Editorial do site Vermelho:
O pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, revelou suas pretensões à onipresença. Além de intimidar a União Europeia, ditou regras para a Groelândia, a Palestina, a Ucrânia e a Venezuela. Se apresentou, enfim, pretensamente como líder de uma nova e tenebrosa era na história, a renúncia ao sistema estabelecido após a Segunda Guerra Mundial para impor a hegemonia estadunidense além do chamado hemisfério ocidental. O orçamento militar dos Estados Unidos, disse, crescerá 50%, atingindo US$ 1,5 trilhão em 2027, com ordem para construir “mais fábricas” para atender ao complexo militar-industrial. Leia-se mais guerras, agressões e chantagens.
Ele mesmo se definiu como “ditador” ao fazer autoelogios ao seu discurso, alegando que o mundo precisa de alguém assim, conforme um vídeo publicado no canal da Casa Branca no Youtube. Uma de suas arbitrariedades foi a afirmação de que a Europa enfrentará “grandes represálias de nossa parte” se optar por vender títulos dos Estados Unidos, ameaçou. “Temos todas as cartas na mão.”
As tensões tendem a se acirrar, para além da Europa, com o projeto de acordo sobre a Groenlândia proposto pelo secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Mark Rutte. Todavia, a Dinamarca disse que Rutte não tem procuração para negociar em seu nome. Sim, está disposta a fazer um acordo desde que não implique em perder a soberania sobre a Groelândia. Trump ambiciona o controle da região para implantar um sistema de defesa antimíssil Golden Dome e combate ao que qualifica como “influência externa maligna” da Rússia e da China, além da extração de matérias-primas, entre elas, terras raras.
Qualquer que seja o desfecho deste caso da Groelândia, somado às tarifas e às humilhações públicas aos líderes europeus, Trump persevera, para espanto dos demais países capitalistas e imperialistas, na obra de detonar, ao que parece até a ruína, a Aliança Atlântica.
Em resposta, também em Davos, o presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que a União Europeia não pode hesitar em aplicar o mecanismo anticoerção quando “não formos respeitados e não se respeitarem as regras do jogo”. Afirmou, ainda, que um dos objetivos da presidência francesa do Grupo dos Sete (G7) é “construir pontes e fortalecer a cooperação com os países do BRICS e do Grupo dos Vinte (principal fórum de cooperação econômica internacional, reunindo as 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia e a União Africana)”.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, também se manifestou nessa direção. O Ocidente coletivo é coisa do passado e jamais retornará, disse ao comentar as políticas de Trump. “A velha ordem não voltará. Num mundo de grande rivalidade entre potências, os países intermediários “devem agir em conjunto, porque se não estivermos à mesa de negociações, estaremos no cardápio”, alertou.
Esta edição do Fórum de Davos, criado no começo da década de 1970, entra para a história com seus debates caóticos e como palco para Trump amplificar suas ameaças. Refletiu a decadência do projeto que representou o seu auge nos anos 1990, a globalização neoliberal – a edição de 2000 proclamou que o mundo havia entrado num período de prosperidade, sem os percalços dos tradicionais ciclos de crescimento e recessão. Hoje, nada existe daqueles anos dourados quando se garganteava o mito da invencibilidade da Otan. O que se viu foi a fratura exposta, a quebra de confiança da União Europeia na histórica aliança com os Estados Unidos.
A criação do chamado Conselho da Paz, anunciada por Trump em Davos, foi outra manifestação de ruptura com a ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial. Todavia, dos sessenta países convidados, apenas vinte haviam dito sim, até a cerimônia de fundação que pretendia ser pomposa e robusta.
Trump presidirá o Conselho, de forma vitalícia, que assumirá a governança da Faixa de Gaza, na Palestina, e atuará em outras regiões, uma decisão contrária à resolução do Conselho de Segurança da ONU como parte do plano de paz na região. A União Europeia se dispôs a apoiar o Conselho, desde que seu mandato fosse restrito à Faixa de Gaza, afirmou Kaja Kallas, Alta Representante da organização para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, enfatizou o papel central da ONU nas relações entre os países e afirmou que, independentemente das mudanças no cenário internacional, Pequim “defende firmemente o sistema internacional com as Nações Unidas em seu centro, a ordem internacional baseada nos objetivos e princípios da Carta da ONU”, ancorado no direito internacional e nas normas fundamentais que orientam as relações entre Estados-membros.
