A Lava Jato 2 tem uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem é que a tecnologia de manipulação da opinião pública é conhecida – e a ingenuidade política do governo também. Bastou articular para colocar um Ministro do Supremo Tribunal Federal aliado no controle da operação, montar um pacto com a banda lavajatista da Polícia Federal, articular vazamentos políticos com jornalistas lavajatistas. A desvantagem é que a tecnologia de manipulação da opinião pública é conhecida. Assim como o desfecho da operação.
Esse reconhecimento impediu a unanimidade imbecilizante que acometeu a mídia na Lava Jato 1. A cobertura rachou. De um lado, os que endossaram a armação do senador Alessandro Vieira no relatório da CPI do Crime Organizado - a banda mais desinformada e serviçal da grande imprensa, que saiu de uma investigação sobre facções e milícias com a proposta de indiciar três ministros do STF e o Procurador-Geral da República, sem tocar em Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel ou Roberto Campos Neto. Do outro, jornalistas que participaram da Lava Jato 1 e agora, com a experiência que só o arrependimento ensina, se recusam a repetir o erro.
Gilmar Mendes lembrou, com sua habitual falta de elegância e sua costumeira precisão, que jornalistas da Globo serviram de ghost writers da primeira operação - e que coube ao mesmo STF, anos depois, impedir que o governo Bolsonaro cassasse a concessão do canal. A ironia não é gratuita. É uma lição sobre freios e contrapesos que parte da imprensa teima em não aprender: numa democracia, um poder limita o outro não porque os ocupantes sejam virtuosos, mas porque a arquitetura institucional exige essa fricção. Suprimir o freio para atingir um adversário de hoje é suprimir a proteção de amanhã.
O ponto não é absolver ninguém. É entender que um governo Flávio Bolsonaro não seria a continuação imperfeita de uma democracia. Seria o seu encerramento deliberado. Não se trata mais de 2018, quando a falta de registro sobre o personagem ainda permitia apostas moderadas. Agora o roteiro é conhecido: os propósitos golpistas documentados, as ligações com o submundo do crime estabelecidas, o aprendizado do primeiro governo incorporado. A diferença entre Bolsonaro 1 e um eventual Bolsonaro 2 é a diferença entre um ensaio e uma execução. No primeiro, a falta de prática impediu o fechamento do STF. No segundo, iriam direto à jugular.
O que explica, então, a campanha inclemente contra Lula e contra o país?
João Fonseca, depois de uma vitória no circuito mundial de tênis, falou do orgulho de ser brasileiro. Lucas Braathen - nascido na Noruega, filho de mãe brasileira, um dos principais nomes do esqui alpino mundial - fez questão de escolher o Brasil como sua pátria e de articular, com a precisão de quem veio de fora, o que há de singular no modo de ser brasileiro. No cinema, dois filmes premiados internacionalmente moveram torcida nacional. Há uma demanda genuína, intensa e transversal pelo Brasil - pelo que ele é e pelo que pode ser.
A mídia, diante disso, aposta no baixo astral. Pessimismo, notícias negativas, deterioração sistemática do humor nacional. A pergunta incômoda é: para quê? Para condicionar o eleitorado às vésperas de 2026. E se funcionar? Em um primeiro momento, quem apostou nessa estratégia receberá seu quinhão - privatizações de Petrobras, Banco do Brasil, SUS. Depois, encontrará uma nação estraçalhada, poderes constituídos desmantelados, terras raras negociadas com Washington, o PIX substituído pelos cartões de crédito internacionais.
A entrevista de Lula aos três veículos da imprensa alternativa mostrou um presidente no auge da clareza - sobre a disputa eleitoral, sobre sua importância para a manutenção do Estado democrático, sobre os limites que nunca ultrapassou na economia. Aliás, tivesse um pouco mais de ousadia, poderia ter reescrito a história do Brasil, como Getúlio e JK.
Mesmo assim, é a pessoa física que há 40 anos sustenta a democracia brasileira. Com suas qualidades e suas limitações, dificilmente houve presidente mais de centro e mais comprometido com o modelo institucional vigente. Lula é, com toda a ironia da história, a própria Terceira Via que o campo político amorfo que rejeita o lulismo passa a vida procurando sem nunca encontrar.
É possível que a mídia acorde a tempo. Que a memória da Lava Jato 1 - os danos que ajudou a provocar na política, na economia e, por fim, nas suas próprias redações - sirva de vacina contra a repetição. Possível. Mas, até agora, os sintomas são os mesmos.
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