quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Equipe de Bolsonaro agita o mercado

Por Carlos Drummond, na revista CartaCapital:

Os primeiros movimentos do governo eleito na área econômica são um desastre e isto não é nenhuma fake new. Impera a confusão na definição de rumos, mostra a sequência de tropeços e desencontros que inquieta o mercado, alarma setores da indústria e do comércio exterior e torna cada vez mais remota a recuperação da produção, do crescimento, do desenvolvimento tecnológico e da geração de empregos, temas rarefeitos quando não inexistentes entre as proposições dos vencedores das eleições.


Bolsonaro e equipe batem cabeça nas definições para áreas sensíveis como o câmbio, as exportações e a manufatura, além de buscarem um atrelamento radical do País ao neoliberalismo em declínio inclusive nos Estados Unidos e de criarem atritos com a China, nosso principal parceiro comercial, e com os integrantes do bloco Mercosul.

Na segunda-feira, 29, o deputado federal Onyx Lorenzoni, coordenador da equipe de transição cotado para futuro ministro da Casa Civil, disse que a taxa de câmbio será mais previsível, mas não haverá meta para o valor da moeda, o oposto do declarado na véspera por Bolsonaro, de que o Banco Central deveria ter metas de câmbio.

Em seguida descartou a reforma da Previdência que Temer se dispôs a colocar em votação ainda neste ano. À tarde, Guedes desautorizou publicamente Lorenzoni a falar sobre economia e não comentou a declaração do seu chefe a propósito do câmbio, mas depois de se reunir com ele admitiu que a reforma não andará tão rápido como o sistema financeiro gostaria, devido à necessidade de levar em conta as negociações políticas no Congresso.

Mais ou menos o que afirmara o recém-desautorizado Lorenzoni. No fim do dia acenou, entretanto, com duas reformas da Previdência, uma antes outra depois de primeiro de janeiro, esta para introduzir o mesmo sistema de capitalização fracassado nos EUA e no Chile.

Em meio à sucessão de remendos que vai ocupando o lugar daquilo que deveria ser uma política econômica coerente e consistente, Bolsonaro e seus economistas buscam atrelar o País à fracassada condução neoliberal do mundo pelos Estados Unidos sob o catecismo da escola econômica da Universidade de Chicago, aquela conhecida pelo slogan “mercado acima de tudo, deus Mamom da riqueza acima de todos”, onde Paulo Guedes fez sua profissão de fé e o subsequente Consenso de Washington.

A derrocada daquela orientação está demonstrada na mais completa radiografia da economia dos EUA elaborada em 2016 pelo Instituto Roosevelt sob a coordenação do Nobel Joseph Stiglitz, tomando por base centenas de pesquisas sobre emprego, renda, empresas, sistema financeiro e proteção social.

A atrofia das empresas, do investimento, do trabalho, do movimento sindical e da seguridade social combinados à desregulamentação e à hipertrofia financeira travam qualquer crescimento significativo ao algemarem o aumento da demanda nos EUA e no resto do Ocidente à remuneração e ao consumo cronicamente baixos. Não por acaso ressurgem agora com mais força previsões de nova crise mundial de grandes proporções.

A tentativa de conversão à orientação decadente de política econômica põe o Brasil à beira do ridículo e do precipício ao mesmo tempo. “Quando os EUA pregam o liberalismo, o fazem na condição de grande potência mundial e nós no Brasil como sempre estamos absorvendo o discurso que vem do Norte sem as devidas considerações históricas e regionais. Bolsonaro coloca-se como um Trump da América Latina, mas isso é totalmente impossível. Esse Trump latino-americano vai ser atropelado pelo capitalismo mundial, China incluída”, disse a esta revista Bruno De Conti, professor do Instituto de Economia da Unicamp.

