sábado, 30 de dezembro de 2017

Freixo, as esquerdas e a nota do MTST

Por Altamiro Borges

A entrevista do deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) nesta sexta-feira (29) na Folha causou celeuma nas redes sociais. O jornal da famiglia Frias, que adora fazer intrigas e estimular a divisão do campo popular, estampou no título: “‘Não sei se é o momento de unificar a esquerda, não’, diz Marcelo Freixo”. De imediato, vários internautas lembraram que a quadrilha de Michel Temer promove uma brutal regressão no Brasil, com a entrega do patrimônio público, a desnacionalização da economia, o ataque selvagem aos direitos dos trabalhadores, o desmonte das políticas sociais e os atentados à democracia. Em coro, os ativistas digitais pregaram a urgência da unidade das esquerdas no enfrentamento ao retrocesso e na eleição presidencial de 2018 – caso ela ocorra.

Diante da repercussão negativa, Marcelo Freixo, uma das principias referências nacionais da sigla, postou um vídeo neste sábado insinuando que foi vítima de mais uma manipulação da Folha – o jornal que tem o rabo preso com a direita. “Quando o título fala que a esquerda pode não sair unificada não é um desejo meu, muito pelo contrário. Quem me conhece sabe que a gente sempre trabalhou para que a esquerda saia unificada ou estar em algum momento mais próxima de um programa de esquerda”. Ele alega ainda que as esquerdas podem sair separadas no primeiro turno da sucessão, “o que não quer dizer que não tenhamos que ter diálogo e aproximações em diversos momentos diferentes”. E defende o direito do ex-presidente Lula de ser candidato.

A entrevista de Marcelo Freixo, porém, não causou celeuma somente por causa do título sacana da Folha. Outros trechos geraram críticas. O deputado estadual, que é uma das principais referências nacionais do PSOL, foi acusado de expor uma visão simplista – quase udenista – sobre a atual crise brasileira. Muitos também ironizaram a visão egocêntrica do parlamentar, principalmente quando ele se refere à escolha de Guilherme Boulos, líder do MTST, como provável candidato da sigla. “Estava em casa, tomando um café com minha companheira, a Antônia. Conversávamos sobre o que é esta esquerda do século 21. Os olhos dela são meio que termômetro. Falei do Boulos, e arregalaram. Pensei: ‘Opa, ali tem caldo’. Fiz testes com minha equipe, e as reações eram as mesmas. Aí liguei pro Boulos e marquei num botequinho bem ‘vagaba’ perto da av. Paulista. Quando sugeri, ele quase caiu da cadeira de susto. Hoje falta muito pouco para consolidar a candidatura. Março é o prazo”.

Com a sua fina ironia, o cartunista Gilberto Maringoni, que pertence à direção do PSOL, disparou nas redes sociais. “Confesso que, em 40 anos de militância, nunca vi um líder progressista fazer a afirmação externada pelo deputado Marcelo Freixo, em entrevista à Folha de S.Paulo. Para ele – numa conjuntura de golpe e de brutal regressão política e social – não é hora de buscar unidade, mas de acentuar diferenças entre as esquerdas! Freixo não fica por aí. Se coloca como o ‘inventor’ da candidatura de Guilherme Boulos à presidência da República. Esta teria nascido de uma conversa no café da manhã com sua companheira, em casa. Não é algo surgido de baixo para cima, como a plataforma ‘Vamos’... O conjunto da obra mostra uma original formulação política. Não é nova, mas é original no Brasil de hoje. Freixo é a principal figura pública do PSOL e tem uma atuação política admirável. Pela entrevista da Folha, conhecemos mais uma qualidade rara em um político: sua extrema sinceridade”.

No mesmo rumo crítico, mas sem citar nome, a direção do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) divulgou uma nota neste sábado (30). Reproduzo na íntegra:

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Unidade contra os retrocessos e em defesa da democracia
O ano de 2017 marcou o aprofundamento do golpe no Brasil. Cortes de programas sociais, perdão de dívidas dos ruralistas, venda do Pré-Sal, isenção de impostos para petroleiras multinacionais, mudanças na legislação ambiental. Enfim, o cardápio de retrocessos de Temer foi variado.

O ponto mais grave foi a aprovação da Reforma Trabalhista, proposta que foi propagandeada como um mal necessário para recuperar a geração de empregos e mostrou suas consequências já no primeiro mês de aplicação: 12,3 mil vagas formais fechadas no Brasil.

É claro que todos esses ataques enfrentaram resistência, especialmente no primeiro semestre. Em abril, o povo se mobilizou em todo país construindo a maior Greve Geral dos últimos anos, com 35 milhões de brasileiros em paralisação. No dia 24 de maio, 200 mil pessoas ocuparam Brasília. O MTST também esteve presente nas mobilizações e iniciou o ano com uma ocupação de 22 dias na Av Paulista pela retomada do programa Minha Casa Minha Vida Entidades. Organizamos também grandes ocupações nas periferias, a exemplo do Povo Sem Medo em São Bernardo do Campo.

O ano de 2018 se aproxima com o anúncio de novos retrocessos. O governo Temer já programou a votação de Reforma da Previdência para fevereiro. Precisaremos novamente de muita unidade para a construção de mobilizações e paralisações.

Além disso, enquanto as discussões a respeito do Sistema Parlamentarista ou Semi-Presidencialista crescem em Brasília, o julgamento do ex-presidente Lula no TRF-4 em Porto Alegre foi marcado em tempo recorde, numa tentativa clara de retirá-lo da disputa presidencial no tapetão.

O MTST se coloca na luta em defesa do direito de Lula ser candidato. Trata-se de defender a democracia contra mais um passo do golpe, até porque esse julgamento tem se demonstrado profundamente anti-democrático, baseado mais em certas convicções do que em provas concretas. Por isso estaremos em Porto Alegre no dia 24 de janeiro construindo as manifestações.

A antecipação do debate eleitoral de 2018 tem sido tema de inúmeras discussões no campo da esquerda. A coordenação do MTST tem debatido o convite feito pelo PSOL a Guilherme Boulos, para a disputa presidencial, com serenidade e respeitando os tempos da construção coletiva. Esta possibilidade, aliás, surgiu do acúmulo social e organizativo do MTST e de debates amplos como os promovidos pela plataforma Vamos, que desde sua origem busca construir a mais ampla unidade entre a esquerda.

Colocaremos nossa posição tão logo essa discussão se conclua internamente e junto com companheiros do PSOL. Neste momento, porém, acreditamos que toda a esquerda deve se unir mais uma vez na luta por direitos e em defesa da democracia.

“Os caídos que se levantem!

Os que estão perdidos que lutem!

Quem reconhece a situação como pode calar-se?

Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.

E o "hoje" nascerá do "jamais".”

Bertold Brecht – O elogio da dialética


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2 comentários:

Valcir Barsanulfo de Aguiar disse...

O Freixo faz o jogo da direita, fiquemos atentos às suas ações, precisamos descobrir a quem ele presta serviços. O PSOL tem muito a construir junto com a esquerda. Não cevemos nos dispersar.

Anônimo disse...

Esse freixo!
Vítima de quê?
Quem mandou dar entrevista a fellha?
Aliás há muitos que se dizem progressistas, inclusive no pt, que não podem ver um panfleto da direita, em papel ou digital que se desmancham todo: mercadante, zé da justissa, freixo, paulo bernardo (que foi contra a regulação da mídia), gleisi (Ágil defensora da urubóloga)e assim vai têm uns que até saem nas páginas amarelas do esgoto.