O “Conselho Executivo Fundador” terá sete membros, composto também pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio; pelo enviado estadunidense ao Oriente Médio, Steve Witkoff; por Jared Kushner (genro de Trump), enviado à Rússia para conversar com Putin; e pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Quanto às decisões, pasmem, somente Trump terá direito a veto.
A posição de Trump é um escárnio. Ele se arvora defensor da paz, quando é o principal responsável por uma brutal ofensiva da política de guerra, afronta a ONU para debitá-la, ataca outros organismos multilaterais e participa do genocídio do Estado de Israel contra os palestinos. Acaba de oficializar a saída da Organização Mundial da Saúde (OMS). Invoca sua presunçosa e cabotina autoridade pessoal para ditar regras ao mundo, atropelando a soberanias das nações, ameaçando povos e tomando atitudes acima do direito internacional. Seu Conselho, portanto, nasce completamente desqualificado, um embuste que serve unicamente ao seu ego e à sua política de guerra.
A iniciativa de Trump é antagônica à diplomacia brasileira, que se pauta pelo multilateralismo e participou ativamente da fundação da ONU. O Brasil defende reforma do Conselho de Segurança da ONU para torná-lo mais representativo e mais democrático, na busca de um assento permanente para a sua atuação pela paz e desenvolvimento das nações. Essas premissas indicam que o Brasil caminha para recusar a proposta de Trump para integrar o seu Conselho, conduta em linha com a sua política externa. Aliás, o ex-chanceler e diplomata Celso Amorim, assessor especial do presidente Lula, já sinalizou que o Brasil deverá dizer não ao convite. O presidente Lula realiza contatos com lideranças mundiais na linha que se empreenda reformas para fortalecer a ONU. Dialogou com os presidentes da China, da Turquia, com o primeiro-ministro da Índia e, também, com o presidente da Autoridade Nacional Palestina.
Fica evidente que o trumpismo é neofascista, assumido por setores das classes dominantes como meio para reverter a decadência dos Estados Unidos, a proclamação de Trump em sua posse de que o declínio do país estava acabado. É a repetição dos nazifascistas, que no passado lançaram mão de todo tipo de violência com a promessa de reerguer seus países.
No caso de Trump, até ideólogos de direita, avaliam que em vez de reverter o declínio dos Estados Unidos, acontece oposto, ele estaria acelerando esse declínio, isolando a Casa Branca. A política de contenção da China também não obteve êxito. O país registrou superávit comercial recorde em 2025, atingindo cerca de US$ 1,2 trilhão, e cresceu 5% e segue angariando prestígio.
Internamente, além de não ter recuperado a economia com tarifaços, ele se vale de medidas autoritárias para fomentar violência contra o povo, como faz com sua polícia migratória, o ICE – uma verdadeira polícia política – e com as ameaças de invocar uma lei do século XIX para enviar as Forças Armadas para reprimir manifestações, inclusive com indícios de ruptura com a estrutura institucional do país.
O Brasil passou a enfrentar uma situação mais perigosa. O risco se eleva porquanto Trump se apoia na extrema-direita e de setores da direita, o clã Bolsonaro, o governador Tarcísio de Freitas et caterva, que lhe prestam total vassalagem.
É um cenário em que a diplomacia tem papel fundamental na defesa da soberania nacional, mas a necessidade de reforço da capacidade de defesa é indiscutível. A busca do diálogo deve ser reforçada com ações que perpassam governos, forças políticas democráticas, entidades e movimentos populares, organizando um amplo movimento de caráter anti-imperialista, de âmbito regional e nacional, de defesa da paz e da soberania nacional, da cooperação e do multilateralismo.
0 comentários:
Postar um comentário