quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Um pacto pode evitar o horror em SP

Por Saul Leblon, no site Carta Maior:

Restam poucas horas para o desastre anunciado se consumar.

Mas a experiência mostra que poucas horas de lucidez, com ação coordenada de projeto, rua e propaganda podem sacudir a vida de um povo. E mudar o curso da história.

O desfecho que se esboça na disputa municipal em São Paulo, e na do Rio, deixará uma lição dura às forças progressistas.

Se a derrota se confirmar domingo, levando para o segundo turno candidaturas de direita nas duas principais capitais do país, ficará flagrante o irrealismo inscrito na dispersão eleitoral das forças progressistas nos dois casos.

O do Rio é mais transparente: Crivella tem 35% dos votos; juntos, Freixo, Jandira somam 17%. Separados, podem facultar o segundo turno a Pedro Paulo (11%).

Em São Paulo, expoentes do que há de mais retrógrado no almoxarifado conservador lideram a disputa.

Segundo o Ibope, Dória Jr tem 30% das intenções; Russomano, 22%.

Haddad e Erundina, juntos, somam 16%.

Todavia, 1/3 dos eleitores se declaram ainda inseguros na sua escolha, ou seja, insatisfeitos com as opções em jogo. Podem mudar o voto até na soleira da porta para a urna de domingo, arrastando os que optaram por Marta pela inércia, mas já começam a migrar – a ex-prefeita perdeu apoio sobretudo na faixa de renda de dois a cinco salários mínimos, em que despencou de 22% para 12%.

O que pode preencher esse hiato que reclama uma nova referência, capaz de motivar outro desfecho para a disputa política na maior cidade da América Latina?

Em primeiro lugar, a transparência do que está em jogo.

Em segundo lugar, a responsabilidade e a segurança irradiadas por uma alternativa que arregimente forças dispersas e desse modo inspire respeito, confiança e credibilidade nos indecisos e nos que eles poderão arrastar, numa virada conhecida das retas finais de campanha.

A unidade de Haddad e Erundina é o ponto de partida para mover as peças nesse tabuleiro.

Trata-se de reconhecer que a fragmentação progressista nesse momento foca a batalha do dia anterior.

O Brasil mudou radicalmente entre o registro das candidaturas e as horas que faltam para a decisão eleitoral.

O país está sendo arrastado para o Estado de exceção, com a cumplicidade vergonhosa dos liberais,que protagonizam mais uma recidiva antissocial (leia ‘O silêncio dos liberais: raízes da vergonha brasileira’ http://cartamaior.com.br/?/Editorial/O-silencio-dos-liberais-raizes-da-vergonha-brasileira/36887)

Só a vocação para a eutanásia política justifica que as forças progressistas insistam nessa hora em adotar o bordão da debandada, proferido pelo coronel Pedro Nunes Tamarindo, em Canudos, após a morte do comandante Moreira César: ‘É tempo de murici, que cada um cuide de si’

Cuidar de si, focado no interesse unilateral, quando as retroescavadeiras do golpe demolem a Constituição, o patrimônio público, os empregos e a soberania nacional, configura um erro dramático dos adeptos do coronel Tamarindo.

Unidas as forças progressistas podem afrontar esse desfecho e reinventar o futuro.

A esquerda já governou São Paulo três vezes desde a redemocratização.

Candidaturas progressistas estiveram no comando da cidade em 12 dos cerca de 26 anos desde que a capital voltou a escolher seus prefeitos pelo voto popular, em 1989.

Erundina (1989-2003); Marta (2001-2004) e Haddad (2012-2016) venceram os mais graúdos e emblemáticos porta-vozes da direita paulistana.

É um mito que São Paulo representa o bunker inexpugnável da reação.

O capital tem aqui as suas mais qualificadas fortificações.

Mas o trabalho também.

O retrospecto mostra que não há favoritismo nesse embate.

A cidade concentra cerca de 11,5% da riqueza do país.

O dinheiro exerce um poder descomunal sobre ela: 1% dos paulistanos detém 20% da riqueza da cidade (13% há uma década).

Mas nesse moedor de carne humana vivem 12 milhões de pessoas e quase 7% dos eleitorado brasileiro, um poder político não negligenciável.

Existe em São Paulo um aparato ideológico que a credencia como a mais importante caixa de ressonância dos movimentos pelo impeachment.

Mas ela sedia também a maior fatia da inteligência brasileira de esquerda; resiste aqui uma franja influente de classe democrática; a capital está cravejada de movimentos artísticos e culturais, rodeada de bairros operários e periferias coalhadas de juventude ávida de oportunidade e esperança.

O emprego industrial que qualificava e organizava as famílias paulistanas assalariadas viajou para a China ou mudou para o interior.

