domingo, 31 de outubro de 2010

Dossiê Serra: hegemonia neoliberal (6)

Por Altamiro Borges

A eleição de 3 de outubro confirmou a hegemonia do PSDB em São Paulo. O candidato tucano ao governo estadual, Geraldo Alckmin, foi eleito no primeiro turno com 50,6% dos votos, ainda que num pleito mais difícil do que os anteriores. Com a campanha mais milionária entre os nove concorrentes, com gastos de R$ 15 milhões, ele governará o estado pela terceira vez – assumiu o governo em 2001, com a morte de Mário Covas, e voltou ao posto em 2002, quando se reelegeu.

Na disputa pelas duas vagas ao Senado, o partido surpreendeu ao eleger o ex-secretário Aloysio Nunes, numa campanha marcada por agressões rasteiras e grotescas manobras. O ex-governador Orestes Quércia, alegando problemas de saúde, retirou a sua candidatura para apoiar Aloysio. O sítio UOL, ligado ao jornal Folha, chegou a noticiar a “morte” do senador Romeu Tuma (PTB), o que foi interpretado pela própria família como uma jogada suja do comando tucano. Já na eleição para deputados federais e estaduais, a coligação que apóia o tucanato garantiu sua forte presença.

Um reduto do conservadorismo

A eleição paulista evidencia que a unidade mais importante da federação virou um reduto do conservadorismo. Os tucanos estão no comando do estado há pelo menos 16 anos, descontando o fato de que Franco Montoro foi eleito em 1982 pelo PMDB e depois ajudou a fundar o PSDB. O que explica esta longa hegemonia dos tucanos, que destoa do restante do país no qual se verifica uma tendência mais progressista na eleição. Quais as razões da ausência de alternância no poder?

No livro “Os ricos no Brasil”, o economista Marcio Pochmann comprova que São Paulo virou o paraíso dos rentistas e das camadas médias abastadas. Ele é hoje o principal centro da oligarquia financeira. Das 20 mil famílias que especulam com títulos da dívida pública, quase 80% reside no estado. Esta elite preconceituosa mora em condomínios de luxo, desloca-se em helicópteros (a segunda maior frota do mundo) e carros blindados (a maior frota do planeta), e consome em butiques de luxo, como a contrabandista Daslu.

Elite apartada do povo

Ela não tem qualquer identidade ou compromisso com o povo e vive apartada da dura realidade dos brasileiros. Esta elite ainda influência uma ampla camada média, que come mortadela e arrota caviar, e até uma parcela dos trabalhadores, que presta serviços aos ricaços – os agregados sociais. Esta base social é que dá sustentação e apoio ao bloco neoliberal-conservador, à aliança demotucana. São Paulo retrocedeu na história, lembrando o período da hegemonia da oligarquia do café, que fez oposição férrea à Revolução de 1930 e ao desenvolvimentismo de Vargas.

Afora esta base social sólida, o longo reinado tucano lançou tentáculos em todas as instâncias do poder. Como diz o refrão, “está tudo dominado”. O PSDB e seus satélites controlam com mãos de ferro a Assembléia Legislativa e já abortaram quase 100 pedidos de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). Eles também exercem forte influência no Poder Judiciário, tendo nomeado inúmeros juízes oriundos das elites. No comando da máquina pública há tanto tempo, o tucanato estabeleceu relações privilegiadas e, muitas vezes, promíscuas com empreiteiras, indústrias e bancos – o que garante, entre outras vantagens, fartos recursos para as campanhas eleitorais.

PSDB é avesso à democracia

Neste cenário de rígido controle é difícil qualquer oposição. O tucanato é avesso à democracia. Os movimentos sociais são criminalizados, como provam as cenas de agressão aos professores e aos policiais civis em greve e a tentativa permanente de satanizar o MST. O sindicalismo sequer é recebido no Palácio dos Bandeirantes para negociar as suas demandas. Diante destes obstáculos autoritários, até hoje a oposição, no parlamento ou nas ruas, não encontrou a melhor forma de denunciar e se contrapor aos estragos e desmandos causados pelo PSDB-DEM em São Paulo.

A hegemonia tucana também se sustenta sobre o pilar da mídia. Apesar da maioria dos veículos estar sediada em São Paulo, jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão não cumprem seu papel de informar a sociedade sobre a realidade do estado. Diferente da postura adotada diante do governo Lula, a mídia evita destacar os pobres das administrações tucanas. Parece que São Paulo é um paraíso, onde tudo funciona bem – saúde, educação, segurança, transporte, etc. Os tucanos são blindados, parecem “santos”; não há manchetes sobre corrupção ou irregularidades.

Relações promíscuas com a mídia

Na prática, a mídia desempenha o papel de partido político da direita paulista. Nas eleições de outubro, ela se transformou num verdadeiro cabo-eleitoral de José Serra. O jornal Estadão até assumiu publicamente, em editorial, seu apoio ao demotucano. Outros veículos, como o jornal Folha, a revista Veja e a TV Globo, preferiram ludibriar os ingênuos com uma falsa neutralidade. Os graves problemas de São Paulo não foram tratados pela mídia durante a campanha eleitoral, para alegria de José Serra e Geraldo Alckmin.

