segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Mulheres Yanomami rechaçam Flávio Bolsonaro

Por Altamiro Borges

“O rastro de Bolsonaro é contaminado por doenças, está cheio de malária, diarreia, verminoses, feridas, pneumonia, tomado pela desnutrição, vômito e coceira. O caminho de Bolsonaro é assim e por isso nós, mulheres da floresta, não queremos que seu filho Flávio assente na cadeira de presidente”, afirma a carta assinada por 60 lideranças femininas Yanomami reunidas no 17º Encontro de Mulheres, com representantes de 30 comunidades de nove regiões do território.

O manifesto foi publicado no site Repórter Brasil, que também traz contundentes relatos sobre o temor dos povos da reserva indígena em Roraima. “Eu não quero o filho do Bolsonaro. Não quero os nossos filhos cheios de malária de novo”, alerta Noemia Yanomami. Ela vive na região da maloca Papiu, uma das mais afetadas pelo garimpo na Terra Indígena Yanomami – a maior do Brasil em extensão, com população de 31 mil habitantes e área comparável à de Portugal.

420 crianças mortas por malária e desnutrição

“Noemia teme que o candidato do PL impulsione o retorno ao território da crise sanitária e das atividades econômicas ilegais, como o garimpo, durante o governo de Jair Bolsonaro”, explica o site. Entre 2019 e 2022, 420 crianças com menos de cinco anos morreram por causas evitáveis – 47 foram vítimas da malária e 115 estavam desnutridas. O número de óbitos foi quase o dobro de quatro anos antes, de acordo com o Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena do SUS.

No auge da invasão garimpeira, pelo menos seis postos de saúde foram fechados ou destruídos, interrompendo a assistência a 72 comunidades com mais de 4 mil indígenas. “O desastre socioambiental promovido pelo garimpo ilegal e a omissão do estado brasileiro em garantir segurança territorial ao povo Yanomami tiveram, por fim, o efeito disruptivo de colapsar a já fragilizada assistência sanitária no território”, afirma um relatório do Ministério Público Federal (MPF).

A invasão garimpeira nas terras indígenas

“O garimpo e a violência também dificultaram o envio de remédios a regiões só acessíveis por via aérea. A Repórter Brasil teve acesso a um ofício da Hutukara Associação Yanomami de setembro de 2022 que descreve um quadro de desabastecimento em postos de saúde próximos a duas regiões invadidas: Xitei e Surucucu. No período de três semanas, entre agosto e setembro, seis crianças morreram – uma delas por um tipo de pneumonia causada pela ‘infestação massiva de vermes”.

Além da dificuldade de abastecimento de remédios, investigações do MPF apontaram indícios de um suposto esquema de fraude e desvio de verbas públicas. Segundo o órgão, o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami empenhou R$ 3 milhões em 2021 para a aquisição de medicamentos essenciais. Mas há suspeitas de que apenas uma fração dos remédios tenha sido entregue, apesar do pagamento integral das notas fiscais. O relatório do MPF aponta ainda que mais de 10 mil crianças indígenas ficaram sem tratamento contra verminoses, provocando quadros severos da doença – com relatos de crianças expelindo vermes pela boca.

Avanços no governo Lula correm risco  

Cerca de 20 mil garimpeiros invadiram o território, em estimativa da Fundação dos Povos Indígenas (Funai) feita em fevereiro de 2023. Mais de 1,5 mil pontos de mineração ilegal estavam operando entre 2020 e 2022, segundo o Centro Gestor Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. No total, 2,2 mil hectares foram devastados nesse período.

Em janeiro de 2023, primeiro mês do terceiro governo Lula, o colapso do sistema de saúde levou à declaração de situação de emergência na região. “Não queremos voltar a chorar”, afirma Adneia Yanomami. Em 2025, foram registradas 356 mortes no território, uma redução de 18% em relação aos 435 óbitos de 2023, segundo informe do Ministério da Saúde. O documento aponta uma “queda importante” da taxa de mortalidade após 2023, seguida de relativa estabilidade em um patamar mais baixo, e ressalta a necessidade de manter as ações de assistência no território.

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