deliberadamente de modo a atingir a todos os grupos sociais, exceto os que tenham sido algoritmicamente classificados como opositores desses interesses.
Além de servir para reforçar preconceitos estigmatizadores e potencializar a difusão do ódio, esta forma de operar dificulta a luta de resistência a reação por parte de quem atua em defesa de aspirações contrapostas às dos agentes imperialistas e seus aliados internos. Isto se deve a que, para impedir uma espécie de efeito de tipo vacinal, as mensagens políticas dirigidas aos outros setores sociais não chegam até os que foram detectados como opositores conscientes dos interesses assumidos pelas Big Techs. Assim, com frequência, somos pegos de surpresa, totalmente alienados de versões e fabricações que já tinham sido amplamente disseminadas entre a maioria da população.
É este o fenômeno que explica o surgimento dos pablos marçais da vida. E, igualmente, que na Colômbia, de repente, um candidato de quem nunca havíamos ouvido falar consegue vencer as eleições presidenciais. A posse e controle dos algoritmos pelos conglomerados digitais dá a estes condições de saber a quem enviar ou não suas mensagens, e a maneira de fazê-lo em cada ocasião.
Inegavelmente, é quase impossível que tenhamos condições de travar nossa luta nas redes com uma eficiência equivalente. Os grandes conglomerados que hegemonizam a comunicação digital na maior parte do mundo são de propriedade de grandes grupos capitalistas. Esses proprietários formam atualmente o núcleo essencial do que poderíamos catalogar como o Neonazismo do Século XXI. Estavam todos presentes para externar apoio a seu principal agente executivo quando de sua posse à presidência dos Estados Unidos há pouco mais de um ano.
Não podemos albergar ilusões de que teremos condições de derrotar os mais poderosos inimigos da humanidade no momento recorrendo unicamente a seus próprios instrumentos. Está claro que devemos aprender a replicar ao máximo tudo aquilo que contribui para estabelecer a verdade e se contraponha às mentiras. É imperativo que todos os militantes das causas populares e anti-imperialistas se deem conta da necessidade de intensificar nosso empenho para fazer que nossa palavra não fique restrita a nossa própria bolha.
Mas, nosso esforço não deve limitar-se a fazer o trabalho de contrainformação através dos meios que eles possuem e controlam. O contato humano real continua sendo o fator de maior relevância para possibilitar que se expanda e consolide uma visão de mundo conforme à realidade e aos interesses das amplas maiorias de nosso povo.
Portanto, mais do que nunca, nossa presença humana pessoal, física, ao lado do povo trabalhador com o qual estamos identificados continua sendo um dos mais valiosos instrumentos para que a luz consiga se sobrepor as trevas representadas pelas forças reacionárias do imperialismo naziestadunidense e os traidores da pátria que lhes dão apoio por aqui.
0 comentários:
Postar um comentário