Essa relação intima tem vários motivos. O principal é político. A mídia defende os interesses da elite e, por isso, ela toma partido. Mas há também motivos comerciais mais obscuros e sinistros. O tucanato paulista mantém uma relação promíscua com a mídia. É só lembrar que a sede central da TV Globo em São Paulo ocupou durante anos um terreno público, sem pagar um centavo de aluguel. Ou ainda que o governo tucano banca bilhões na aquisição de assinaturas de revistas da Editora Abril, a mesma que edita a Veja. Isto sem contar os bilhões investidos em publicidade.

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9 comentários:

Anônimo disse...

PORQUE SERÁ QUE O GOVERNO GASTA BILHÕES COM A REVISTA VEJA E NÃO ACONTECE NADA?. CADÊ A "JUSTIÇA" (INJUSTIÇA) QUE FICA LAMBENDO AS BOTAS DOS GOVERNOS CORRUPTOS DE SÃO PAULO. EU COMO "CIDADÃO" JÁ ESTOU PERDENDO AS ESPERANÇAS, PORQUE TANTO FAZ ZÉ COMO CAZUZA AS COISAS CONTINUAM QUASE DO MESMO JEITO, APESAR DE O GOVERNO LULA TER MELHORADO UM POUCO. VOTO NULO OU BRANCO NELES.

Anônimo disse...

Altamiro, belíssimo post. Resumiu tudo. Vi este vídeo ontem e ele se encaixa perfeitamente neste seu texto. Talvez fosse o caso de dar notoriedade a ele.

http://www.youtube.com/watch?v=Z3XT6L6As7Q

Abraço.
Frank

Anônimo disse...

o dia em que a URNA ELETRÔNICA VIROU UM MICROONDAS:

http://twitpic.com/2pss9t

Jbmartins-Contra o Golpe disse...

Parabéns Brasileiros Blogueiros “Sujos”, vocês são os verdadeiros heróis destas eleições, o Povo Brasileiro não poderia ter um retrocesso tão grande, e graças a vocês houve um equilíbrio de forças com o PIG, Viva o Brasil, Viva Dilma, Viva a Internet, Viva o Sujos que lavaram a alma do Povo Brasileiro.

Deborah disse...

Miro, primeira vez que venho ao seu blog e gostei muito! Esse artigo é inspiração para uma tese sobre as estuturas de poder em SP. Fantástico. A despeito da vitória da Dilma (PARABÉNS A TODOS NÓS) penso que a situação de SP tende a se deteriorar. Infelizmente a classe média brasileira reproduz o pensamento elitista, não se reconhece enquanto classe e almeja sempre a ascensão. Uma distorção sócio-política, somada a postura pseudointelectual da mídia conservadora e interesseira que é quem "forma" o pensamento brasileiro. Acho que esse será um dos desafios da nossa presidente.Abs, Deborah.

Sheila Maria Madastavicius disse...

Boa noite!

Acabo de ver seu texto no Conversa Afiada e fiquei pensando que talvez gostasse de ler meus comentários sobre o filme "Tropa de Elite 2", relacionados à entrevista de José Padilha ao Globo...

Se tiver tempo, depois me diga, por favor, se concorda com minha impressão de que o filme seja a cara da Globo.

Desculpe-me por havê-lo conhecido apenas agora - li apenas esse texto seu -, mas o fato é que foi há pouco tempo que comecei a me interessar por política. Humanista de berço, limitava-me às discussões em torno do comportamento humano, até que descobri que a indignação diante de qualquer injustiça acaba por nos mobilizar em todas as áreas que possibilitem nossa participação - respeitados nossos limites - na construção de um mundo melhor.

Sheila Maria Madastavicius

http://www.cinemeletras.blogspot.com/

Anônimo disse...

Miro, ele teve 40% de votos no Rio de Janeiro. O Rio é um canteiro de obras do PAC, mas mesmo assim... Isso é muito preocupante. Ele cresceu do primeiro para o segundo turno quase 100%.

Claudinete Sergipe disse...

Miro, Parabéns! Nós vencemos e vencemos!

Anônimo disse...

Que vontade de vomitar urrrrrrrrg

Sou de origem pobre filha de costureira e sem pai presente, mas sempre batalhei, trabalhei para estudar, trabalho muiiiito para que meus filhos possam ter um futuro cada vez melhor, valorizo o trabalho e estou enojada com o que li aqui neste blog.
Amo o estado de São Paulo e acredito na frase os incomodados que se mudem!!!!! Se está tão ruim assim é só mudar para o Maranhão, para a Bahia, são tantas opções..... afinal lá (lugares super desenvolvidos) é que deve ser bom morar, o governo de lá é que deve ser bom, né?