quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

8º presidente, em dez anos, é deposto no Peru

Por Pedro Carrano, no site Vigília Comunica:

A crise política e institucional no país vizinho, o Peru, não parece ter final.

O Congresso peruano destituiu no dia 17 de fevereiro, terça, o presidente interino, o direitista José Jerí, por investigações em aberto contra ele, consumando a oitava troca presidencial em uma década de instabilidade política na nação andina.

Esta destituição ocorre a quase dois meses das eleições gerais, no dia 26 de abril, e aprofunda a crise institucional iniciada após as eleições de 2016.

O atual presidente do Congresso, Fernando Rospigliosi, anunciou a convocação de uma nova sessão plenária para hoje (quarta) às 18h, com o objetivo de eleger o próximo titular do legislativo, que assumirá a Presidência interina da República.

Antes da destituição, parlamentares peruanos denunciaram atos de ingerência por parte do embaixador dos EUA, que aludiu a possíveis consequências diante de uma eventual vacância de Jerí. O diplomata gerou críticas por intervir em assuntos internos, uma atitude recorrente da administração americana na região latino-americana.

Em diálogo com a TeleSur, o advogado especialista em direitos humanos, Ricardo Soberón, declarou que o Peru é o “único país no mundo onde, tendo oito presidentes da República em menos de uma década, mantém um modelo econômico favorecido pelos altos preços internacionais do ouro, 5 mil dólares a onça, e do cobre, 6 dólares a onça”. Soberón enfatizou que o país enfrenta uma “crise terminal do sistema político, democrático, representativo”.

Soberón acrescentou que a sociedade peruana “já não acredita em seus políticos” e, no entanto, mantém um modelo econômico “absolutamente propício à intervenção de capitais estrangeiros” que extraem os recursos naturais.

Golpe contra Pedro Castillo enterrou um possível programa popular

É fato que o país sofre o resultado de 40 anos de aplicação do modelo neoliberal.

Nos anos 90, a esquerda foi massacrada pelo governo de Alberto Fujimori, que deixou o legado até hoje da Constituição conservadora de 93.

A esquerda peruana sempre possuiu quadros consistentes, um histórico forte do Partido Comunista Peruano, desde José Carlos Mariátegui, e forte presença no país nos anos 70 e 80, mas se deparou com a aplicação do modelo neoliberal, imposto de forma autoritária por Fujimori, e foi também deslegitimada pelos equívocos da organização Sendero Luminoso, que aderiu a práticas terroristas.

Com isso, o Peru se tornou um dos portos seguros do modelo aplicado pelos EUA, com Tratados de Livre Comércio com o governo estadunidense e mais 20 diferentes acordos com outros países, sendo uma das principais correias de transmissão do governo dos Estados Unidos no continente nos anos 90 e 2000.

Em vinte anos, a exploração das transnacionais da mineração garantiu números abstratos e ilusórios de crescimento da economia, e manteve o povo peruano e os trabalhadores na miséria.

Além disso, as transnacionais do ramo ficam com até 80% dos lucros na extração – problema semelhante ao que a Bolívia vivia antes da chegada do MAS ao governo (2006).

O golpe parlamentar seguido de prisão contra o presidente Pedro Castillo, em 2022, professor rural oriundo das organizações Rondas Camponesas, não teve a leitura que merecia. Seu programa, criticado por não apresentar bandeiras identitárias, no entanto se colocava para combater uma situação econômica e social profundamente desigual.

O número de analfabetos no país é de 2,7 milhões, em uma população de 32,5 milhões de pessoas, sendo que 84% entre as vítimas de analfabetismo são mulheres – como informava o programa de Castillo, isso em um país também sem patamar de leis trabalhistas.

O único presidente que tentou combater essa situação foi preso. Nas próximas eleições, Fujimori e a extrema-direita novamente se avizinham.

Fonte:

- RÉNIQUE, José Luis. A revolução peruana. Editora Unesp, 2009, 170 páginas.

* Com Telesur

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