segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O duelo de Trump com Delcy será dramático

Diosdado Cabello, Nicolás Maduro e Delcy Rodríguez/Reuters
Por Moisés Mendes, em seu blog:

Se fosse possível juntar tudo o que já se disse sobre o sequestro de Nicolás Maduro, teríamos pelo menos uma centena de teorias sobre o que aconteceu e previsões sobre o que vai acontecer.

Temos desde a conclusão mais óbvia e repetitiva, de que Trump quer o petróleo da Venezuela (até porque ele admitiu isso publicamente), até a advertência de que o Brasil é o grande alvo, ao lado de alvos de passagem como Cuba e Colômbia.

Quase todo o resto é chute. O primeiro deles diz respeito ao papel da vice-presidente, Delcy Rodríguez, que já assumiu a presidência e avisou que irá defender os interesses da Venezuela.

Essa é a sua frase mais publicada pelos jornais venezuelanos, mesmo os alinhados com a direita antichavista: “Jamais seremos colônia de nenhum império”.

Delcy foi anunciada, na coletiva de Trump logo após o sequestro, como a pessoa de confiança dos Estados Unidos para fazer a transição, sem que não tenha ficado claro o que isso significa.

Pode ser a ocupação do governo provisoriamente até a convocação de eleição. Só que, se convocar eleições, como está previsto na Constituição, Delcy será vista como traidora do chavismo.

E a vice agora presidente é chavista histórica desde jovem. Trump tentou desmoralizá-la, ao invés de valorizá-la, como alguns pensaram, quando disse que preferia Delcy, e não a fascista Maria Corina cumprindo esse papel para a tal transição.

Desmoralizou Corina, dizendo que ela não tem o respeito dos venezuelanos, e depreciou a vice, ao apontá-la como sua preposta depois do golpe. Delcy estaria acertada com Marco Rubio, seu secretário de Estado.

O que se tem agora é que, diante da posição pública de Delcy em defesa da figura de Maduro e do petróleo como patrimônio nacional, Trump passou a ameaçá-la.

O recado é que pode acontecer com a vice coisa pior do que aconteceu com Maduro, se ela não se submeter às ordens dos americanos.

“Se ela não fizer o que é certo, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o próprio Maduro”, disse Trump em entrevista à revista The Atlantic nesse domingo.

Que preço seria esse mais alto do que o sequestro de Maduro? Delcy tem o apoio das Forças Armadas e da estrutura de poder antes comandada por Maduro e uma certeza: não pode trair o chavismo.

Então, o que temos hoje de mais importante é que Delcy Rodríguez é a nova bronca de Trump. Aprendiz de golpes sabem que os americanos podem fazer uma aposta, se a vice vacilar ou se rebelar.

A aposta é o caos, com problemas de abastecimento que provoquem, como já está acontecendo, corrida aos supermercados. Trump pode apostar na desorganização geral do governo, para que o sentimento da população seja de um país descontrolado.

E aí entraria a segunda parte, para que os EUA assumam o controle absoluto da Venezuela, onde não há até agora presença americana. Mas aí, como diria Garrincha, será preciso combinar com os russos.

Em postagem nas redes sociais nesse domingo, a vice foi mais diplomática e até sugeriu que fará concessões:

“Consideramos prioritário avançar rumo a uma relação internacional equilibrada e respeitosa entre os EUA e a Venezuela, e entre a Venezuela e os países da região, baseada na igualdade soberana e na não interferência. Esses princípios norteiam nossa diplomacia com o resto do mundo”.

Mais adiante, escreveu:

“Estendemos um convite ao governo dos EUA para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento compartilhado, dentro da estrutura do direito internacional, e para fortalecer a coexistência comunitária duradoura”.

Maduro é citado:

“Presidente Donald Trump: Nosso povo e nossa região merecem paz e diálogo, não guerra. Essa sempre foi a posição do presidente Nicolás Maduro, e é a posição de todos os venezuelanos neste momento”.

Delcy Rodríguez só tem uma certeza, enquanto calibra o discurso para Trump, sem que pareça agressiva ou serviçal, e para os venezuelanos que a apoiam, para os quais não pode parecer entreguista: não há como apagar tudo o que já foi e já fez por Hugo Chávez e por Maduro.

E por isso mesmo não tem como se submeter a Trump. O duelo americano com a vice pode ser tão dramático quanto foi com o presidente sequestrado com facilidade.

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