quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Mirian Dutra, FHC e os amantes da mídia

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Por Altamiro Borges

Se a mídia tupiniquim fosse minimamente séria, a entrevista de Mirian Dutra Schimidt, que trabalhou 35 anos na TV Globo e teve um caso extraconjugal com o ex-presidente FHC – que até resultou num filho questionável –, teria repercutido nos jornais, revistas, emissoras de rádio e tevê. Mas os barões da mídia agem como mafiosos – ou como amantes – e mantêm um rigoroso pacto de silêncio. Mesmo disputando fatias do mercado, eles se unem como aço para defender seus projetos políticos e de classe. Talvez por isto a jornalista tenha preferido dar a entrevista para a revista ‘Brazil com Z’, dedicada aos brasileiros que vivem na Europa. Por sua própria experiência, ela já sabia que suas revelações seriam abafadas ou simplesmente omitidas pela imprensa brasileira – como foi o próprio caso amoroso no passado.

Na longa entrevista, ela relata pela primeira vez como foi o seu romance com o FHC, que durou seis anos, e traça um pouco do caráter do ex-presidente, que na época era casado com a antropóloga Ruth Cardoso. Entre outras coisas, Mirian Dutra afirma que o tucano era um homem ambicioso, “completamente manipulador”, que gostava de “fazer tudo sorrateiramente e posar de bom moço”. Ela o classifica como “parte da aristocracia paulistana”, um sujeito elitista e vaidoso. “Ele se achava o máximo". Ainda sobre a tumultuada relação, ela rejeita a tese de que o filho não seja de FHC, que encomendou um exame de DNA para negar a paternidade. “Eu tive uma relação de seis anos, fiquei grávida, decidi manter a gravidez, então é meu. Eu sou uma mulher, eu que decido isso! Se eles não querem, eles que se cuidem”. E ainda afirma que foi ameaçada pelo ex-presidente, que pretendia manter o “casamento de conveniência” e a amante. “Ele não deixava romper... ele me perseguia... quando eu ia sozinha nos lugares, ele ia atrás".

O mais importante da entrevista, porém, é quando Mirian Dutra descreve as relações carnais do “príncipe da privataria” com os barões da mídia nativa. Ela não esconde a sua magoa com a Rede Globo, que fez de tudo para proteger a imagem do neoliberal FHC e a descartou como bagaço. Definindo-se como a “ultima exilada”, ela descreve a abjeta manipulação: “Eles me colocaram abaixo de qualquer coisa. Em Portugal eu fiz muita coisa, trabalhei bastante os três primeiros anos, depois eles me congelaram”. A operação abafa teve um custo “muito pesado... Eu passei muita dificuldade, muita solidão, focada nos meus filhos, e tentando muito sempre trabalhar e pedindo pra Globo, pelo amor de Deus pra fazer alguma coisa, e eu era sempre cortada, sempre cortada".

Mirian Dutra explica que só decidiu falar sobre o assunto após deixar a TV Globo. E critica o ex-amante e a poderosa emissora da famiglia Marinho. “Meu trabalho sempre foi tão importante pra mim, isso me dói. Ter lutado tanto e de repente, por um homem completamente manipulador e por ter trabalhado em um grupo de comunicação tão... eu queria usar um verbo, mas não me permito usar esse verbo... eu fui prejudicada". Ela também denuncia a atitude da Veja e do jornalista Mário Sérgio Conde, que na época era editor da revista do esgoto e hoje apresenta um programa na GloboNews. “Quando eu estava grávida de sete meses do Tomas, a coisa estava para explodir. FHC me obrigou a dar uma entrevista pra Veja, dizendo que o pai do meu filho era um biólogo... Foi Fernando Henrique com Mário Sérgio Conde! Foi um acerto feito com o diretor da Veja”. A denúncia é gravíssima e até merecia a abertura de uma comissão de ética no Sindicato dos Jornalistas. Haja escrotidão!

Clique aqui para ler a íntegra da entrevista. Para entender melhor este caso escabroso, que também foi abafado pela mídia no passado, não deixe do ler o livro do jornalista Palmério Dória, “O príncipe da privataria” (Geração Editorial, 2013).

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