sábado, 9 de maio de 2015

A ofensiva conservadora no Brasil

Por Selvino Heck, no site da Adital:

Alguém disse numa reunião recente algo que me fez pensar: "Agora, o governo federal e os movimentos sociais precisam barrar as propostas conservadoras do Congresso. Nos últimos anos, governo e movimentos sociais costumavam ser barrados pelo Congresso nas suas propostas progressistas.”



São os tempos. Há uma ofensiva conservadora em curso, não só no Congresso, também na sociedade. No Congresso, expressa-se em várias votações patrocinadas por parlamentares ou bancadas como o PL 4330 da terceirização, os acréscimos conservadores feitos na Câmara dos Deputados ao PL 3775 da sociobiodiversidade, o PL 4048 dos transgênicos recém aprovado, as propostas conservadoras da reforma política, o projeto de lei de redução da maioridade penal, para dar apenas alguns exemplos.

Na sociedade, crescem o ódio, o preconceito contra mulheres, negros, jovens, população LGBT, a criminalização da política e dos movimentos sociais. As redes sociais estão infectadas de expressões, análises, vídeos que destilam a discriminação e verbalizam valores conservadores, a falta de respeito às pessoas e às diferenças e muitas vezes pregam abertamente a violência.

A direita conservadora usa e abusa do tema da corrupção como se aí estivesse e este fosse o caminho da salvação da pátria. Quando se abre a oportunidade, duas costumam ser as ações da direita conservadora. O tema da corrupção e o seu suposto combate substituem a política, e a criminalização generalizada da política, dos partidos, dos movimentos sociais e de tudo e todos que queiram discutir propostas e ideias. Assim aborta-se o debate político, interdita-se qualquer tipo de reformas e mudanças há tanto tempo aguardadas no Brasil e hoje necessárias e urgentes no mundo.

Toda vez que a corrupção foi o tema dominante na sociedade brasileira, como começa a acontecer hoje no Brasil, sabe-se o final da história. Acabou no suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e no golpe militar em 1964. Não resultou em mais democracia, em melhores condições de vida, mais direitos e dignidade para o povo. As reformas, como as Reformas de Base nos anos 1960, e as reformas no horizonte de hoje – política, tributária, meios de comunicação, agrária – acabam sendo inviabilizadas, enterradas no chão da história.

No Brasil e no mundo, a direita organizada vai às ruas como fazia tempo não acontecia, vocifera nas redes sociais para que qualquer mudança mais profunda seja impedida, para que seus próprios atos de corrupção não sejam apurados e se apaguem do horizonte a transformação social e valores como a solidariedade, o fazer coletivo, a justiça.

O combate à corrupção como centro da ação da sociedade substitui a política e as ideias. É a política do não, do contra. O ex-presidente uruguaio Pepe Mujica disse em entrevista recente, "a antipolítica é aventureirismo ou fascismo”. E conclui, corretamente: "A crise da política apenas acentua o individualismo. Prefiro que as pessoas não estejam com a esquerda, mas que estejam com a política. Pagaria esse preço. Prefiro a política conservadora, mas a política.”

A luta será dura e longa para fazer a política prevalecer, garantir as ideias no centro do debate da sociedade e manter aberto o caminho da utopia.

* Selvino Heck é diretor do Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã da Secretaria Geral da Presidência da República, membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política e Secretário Executivo da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO).

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