Por José Reinaldo Carvalho, no site Vermelho:
A diplomacia entre Brasil e Cuba ganha novo impulso em um momento especialmente grave para a América Latina: enquanto o presidente Lula recebe as credenciais do novo embaixador cubano, Víctor Manuel Cairo Palomo, os Estados Unidos ampliam o bloqueio, reforçam sanções e transformam em rotina ameaças contra a soberania da ilha. O contraste é revelador. De um lado, a cooperação, o diálogo e o respeito entre Estados soberanos. De outro, a coerção econômica, a guerra psicológica e a intimidação militar.
Ao receber as credenciais do diplomata no Palácio do Planalto, Lula reafirma uma tradição brasileira que reconhece em Cuba um país irmão, com o qual o Brasil mantém laços históricos de cooperação em saúde, agricultura, cultura, ciência, educação e defesa do multilateralismo.
“O Brasil e Cuba têm um histórico de cooperação em diferentes âmbitos”, declarou ao Brasil 247 o embaixador Victor Manuel Cairo Palomo. A frase sintetiza uma relação entre povos latino-americanos que compartilham desafios comuns e o direito de construir seus próprios caminhos. Cuba e Brasil, em diferentes momentos, demonstraram que a cooperação Sul-Sul pode salvar vidas, formar profissionais, fortalecer sistemas públicos e abrir alternativas diante de uma ordem internacional marcada por desigualdades profundas.
É justamente por isso que a solidariedade a Cuba precisa ser entendida como uma tarefa do nosso tempo. Defender Cuba é reconhecer que nenhuma sociedade pode ser analisada honestamente sem considerar o peso de mais de seis décadas de bloqueio, sanções, perseguição financeira, sabotagem diplomática e agressões permanentes. Nenhum país submetido a esse cerco pode desenvolver plenamente sua economia, suas instituições e sua vida social sem pagar um preço altíssimo.
As novas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevam esse cenário a um patamar ainda mais perigoso. Ao mencionar a possibilidade de “tomar o controle” de Cuba e ao reforçar sanções contra pessoas e entidades cubanas, Washington reafirma uma lógica imperial incompatível com o direito internacional e com a autodeterminação dos povos.
O Movimento Brasileiro de Solidariedade a Cuba foi certeiro em seu comunicado contrário a essa escalada. Quando afirma que “Cuba tem o direito de existir” e que “Defender Cuba é defender o Brasil”, o movimento aponta para uma verdade estratégica. A agressão contra Cuba diz respeito a toda a América Latina. Se uma potência se arroga o direito de sufocar economicamente, ameaçar militarmente e desestabilizar politicamente um país soberano, nenhum outro povo da região está plenamente seguro.
O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, foi direto ao denunciar que o bloqueio busca atingir a vida cotidiana da população. Sua fala expõe a natureza real das medidas coercitivas impostas contra a ilha: não são instrumentos abstratos de pressão, mas mecanismos concretos que afetam transporte, saúde, energia, comércio, medicamentos, abastecimento e comunicação. Quando o bloqueio se aprofunda no setor energético, atinge ambulâncias, hospitais, escolas, famílias, trabalhadores e crianças.
Rodríguez afirmou que a política norte-americana busca “provocar fome, desespero e a derrubada do governo”. Essa definição revela a continuidade de uma estratégia histórica: tornar a vida insuportável para produzir instabilidade interna e justificar novas formas de ingerência.
A ameaça contra fornecedores de combustível, bancos estrangeiros e entidades que mantenham relações com Cuba amplia ainda mais a dimensão extraterritorial do bloqueio. Ao tentar impor ao mundo inteiro a sua política de hostilidade, Washington arremete contra a soberania de terceiros países, empresas e instituições que tenham o direito de manter relações legítimas com Havana.
Nesse contexto, a defesa da paz não pode ser neutra diante da agressão. A América Latina-Caribe foi proclamada pela Celac zona de paz, e essa condição deve ser respeitada. A advertência do presidente colombiano, Gustavo Petro, de que uma intervenção militar em Cuba seria uma agressão contra toda a América Latina, expressa uma compreensão fundamental: a soberania cubana é parte da arquitetura de paz regional. Qualquer ameaça contra a ilha ameaça a estabilidade de toda a região.
A solidariedade internacional precisa ir além das declarações. O envio de painéis solares, citado pelo Movimento Brasileiro de Solidariedade a Cuba, é um exemplo concreto de apoio em meio à tentativa de estrangulamento energético. Fortalecer iniciativas de cooperação em saúde, medicamentos, agricultura, ciência e tecnologia é uma forma prática de enfrentar os efeitos do bloqueio e afirmar que a integração latino-americana pode produzir respostas onde o imperialismo tenta produzir escassez.
Também é indispensável enfrentar a guerra informacional contra Cuba. A ofensiva anti-Cuba se manifesta também na fabricação diária de narrativas que silenciam a solidariedade cubana ao mundo, desumanizam seu povo e naturalizam a violência contra sua soberania. Cuba enviou médicos, formou profissionais, compartilhou conhecimento e sustentou uma política internacionalista reconhecida por povos de diferentes continentes. Essa história não pode ser apagada por campanhas de desinformação.
O novo embaixador cubano no Brasil anuncia a meta de aprofundar laços com universidades, entidades culturais, movimentos sociais, organizações de solidariedade e setores da sociedade brasileira.
O Brasil pode e deve desempenhar papel ativo na defesa do diálogo, do multilateralismo e da paz. O desenvolvimento de boas relações com Cuba é parte de uma política externa comprometida com a integração regional e com a autonomia dos povos do Sul Global.
Cuba não ameaça ninguém. Cuba resiste. E sua resistência não pode ser vista apenas como assunto cubano, mas como patrimônio político de todos os povos que defendem a autodeterminação, a justiça social e o direito de construir alternativas ao domínio imperial. Em tempos de bloqueio, sanções e ameaças militares, a solidariedade a Cuba é uma posição ética, política e latino-americana.
Diante da escalada de Washington, cabe aos movimentos populares, aos governos comprometidos com a paz e às forças democráticas da região afirmar com clareza: Cuba tem o direito de existir, de resistir e de decidir seu próprio destino.
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