Dar as costas ao país asiático, hostilizado por Bolsonaro com sua visita a Taiwan em março e ironizado em declarações, será catastrófico, alerta De Conti. A postura antichinesa colide por exemplo com os interesses do setor do agronegócio que apoia o novo presidente, pois a soja produzida no Brasil é exportada principalmente para os chineses, assim como a carne de frango.

Na quarta-feira, 31, o jornal China Daily, porta-voz governamental não oficial, veiculou em editorial um recado duro para Bolsonaro: “Se a opção do Brasil em 2019 for por seguir a linha de Donald Trump e romper acordos com Pequim, quem sofrerá será a economia brasileira”.

As trombadas em assuntos econômicos parecem não ter limite, mostram as críticas de Guedes ao Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Segundo o futuro ministro da Economia declarou à BBC, Brasília só negociava com quem tinha "inclinações bolivarianas", mas isto não mais ocorrerá a partir da Presidência de Bolsonaro.

Isso menos de 24 horas após o capitão atenuar em entrevista à televisão declarações anteriores de Guedes na mesma linha. A retirada do bloco responsável pela absorção de 25% das exportações de manufaturados do País seria uma espécie de Brexit do Brasil, alertou o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria, enfraquecer o Mercosul é fortalecer a China, algo que parece escapar ao pensamento linear de Guedes e Bolsonaro. Outra proposta criticada pela indústria, de fundir as pastas da Fazenda, Planejamento e Indústria em um ministério foi oficializada por Bolsonaro.

A equipe do capitão, que até agora não chutou sequer uma bola dentro na área econômica, produziu mais uma, ou melhor duas cizânias, entre ruralistas e também na corrente ambientalista ao decidir unificar os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, conforme anunciado na terça-feira 30. Em nenhuma dessas áreas há consenso contra ou a favor da unificação.

Um ponto adicional de discórdia intestina é a venda da Embraer à Boeing, definida pelo governo Temer, mas ainda não fechada. No domingo, 29, o general Augusto Heleno, futuro ministro da Defesa, declarou que antes de sacramentar o negócio é preciso ver se a transação é vantajosa para o País. O argumento de Heleno não deve fazer o menor sentido para o ultraliberal Guedes, que ao menos até o início da semana não se pronunciara sobre o assunto.

No carrossel de afirmações seguidas de desmentidos Guedes propôs ainda na segunda-feira 29 a venda de 100 bilhões de dólares das reservas cambiais de 380 bilhões para reduzir a dívida e horas depois se desdisse ao término de uma reunião com Bolsonaro.

Para não ficar feio, declarou que a venda só ocorreria em momentos de ataque cambial, uma enrolação, pois em ocasiões do tipo o país assediado pelos especuladores é obrigado a queimar seu estoque de divisas para defender a própria moeda, como fez o governo FHC em 1998 ao detonar 30 bilhões de dólares na tentativa de deter a desconfiança internacional em relação à economia local fragilizada sob a sua gestão.

A proposição do Chicago’s Boy parece ter despertado mais inquietações que hurras entre seus ex-colegas de universidade espalhados no sistema financeiro, sugere a manchete do jornal Valor na quarta-feira 31: “Mercado mostra dúvidas sobre a venda de reservas”.

As indicações de condução mais neoliberal que o próprio neoliberalismo atraíram as atenções de Steve Bannon, ex-assessor de Trump e estrategista de guerras cibernéticas para manipulação de eleições como a desfechada no Brasil para vencer Haddad e o PT.

Bannon declarou esperar do governo de Bolsonaro um êxito econômico capaz de influenciar o mundo e anseia pela presença do capitão no encontro mundial de lideranças do neoliberalismo extremado em janeiro na Bélgica.

É preciso esperar, entretanto, o resultado do ziguezague de direcionamentos para a área econômica divulgados de hora em hora pelo futuro governo nos dias seguintes à eleição, pois, como chama atenção De Conti, “a tentativa de submeter um país periférico a uma política liberal é de fato condená-lo à morte. Quando os EUA pregam o liberalismo, o fazem na condição de grande potência mundial e nós no Brasil estamos absorvendo como sempre o discurso que vem do Norte sem as devidas considerações históricas e regionais. Bolsonaro coloca-se como um Trump da América Latina, mas isso é totalmente impossível. Esse Trump latino-americano vai ser atropelado pelo capitalismo mundial, China incluída”.

O jogo mundial está mudando, mostram as projeções da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, de que nos próximos cinco anos a parcela da China no PIB do planeta crescerá de 27,2% para 28,4%, enquanto a dos Estados Unidos cairá de 12,9% para 8,5%. O gigante asiático desprezado por Bolsonaro e seus mutantes avança de modo sólido e prudente, inclusive na área tecnológica, com resultados que exasperam Trump, o general da guerra comercial antichinesa.

Não poucos comparam o poderio desenvolvimentista da iniciativa de Pequim, intitulada Belt and Road ou novas rotas da seda, ao Plano Marshall do Pós-Guerra, de investimentos dos Estados Unidos fundamentais para a recuperação europeia. O Belt and Road é um programa ambicioso iniciado em 2013 e em estágio avançado de execução para conectar a Ásia com a Europa e a África por redes terrestres e marítimas ao longo de seis corredores e que visa incrementar a integração regional, o comércio e o crescimento econômico.

O bolsonarismo descarta também os BRICS e, com isso, joga fora a oportunidade de o Brasil articular uma parceria com Rússia, África do Sul e Índia para negociar inclusive contrapartidas ao enorme desbalanceamento em favor da China no interior do bloco, alerta De Conti.

O rol de propostas com perdas e danos previsíveis inclui a de abertura comercial unilateral e total apresentada antes das eleições por economista da equipe de Bolsonaro, medida capaz de aniquilar o pouco que resta da indústria nacional.

“É um cenário de incertezas tremendas, porque a conta não fecha. Tenho para mim que eles próprios não sabem o que fazer. Vai ser um governo desastroso, não tenho dúvida”, prevê De Conti.

2 comentários:

Anônimo disse...

COMENTÁRIO: INÍCIO
A esquerda Lula-petista continua sendo instruída pelo seu método de análise equívoco, em que o analista estabelece, talvez influenciado mais pelo método de Max Weber do que pelo método marxista, as premissas fundadas naquilo que ele acha ("achismo") que o governo Bolsonaro fará, e, a partir destas premissas, formula hipóteses do que decorreria política, econômica e socialmente, se aquilo que ele acha que ocorrerá ocorrer.
Entretanto, não considero inteligente ficar fazendo projeções do que será o governo de Bolsonoro com base nesse "achismo", como se as ações desse futuro governo fossem absolutamente previsíveis, supondo (a meu ver, equivocadamente) que o governo Bolsonaro será uma continuidade do governo Temer.
Sugiro que não se critique medidas que ainda não foram adotadas, para que a credibilidade das análises dos analistas lulistas-petistas não continue a decair (afinal, esses analistas entusiasmaram toda a militância do PT e aliados com a "genial" tática exclusivista eleitoral, supostamente elaborada pelo cérebro auto-suficiente de Lula, que levaria o PT a obter uma espetacular 5° vitória consecutiva. Uau!)
Aliás, por que devemos combater determinadas medidas apenas sugeridas, deixadas no ar pelo fascista eleito presidente, porém ainda não adotadas, como, por exemplo, a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém? Para mim, seria interessante deixar o nazista presidente cometer essa burrice, antes de criticá-la. A repercussão internacional desse erro imbecil seria benéfica para o processo de desmascaramento desse governo. Deixemos o governo Bolsonaro cometer alguns de seus erros livremente, para poder, então, denunciá-los. Paremos de atacar hipóteses, suposições, insinuações. Tais análises são úteis para nos prepararmos caso tais hipóteses e suposições se convertem em fatos, mas não devemos oferecê-las gratuitamente ao inimigo.

Anônimo disse...

