quinta-feira, 13 de outubro de 2016

João Doria, o surfista do antipetismo

Por Miguel Martins, na revista CartaCapital:

Em uma prova do reality show O Aprendiz, em 2011, João Doria Junior, então apresentador da versão nacional do programa criado por Donald Trump, colocou contra a parede um dos participantes na presença de uma empresária espanhola do ramo de turismo. Doria recriminou o rapaz por ter usado o nome da gestora para obter vantagens em uma prova da atração televisiva.

Prestes a ser “demitido”, o equivalente a ser eliminado do programa, o participante desculpou-se por utilizar suas relações com a empresária para conseguir um simples contato telefônico. Doria encheu a boca e disparou: “Este país só vai mudar quando tiver ética, princípios”.

Nos últimos dez anos, Doria aderiu ao proselitismo político por onde passou: do movimento Cansei, criado em 2007 para protestar contra o “caos aéreo”, responsabilidade atribuída ao então presidente Lula, até sua eleição à Prefeitura de São Paulo pelo PSDB no domingo 2, o empresário encarnou o antipetismo das elites brasileiras como poucos.

Doria conquistou 53% do eleitorado paulistano ao se apresentar como self-made man, o “João Trabalhador”, como celebra seu jingle de campanha, o gestor capaz de levar a eficiência do setor privado para a prefeitura paulistana, tal como Michael Bloomberg, dono de um império midiático e ex-prefeito de Nova York.

Em meio a tantos rótulos fabricados pelo tucano, talvez o mais convincente seja sua recusa em se considerar um político e o esforço de demonizar os seus pares, sentimento cristalizado na população brasileira.

Se em 2011 Doria pedia ética aos participantes de O Aprendiz, quando usavam suas relações para obter vantagens no universo corporativo, hoje ele é criticado por colegas tucanos por práticas semelhantes.

Em um texto publicado em seu blog no fim de setembro, o tucano Alberto Goldman, ex-vice-governador de São Paulo e atual vice-presidente do partido, o acusou de usar “todos os recursos lícitos e ilícitos, operacionais e financeiros” para angariar votos nas prévias do PSDB e condenou a atuação das suas empresas. “Não produzem qualquer bem ou serviço diretamente, apenas estabelecem e ampliam relações entre empresários e agentes públicos, atividade ilícita que se chama lobby.”

No dia seguinte à publicação do texto de Goldman, um grupo de tucanos autodenominados “peessedebistas autênticos” lançou um movimento de apoio a Marta Suplicy, do PMDB, que terminou em quarto na disputa. O vice da chapa da peemedebista, Andrea Matarazzo, havia deixado o PSDB em março deste ano após ser derrotado nas prévias do partido em São Paulo.

Antes de se filiar ao PSD, Matarazzo chamou Doria de “piada pronta”. Durante a disputa interna, o vereador chegou a pedir a impugnação da candidatura de seu correligionário ao acusá-lo de ter cooptado militantes da legenda por meio de pagamentos mensais de 2 mil reais.

O racha no partido ficou ainda mais evidente em 24 de setembro, quando um terço dos integrantes da cúpula do PSDB abdicou de seus cargos na executiva municipal em um movimento de boicote ao então candidato. A vitória de Doria foi uma importante conquista do governador Geraldo Alckmin, padrinho político do empresário, que se fortaleceu na disputa interna para concorrer às eleições de 2018.

Em seu texto, Goldman escreveu sobre a importância de se colocar “uma lupa” sobre Doria para conhecer melhor seu caráter, consciente de que a ignorância de grande parte do eleitorado sobre sua trajetória era o principal trunfo do empresário. Seu jingle de campanha consolidou a imagem de self-made man, mas Doria carrega nas tintas ao lembrar as dificuldades de sua infância.

Seu pai, João Agripino Doria, era marqueteiro, jornalista e político. Filiado ao Partido Democrata Cristão, em 1962 elegeu-se deputado federal pela Bahia. No Congresso, integrou a Frente Parlamentar Nacionalista, que apoiava o então presidente João Goulart em seu objetivo de implantar as reformas de base e nacionalizar setores da indústria. Curiosa filiação para quem hoje defende um discurso privatista sem limites.

Com o golpe de 1964, Doria pai foi incluído na lista de punições do primeiro Ato Institucional aprovado pelos militares e exilou-se com a família em Paris. Dois anos depois, seu filho retornou com a mãe para São Paulo, onde a família instalou uma fábrica de fraldas. Doria diz ter trabalhado a partir dos 13 anos no negócio familiar.

Em seguida, conseguiu com a ajuda de seu pai um estágio em um departamento de Rádio, TV e Cinema de uma agência de publicidade. Se sofreu privações na infância e adolescência, elas duraram pouco: em 1974, seu pai retornou ao Brasil como diretor-comercial de uma empresa argentina exportadora de vinhos.

Doria deu início à sua carreira política aos 26 anos. Foi indicado pelo então governador paulista Franco Montoro, antigo correligionário de seu pai no PDC, para assumir a Secretaria Municipal de Turismo de São Paulo.

