terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A Venezuela e a lógica da dominação

Charge: Miguel Paiva/247
Por Theófilo Rodrigues, no site da Fundação Maurício Grabois:

Em 1914, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial, Karl Kautsky, então principal dirigente da social-democracia alemã e da II Internacional, publicou na Die Neue Zeit o artigo Ultra-imperialismo, que se tornaria referência nos debates da época. Seu argumento era relativamente simples: a rivalidade violenta entre as potências capitalistas tenderia a dar lugar, em um estágio posterior, a uma cooperação entre elas – uma espécie de cartelização da política externa ou “santa aliança dos imperialistas” – capaz de conter a corrida armamentista e estabilizar o sistema internacional.

Lênin discordou frontalmente dessa leitura. Em Imperialismo, fase superior do capitalismo (1916), argumentou que o ultra-imperialismo não passava de uma “consolação arqui-reacionária das massas”, pois ignorava o caráter estrutural da concorrência capitalista. Para ele, a exportação de capitais – traço central do capitalismo financeiro – não atenuaria, mas aprofundaria as contradições entre Estados, tornando as guerras não acidentes históricos, mas expressões da luta pela redistribuição de mercados, territórios e esferas de influência.

As tragédias da Primeira e da Segunda Guerra Mundial deram razão a Lênin. O capitalismo não caminhou para uma governança global pacificada; ao contrário, a competição interestatal se intensificou, assim como a colonização, a dominação econômica e a violência imperialista.

Com o fim da União Soviética e a ascensão do neoliberalismo nos anos 1990, versões renovadas da tese do ultra-imperialismo reapareceram sob o nome de “globalização”. Em suas formulações mais fortes, defendia-se que o capital teria se tornado transnacional, os Estados-nação perderiam centralidade e o imperialismo seria um conceito ultrapassado, substituído por mercados integrados, instituições multilaterais e mecanismos de governança global.

A prática externa da maior potência de nosso tempo, no entanto, insiste em desmentir essa tese. No início dos anos 2000, o governo George W. Bush justificou a invasão do Iraque com a alegação – posteriormente desmentida – de que o país estaria produzindo armas de destruição em massa. Como sabemos, logo após as bombas, chegarem ao território iraquiano os gerentes da Halliburton – empresa de petróleo vinculada ao vice-presidente dos EUA, Dick Cheney – para assumir a exploração e produção da principal riqueza do país.

No último sábado o mundo acordou atônito com a notícia de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi sequestrado pelo exército dos EUA e levado para Nova York para ser julgado por narcoterrorismo. Em coletiva para a imprensa, Donald Trump, sem qualquer constrangimento, explicou a razão daquele ato de guerra:

“Vamos incentivar nossas grandes empresas de petróleo dos Estados Unidos, as maiores do mundo, a entrar na Venezuela.”

Ou seja, mais uma vez, a principal potência militar do mundo promove a guerra para garantir a acumulação do capital de suas empresas nacionais. Qual o nome disso mesmo?

Circulou recentemente um vídeo em que uma jornalista brasileira afirma que “falar em imperialismo é cafona”. Cafona, no entanto, é ignorar que o mundo contemporâneo segue sendo atravessado pela violência estrutural do capital, mediada por Estados, exércitos e mercados. Se há algo fora de moda, é a ilusão de que o capitalismo teria superado suas próprias contradições.

* Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UCAM e coordenador do Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade Brasileira.

0 comentários: