Por Fernando Nogueira da Costa, no Jornal GGN:
Diante da horrível transmissão da TV Globo do desfile carnavalesco em homenagem à história do Lula, com os repórteres falando apenas dela própria e quase nada noticiando do desfile, lembrei-me da manipulação do debate eleitoral de 1989 e da sua defesa da reforma com “flexibilização” dos direitos trabalhistas. A pesquisa acadêmica de Rosangela Ribeiro Gil, defendida em 2025 como dissertação de mestrado no IE-Unicamp e intitulada Jornal Nacional e Reforma Trabalhista de 2017: a notícia articulada aos interesses neoliberais do Governo Temer, analisa como a mídia corporativa brasileira, com foco especial no Jornal Nacional, atuou na construção de uma narrativa favorável às reformas neoliberais, como a trabalhista e a previdenciária.
A autora examina o papel da Rede Globo na legitimação de projetos governamentais. Demonstra como o canal e seu telejornal frequentemente silencia vozes críticas e prioriza discursos de “especialistas” alinhados ao mercado.
O texto percorre a trajetória do sindicalismo e as mudanças políticas desde a redemocratização até o governo de Michel Temer, destacando o uso de termos como “modernização” para justificar a perda de direitos trabalhistas e previdenciários. Através de uma metodologia descritiva e analítica, o estudo revela como grandes veículos de comunicação operam como trincheiras de classe, transformando pautas políticas complexas em consensos pró-mercado perante a opinião pública. Também evidencia a profunda concentração midiática no Brasil e sua influência decisiva em momentos de crise e transição institucional.
A mídia brasileira, especialmente os grandes conglomerados de comunicação, exerceu um papel fundamental na construção de um consenso favorável ao neoliberalismo, no Brasil, atuando como um pilar de sustentação discursiva para governos e elites econômicas. Esse processo não ocorreu de forma neutra, mas sim através de mecanismos capazes de transformarem a visão da classe dominante dos meios de comunicação em uma pressuposta “verdade”, naturalizada para toda a sociedade.
A mídia corporativa atuou na naturalização da notícia, apresentando as reformas neoliberais não como uma escolha política, mas como uma “solução necessária” ou um “remédio amargo” inevitável para o país. O uso recorrente de palavras como “modernizar” para definir as reformas e “anacrônica” ou “atrasada” para descrever a legislação protetiva dos trabalhadores, como a CLT de 1940, criou um sentido de urgência e progresso associado ao neoliberalismo. As medidas foram apresentadas como o único caminho para a recuperação econômica, bloqueando o debate sobre alternativas.
De acordo com o estudo, a grande imprensa utiliza padrões específicos para moldar a opinião pública. Ocorre um “silêncio militante” sobre fatos contraditórios com a narrativa neoliberal. Críticas técnicas de órgãos como o Ministério Público do Trabalho (MPT) ou o DIEESE foram ignoradas ou marginalizadas no noticiário de maior audiência.
A realidade foi apresentada de forma fragmentada, sem as devidas conexões históricas ou econômicas, fazendo com as reformas parecerem eventos isolados e autônomos. Substituiu-se o fato pela versão oficial do governo golpista. No caso da Reforma Trabalhista de 2017, o Jornal Nacional priorizou vozes do governo e do empresariado (78,3% do tempo de fala) em detrimento das vozes críticas (21,7%).
Até hoje vigora o frequente uso de “elites simbólicas” sempre com palanques midiáticos e supostos “especialistas” anônimos para afirmar algo contra os críticos do neoliberalismo e partidários dos trabalhadores. O jornalismo econômico brasileiro não tem pudor de usar esse truque recorrentemente.
A mídia influencia para um consenso social mal-informado ao selecionar quem tem autoridade para falar, seja sobre economia, seja sobre carnaval. O discurso econômico foi monopolizado por “especialistas” alinhados ao ideário liberal. Professores de uma mesma escola de pensamento econômico validavam as reformas como cientificamente corretas e benéficas para ambos os lados.
Detinham um capital simbólico. Ao dar visibilidade a esses atores, a mídia conferia a eles um prestígio capaz de legitimar o discurso neoliberal perante a audiência.
A construção do “senso comum” ocorreu através da repetição cotidiana da monótona ladainha neoliberal. Desde a década de 1990, a mídia brasileira repetiu exaustivamente os direitos trabalhistas serem obstáculos ao crescimento e gerarem o chamado “custo-Brasil”.
Essa repetição insistente acaba por incorporar o aparato conceitual neoliberal ao senso comum, tornando-o algo tido como certo e livre de questionamentos pela população. A mídia atua como um “Partido da Globalização Neoliberal (PGN)”, seduzindo a classe média com ideais de sucesso pessoal e empreendedorismo individual, em oposição à solidariedade social.
Qualquer oposição ao projeto neoliberal era enquadrada de forma negativa como uma resistência vã. Manifestações sindicais e greves foram associadas a vandalismo, caos, baderna e prejuízo à economia, em vez de serem apresentadas como debates legítimos sobre direitos. No caso da reforma de 2017, enquanto os defensores falavam em ambientes tranquilos, os opositores eram mostrados em cenários de conflito e violência, deslegitimando suas pautas.
Rosangela Ribeiro Gil comprovou a mídia brasileira ter influenciado o chamado consenso neoliberal ao agir como uma correia de transmissão do bloco conservador. Fundiu interesses privados e públicos para impor uma visão de mundo única, apresentada como fosse o interesse de toda a nação.
Com base na dissertação, defendida em 2025, os principais padrões de manipulação da grande imprensa são os seguintes.
Primeiro, a ocultação: refere-se ao “silêncio militante” sobre determinados acontecimentos. Não é uma simples omissão por desconhecimento, mas a decisão deliberada de não noticiar fatos da realidade, fazendo eles deixarem de existir, para o público, e serem substituídos por uma visão de mundo artificial.
A realidade é apresentada de forma fragmentada, sem suas interconexões, dinâmicas, causas ou contextos históricos. O fato é desvinculado de seus antecedentes e reconectado de forma arbitrária a vínculos ficcionais, impedindo a compreensão da estrutura dos processos sociais.
Este padrão de inversão reordena a importância das informações para destruir a realidade original e criar uma imaginária. Ela ocorre de quatro formas principais.
Primeiro, quanto à relevância, o secundário é apresentado como principal – e o relevante é ocultado. Prioriza a forma desviante, diante o conteúdo necessário, porque uma frase ou uma graça ganha mais peso diante a explicação do fato.
Importa a versão diante do fato. No “oficialismo”, substitui-se a observação da realidade por declarações e opiniões de fontes aceitas pela própria TV Globo.
Dá opinião e não informação. Juízos de valor de uma fonte simpatizante ao neoliberalismo são apresentados como se fossem a própria descrição da realidade, sem aviso ao público.
Indução é o resultado da combinação desses padrões. Através de uma repetição sistemática, o espectador é induzido a ver o mundo não como ele é, mas como o órgão de imprensa deseja ele ser visto.
Daí surge o Padrão Globo de manipulação, característico da TV líder de audiência. Adota os padrões citados e organiza a notícia em três “atos” básicos.
Primeiro, “a exposição emocional”: o fato é apresentado sob ângulos sensacionalistas e espetaculares favoráveis à sua ideologia.
Depois, “a sociedade fala”: exibem-se depoimentos escolhidos de pessoas comuns desinformadas, focando em suas dores e testemunhos.
Finalmente, “a autoridade resolve”: a figura oficial aparece para trazer a solução ou reprimir o apresentado como “mal”, restaurando a ordem para o “bem” do poder econômico dominante.
Esses mecanismos, segundo a pesquisa acadêmica minuciosa, foram utilizados pelo Jornal Nacional para construir um consenso favorável à Reforma Trabalhista de 2017, apresentando-a como uma “modernização necessária” e silenciando ou desqualificando as vozes críticas. O resultado foi a vigente precarização do trabalho sem direitos e, pior, sem sindicatos para os reivindicar com organização, pressão política e até movimentos grevistas.
* Fernando Nogueira da Costa é professor titular do IE-Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
0 comentários:
Postar um comentário