Três anos depois, tornou-se presidente da Embratur durante o governo Sarney. Além de transformar o jogador de futebol Pelé em uma espécie de embaixador do turismo brasileiro, Doria deu prosseguimento à estratégia da estatal de valorizar os corpos femininos seminus nas praias como atrativo para os estrangeiros, prática que impulsionou o turismo sexual no Brasil.

No início da década de 1990, o ex-presidente da Embratur fundou o Grupo Doria, uma corporação de comunicação responsável por publicações editoriais, marketing, eventos e administração de bens. Dez anos depois, surgiu o Lide, ou Grupo de Líderes Empresariais.

Já filiado ao PSDB, liderou a criação da associação que conta com representantes de 1,7 mil empresas nacionais e multinacionais. Segundo o Grupo Doria, a associação reúne representantes de 52% do PIB nacional.

No início dos anos 2000, Doria passou a organizar o Fórum de Comandatuba, no qual empresários, políticos e celebridades isolam-se por alguns dias na ilha baiana para debater os rumos do País e se divertir.

O evento divide-se entre palestras e atividades lúdicas, entre elas, jogos de futebol, festas temáticas e apresentações musicais. Em 2004, nomes como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e Antonio Palocci, do PT, abriram mão das diferenças políticas e engajaram-se nas atividades, para as quais sugeria-se sempre um traje específico.

Com o auxílio de seu apito, Doria acordava os convidados como um instrutor de colônia de férias. Em uma festa, os convivas se dispuseram a usar fantasias inspiradas na série de filmes Indiana Jones, entre eles Luis Fernando Furlan, ministro do Desenvolvimento de Lula.

Os petistas não parecem mais fazer parte dos seletos convidados de Doria. Em 2015, o fórum priorizou FHC e ex-presidentes conservadores da América Latina. Não poderia ser diferente: desde 2006, o empresário passou a fazer campanha pública contra o PT. A fixação é cada vez mais latente. Em sua primeira entrevista após ser eleito, afirmou que visitaria Lula em Curitiba e levaria ao ex-presidente chocolates e um cisne.

Em 2006, Doria já não escondia sua aversão ao presidente de origem pobre e nordestina. Durante uma palestra promovida pelo Lide, o tucano fez uma pesquisa eleitoral informal para averiguar quantos dos presentes votariam em Lula na disputa contra Alckmin. Diante da negativa da imensa maioria, questionou. “Como ele pode ser reeleito se o PIB não o quer?” O petista terminou as eleições com mais de 60% dos votos no segundo turno.

No ano seguinte, Doria foi um dos fundadores do Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, autodenominado por seus integrantes de “Cansei”. Integravam suas fileiras entidades e personagens que deram suporte ao impeachment de Dilma Rousseff, entre elas, a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e a Ordem dos Advogados de São Paulo, além de artistas como Ivete Sangalo, Hebe Camargo e Regina Duarte.

O primeiro ato do movimento foi organizado para protestar contra “a corrupção” e a “falta de segurança”, mas os gritos de “Fora Lula” foram o destaque. Com o objetivo de protestar contra o “caos aéreo”, o movimento formou-se na esteira do acidente de um voo da TAM, mas os organizadores chegaram a impedir parentes de vítimas do acidente de subir ao palco para discursar durante a manifestação.

O apetite político de Doria ganhou força na atual década. Além do apoio de Alckmin, passou a se destacar no partido ao desempenhar a função que melhor lhe cabe: tornou-se mestre de cerimônias de jantares para líderes tucanos.

Em 2014, ele organizou um banquete para seu padrinho, com a participação de Aécio Neves, então candidato à Presidência, FHC e Serra. O encontro serviu para a organização de uma força-tarefa para alavancar a candidatura de Aécio, à época terceiro colocado nas pesquisas. Nos últimos tempos, o próximo prefeito de São Paulo passou a paparicar o juiz Sergio Moro, convidado de mais de um evento do Lide.

Doria não contou apenas com o antipetismo, o discurso de gestor competente e o desconhecimento do eleitorado para se tornar prefeito. Com uma fortuna declarada de 180 milhões de reais, doou quase 3 milhões para si mesmo e contou com a amizade de empresários para garantir o restante do financiamento.

Agora eleito, planeja a privatização do Centro de Convenções do Anhembi, do Estádio do Pacaembu e do Parque do Ibirapuera, além de preparar um pacote de Parcerias Público-Privadas. Embora afirme que a situação da periferia “tocou” o seu coração, Doria não poderá virar as costas aos seus amigos. Para quem se doutorou em estreitar pontes entre representantes do PIB e políticos, a mudança de trincheira só deve reforçar suas práticas, definidas como lobby até por alguns de seus colegas tucanos.

1 comentários:

Leonardo Marques disse...

um HIPOCRITA eleito por uma sociedade BURRA e CINICA. quando se nega a política, está além de se auto negando, assinando sua futilidade. estamos caminhando a passos gigantescos para ganharmos o premio de a nação mais IDIOTA do mundo!