Editorial do site Vermelho:
A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter, pela quinta vez consecutiva, a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 15% ao ano expressa um problema estrutural da política macroeconômica do Brasil. A taxa de juros real é a mais alta em 20 anos e a segunda maior do mundo. O comunicado sobre a decisão informa que “o ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais”.
O documento afirma que “o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência”, uma referência à taxa de desemprego que fechou o ano de 2025 abaixo dos 6% da força de trabalho, em termos dessazonalizados, considerada pelo mercado financeiro insustentável.
Esse arrazoado, de tão repetitivo, já se configurou uma espécie de moto-contínuo de argumentos artificiais, frágeis. Na verdade, revela um esforço de ocultar o fracasso da política monetária antagônica aos interesses nacionais e aos direitos do povo. O mantra de que a inflação – medida por meta arbitrariamente definida e pressionada pelo crescimento econômico e baixo índice de desemprego – precisa ser domada pela taxa de juros revela a obsessão do Banco Central por uma política monetária que blinda o rentismo de eventuais desvalorizações do real.
Desconsidera a lógica de crescimento da economia para suprir a demanda, o caminho para o desenvolvimento nacional, o consumo das famílias e os investimentos do Estado de forma sustentada e sem inflação. E antagoniza com as medidas do governo para retomar o crescimento, com a reindustrialização do país e a geração de emprego e renda.
A inflação cheia e as medidas subjacentes (o núcleo da inflação, de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, instrumento apresentado como termômetro da tendência de preços) seguiram apresentando arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação, destaca o comunicado.
E explica que “as expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus (o relatório com estatísticas calculadas por avaliações do mercado financeiro) permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,0% e 3,8%, respectivamente”. Trata-se, na verdade, da precificação da economia pelo mercado financeiro.
Cercado de ressalvas, o comunicado afirma que, “em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros”. “O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.”
Sem a pressão do mercado financeiro, a realidade mostra uma política de combate à inflação artificial. Os protestos de representantes da indústria, da construção civil e dos trabalhadores contra a decisão do Copom são justificados pela ampliação dos custos e por restrições ao crédito. Como afirmou a Confederação Nacional da Indústria, a manutenção da Selic ignora a desaceleração recente da inflação e mantém a economia sob forte restrição monetária.
O setor industrial divulgou dados que indicam o IPCA de 2025 em 4,26%, abaixo do teto da meta. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção avaliou que juros elevados afetam diretamente o crédito imobiliário, reduzem a demanda por novos empreendimentos e dificultam a viabilização de projetos. A entidade aponta impactos prolongados sobre emprego, renda e toda a cadeia produtiva.
As centrais sindicais foram ainda mais contundentes. De acordo com Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a redução do juro é “um anseio da maioria da sociedade e uma demanda associada ao desenvolvimento nacional”. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) afirmou que a manutenção da Selic mantém o país entre os maiores juros reais do mundo, com efeitos diretos sobre consumo, emprego e endividamento das famílias. Para a Força Sindical, a decisão do Copom prejudica o setor produtivo e favorece aplicações financeiras.
Os juros nas alturas também impactam a dívida pública, que, de acordo com o Tesouro Nacional, cresceu 18% em 2025, maior aumento em dez anos, superando R$ 8,6 trilhões, cerca de metade dela atrelada à Selic. Ou seja: a política monetária do Banco Central tem a meta única de manter o fluxo de pagamentos e amortizações de juros, tendência que se acentuou com a “independência” do Banco Central.
Mesmo a argumentação de que é função do Banco Central perseguir o centro da meta de inflação se revela uma falácia, uma miragem. A começar pela valorização do real frente ao dólar em 2024, que implica redução do preço dos produtos importados e das commodities, diminuindo a pressão sobre o IPCA. Além do mais, em 30 anos apenas três vezes se chegou ao centro da meta.
Fica evidente que a política do Copom, decidida pelo mercado financeiro, atenta contra os interesses nacionais e os direitos do povo, sobretudo dos trabalhadores. Condena o país a crescimento medíocre, sangra os recursos públicos ao transferir riquezas para os rentistas, amordaça o Estado e confronta decisões do governo, diagnóstico que exige das forças democráticas e populares ações enérgicas por uma reforma do sistema financeiro para que decisões como essa sejam tomadas de acordo com os interesses do país e do povo, a começar pela volta do Banco Central à alçado do Estado.
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