Um exército fragmentado de jovens trabalhadores da área de serviços ocupou esse vazio --sem tradição sindical, sem articulação partidária, sem mídia que os explicasse e interligasse.

Dependurados na história exclusivamente pelo celular.

Mas foram eles que sacudiram as ruas de São Paulo nas jornadas de 2013, são eles que tem forte presença nos ‘movimentos de ocupa’ (ocupa terrenos, ocupa cultura, ocupa escola etc), vem deles o vigor que hoje se opõe à reforma autoritária do ensino médio, são eles que revigoram a constelação do coletivos e trincheiras sociais espalhados por São Paulo.

A batalha eleitoral hoje está por um fio, mas não está decidida.

O colapso do PT e o golpe contra Dilma compõem a narrativa previsível de uma vitória conservadora.

Mas São Paulo reúne contradições aguçadas pelo golpe, cristalizadas em forças com peso e desassombro para enfrenta-las e assim abater a direita em plena decolagem.

Se é verdade que a metrópole condensa a encruzilhada brasileira, não necessariamente deve replicar seu desfecho federal.

Pode afronta-lo e assim embaralhar o conjunto inaugurando um recomeço.

A aposta que pode fazer de São Paulo uma alavanca para o Brasil depende desse requisito: o desassombro e a capacidade de aglutinação das candidaturas progressistas para afrontar o golpe e tudo o que ele representa aqui --mais desemprego, mais insegurança, menos infraestrutura, menos escolas, menos saúde, um cemitério da esperança.

Dória Jr ou Russomano são as carpideiras desse esquife de concreto.

Vale insistir: separados, Haddad e Erundina perderão a vaga do segundo turno para um deles.

Juntos, porém, o atual prefeito e a candidata do PSOL podem reunir o magnetismo do desprendimento e o apelo da emergência histórica, capaz de arrastar a parcela dos indecisos que já começa migrar da canoa sem rumo de Marta/Matarazzo, ou do simulacro insustentável, representado por Russomano.

A transparência joga a favor dessa virada.

O confronto entre golpe e democracia, entre arrocho e repactuação do desenvolvimento, entre a cidade murada e a cidade democratizada invadirá a disputa pela prefeitura da capital e prosseguirá para além dela, se Haddad e Erundina conclamarem a juventude a essa luta.

A vantagem já conquistada pelo animador de auditórios tucano é significativa.

Mas insuficiente para desarmar a radicalização das contradições decorrentes do esgotamento de um ciclo de expansão capitalista que já sacodia São Paulo antes do golpe --e agora vulcanizará cada vez mais o cotidiano da cidade e o de suas carências.

O Brasil vive aquilo que Celso Furtado denominava de ‘as provas cruciais na vida de uma nação’.

Talvez as mais cruciais desde o suicídio de Vargas, em 1954, do ponto de vista político.

E as mais estratégicas desde o golpe militar, em 1964, do ponto de vista das escolhas do desenvolvimento.

A qualidade do material político que o conservadorismo já indicou à apreciação eleitoral dos paulistanos antecipa a regressão embutida nas iniciativas já tomadas e prometidas pelo golpe no plano federal.

É dessa matéria prima que a direita brasileira pretende extrair uma vitória para fazer da disputa municipal a sua plataforma ao governo do Estado e ao posto máximo da nação, em 2018.

Mas é a partir dela, também, que uma frente ampla progressista pode espanar a fatalidade.

E empolgar a reta final da campanha com um pacto pela construção de uma gigantesca trincheira de democracia participativa na maior capital do país. Por certo não a única, mas a de escala e massa crítica mais favorável para resistir e deliberar sobre questões urbanas decisivas do presente –listadas num programa de plebiscitos municipais. E assim mudar a correlação de forças que vai decidir o futuro do próprio país.

3 comentários:

Anônimo disse...

É bom observar, que 30% de uma amostra de 1.500 eleitores pesquisados, são apenas 450 votos, de um total de 8.886.324 eleitores em Sampa.
Faltou combinar com os outros 8.884.824 eleitores restantes !!!
Estas pesquisas são pura lavagem cerebral, que acaba dando certo ...
É soda !!!

Jonas Carvalho disse...

Infelizmente os eleitores marginais de Doria e Russomano não pensam como nos. Leblon. "Alea jacta est", o golpe da direita vai se consumar também em S.Paulo e no Rio. Teremos "dies irae" pela frente nos próximos anos. Ha que recolher os cacos de um grande sonho despedaçado.

Leonardo Marques disse...

infelizmente São Paulo vai ver duas NULIDADES no segundo turno. e pior,com gente que fala 2,3 idiomas e tem o"ensino superior"!