COMENTÁRIO: CONTINUAÇÃO
Quanto a análise em particular de Sílvio Caccia, considero igualmente um equívoco supor que o governo Bolsonaro "não tem experiência de gestão e nem equipe de governo". A meu ver, parece que ninguém ainda supôs que a eleição de Bolsonaro foi a vitória da retomada de um projeto de poder que governou o Brasil por 21 anos seguidos. Um projeto, portanto, que tem muita "experiência de gestão", podendo facilmente montar uma "equipe de governo" herdeira dos conhecimentos acumulados pelos militares durante a ditadura militar. Sugiro que, para entender o que Bolsonaro fará, devemos aceitar a contradição evidente entre o projeto de poder dos militares que deram o golpe de 1964 e os elementos civis que Bolsonaro reuniu para vencer as eleições. Se Bolsonaro for, como acredito que seja, um servidor do projeto militar que saiu de cena em 1985 e passou a hibernar nos centros de inteligência das Forças Armadas, então, a última palavra será dada por esses militares - pelos generais, principalmente-, e não pelos representantes civis que Bolsonaro anunciou como membros de sua equipe.
Por exemplo, do ponto de vista de uma estratégia militar, a expulsão política do PT do Nordeste deve ser uma prioridade dos estrategistas que levaram Bolsonaro a ser eleito. Sendo assim, a manutenção de um programa como o Bolsa Família entre os eleitores lulistas beneficiados por este programa me parece algo óbvio. Afinal, o custo econômico desse benefício é bastante baixo para se abrir mão de liquidar, mantendo a vigência do programa, com uma parte considerável da influência do PT sobre o povo (o que revela a insuficiência do economicismo, que sempre orientou as ações dos governos petistas, para fundar uma base social de apoio político e ideológico necessária para implantar no Brasil as reformas democráticas e populares com que sonhamos, pois uma parte expressiva dos apoiadores do PT passariam a ser facilmente apoiadores de Bolsonaro se esse programa de baixo custo for mantido). Também não conviria ao projeto militar a privatização de determinadas estatais como o Banco do Brasil, a Eletrobras e a Petrobras, por exemplo. Teriam os militares abandonado essas premissas de seu projeto inicial de poder?
COMENTÁRIO: CONCLUSÃO
Eu acredito que não. Reconheço que é uma suposição, mas não tenho a intenção de ser taxativo, apenas estou oferecendo uma outra alternativa analítica, sem a pretensão de ter uma bola de cristal infalível. Se os generais que povoarão o governo Bolsonaro não tiverem abandonado as premissas que fundaram o golpe de 1964, essas empresas não serão privatizadas, mesmo que seja esse o desejo de Paulo Guedes. Desse modo, para poder prever o que o governo Bolsonaro fará, recomendo entender o que os militares fizeram no passado, e o que pretendia o seu projeto de dominação política implantado com o golpe militar de 1964.
A luta contra o populismo neofascista representado pelo governo de Bolsonaro não será fácil, demandará tempo (eu ficaria feliz se conseguirmos derrotá-lo em 12 anos) e envolverá a defesa de um programa político, ideológico e social muito mais avançado do que as medidas economicistas que marcaram os governos petistas. Doravante, deveremos agir seguindo os conselhos da paciência revolucionária, acumulando forças na frente política e ideológica, identificando o proletariado como o principal protagonista das transformações que beneficiarão os trabalhadores e o povo, nucleando, por sua vez, uma Frente Ampla e Democrática a ser construída no âmbito de nossa sociedade, em que os partidos políticos, como o PT, o PCdoB e o Psol etc, poderão apenas comparecer como membros não privilegiados, em relações horizontais com as demais forças políticas e sociais, passíveis de ser reunidas nessa Frente Ampla, organizada para vencer a batalha das ideias e não apenas e muito menos prioritariamente as batalhas eleitorais que orientam a visão política reformista limitada dos petistas. DARCY BRASIL RODRIGUES DA SILVA