terça-feira, 6 de abril de 2010
EUA metralham crianças no Iraque
O sítio WikiLeaks, especializado na divulgação de documentos classificados, postou um vídeo em preto e branco, gravado do interior de um helicóptero Apache dos EUA, que mostra o chacina de 12 pessoas, todas civis – inclusive duas crianças no interior de uma van –, em julho de 2007, num bairro de Bagdá. Entre os mortos, dois jornalistas da Reuters. Na época, diante da pressão da agência de notícias, o governo dos EUA argumentou que o helicóptero tinha sido atacado. Pura mentira. O vídeo é impressionante, revoltante, e mostra o grau de selvageria do imperialismo estadunidense.
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
O time da pesada da campanha de Serra
Com o título “Serra chama para a campanha o mesmo grupo que o ajudou quatro anos atrás”, a Folha de S.Paulo noticiou neste domingo que o pré-candidato tucano já começou a montar a sua equipe para a corrida presidencial. Os nomes mencionados pela repórter Catia Seabra confirmam a opção do ex-governador paulista por uma forte marca neoliberal e autoritária na sua campanha, no rumo da polarização programática – o que será bastante positivo para o debate sucessório.
Segundo a Folha, o time de José Serra será composto, entre outros, por Sérgio Guerra, presidente do PSDB e coordenador-geral da campanha; Xico Graziano, indicado para elaborar o programa de governo; Andrea Matarazzo e Márcio Fortes, ambos responsáveis pela “interlocução com o empresariado – seja para quebrar resistências ao candidato ou na busca de apoio financeiro”. O time é da pesada. Todos são trogloditas de carteirinha, que não irão amaciar na campanha.
“Nós vamos acabar com ele [PAC]”
O senador Sérgio Guerra, pecuarista, criador de cavalos de raça e rico empresário pernambucano, atua de acordo com o vento (por falta de oportunidade, não faltam oportunistas), já tendo passado por quatro partidos, mas virou um inimigo feroz do presidente Lula. Detesta a política externa do atual governo, critica a "gastança" com os programas sociais, exigi maior repressão aos movimentos sociais. Ele gosta de posar de ético, mas ficou famoso pelo envolvimento no escândalo dos “anões do orçamento”, em 1993.
Destemperado, ele cria constrangimentos no seu próprio partido. Numa entrevista à revista Veja, em janeiro último, ele bombardeou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e concluiu: “Nós vamos acabar com ele”. A confissão irritou o PSDB e Sérgio Guerra teve que engolir suas besteiras. Na semana passada, ele voltou a rosnar num artigo na Folha, no qual afirmou que Lula é “contra a liberdade de imprensa” e disparou mentiras grosseiras contra Cuba e Venezuela.
Inimigo da reforma agrária e do MST
Já Xico Graziano é sempre acionado para o trabalho sujo nas eleições. Ajudou nas campanhas de José Serra, em 2002, e Geraldo Alckmin, em 2006. Foi assessor especial do ex-presidente FHC e se projetou na presidência do Incra ao defender a concentração fundiária – “a reforma agrária é um atraso” – e ao criminalizar o MST, tratado como “banditismo rural”, cujo seus líderes “botam medo no Estado” e são “justiceiros, que invocam cânones divinos e arrebentam cercas”.
Como coordenador do programa, é de se esperar uma plataforma direitista bem nítida. Graziano não esconde suas idéias fascistóides. Num artigo escrito às vésperas da eleição de 2006, atacou: “Ao lado do MST, você tem um setor muito atrasado da Igreja Católica, aglutinado na Comissão Pastoral da Terra, cujo expoente é Tomás Balduíno. À esquerda atrasada da Igreja, soma-se a esquerda atrasada petista... E o governo Lula não tem coragem de assumir a modernidade”. Na prática, há muito ele se converteu à tese oligárquica de que “a luta social é caso de polícia”.
Os “operadores” de campanha
Os empresários Andrea Matarazzo e Márcio Fortes serão os pivôs de arrecadação da campanha. O primeiro, sobrinho-neto do “conde” Francesco Matarazzo, é uma peça chave nos esquemas de José Serra. Neoliberal convicto, ele comandou vários programas de privatização em São Paulo. Quando o grão-tucano foi eleito governador, ele permaneceu na prefeitura da capital, ocupando a secretaria de coordenação das subprefeituras, mas logo saiu devido aos atritos com o demo Gilberto Kassab. Ficou famoso por sua política de “higienização”, contra os moradores de rua.
A indicação de Andrea Matarazzo pode causar dores de cabeça para Serra. Recentemente, com a eclosão dos escândalos de suborno da multinacional Alstom, o nome do “operador” de campanha do grão-tucano voltou à berlinda. Ele seria uma dos responsáveis pela montagem do caixa-2 dos tucanos, que teria a empresa francesa como uma das principais financiadoras ilegais. Tanto que ele já foi batizado, na Assembléia Legislativa de São Paulo, de “Andrea Alstom Matarazzo”.
“Acima de qualquer suspeita?”
O empresário carioca Marcio Fortes, outro “operador” de José Serra, também está envolvido em várias denúncias. De forma estranha, ele foi transferido para São Paulo e ocupa a presidência da Emplasa (Empresa de Planejamento Paulista). Na época da ditadura militar, ele foi assessor do Ministério da Fazenda e até ocupou interinamente o cargo. Mas ele ficou “famoso” no próspero período das privatizações da era FHC, que rendeu bilhões de dólares aos “cofres públicos”.
Como ex-tesoureiro nacional do PSDB, ele foi acionado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por emitir notas fiscais da sua própria empresa para justificar gastos da campanha de 2002. Na época, ele chiou à Folha: “Eu me considerava acima de qualquer suspeita”. Na sua gestão, as contas tucanas foram alvo de várias investigações. Estes são os empresários “acima de qualquer suspeita” que novamente comandarão a arrecadação financeira da campanha de José Serra.
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Segundo a Folha, o time de José Serra será composto, entre outros, por Sérgio Guerra, presidente do PSDB e coordenador-geral da campanha; Xico Graziano, indicado para elaborar o programa de governo; Andrea Matarazzo e Márcio Fortes, ambos responsáveis pela “interlocução com o empresariado – seja para quebrar resistências ao candidato ou na busca de apoio financeiro”. O time é da pesada. Todos são trogloditas de carteirinha, que não irão amaciar na campanha.
“Nós vamos acabar com ele [PAC]”
O senador Sérgio Guerra, pecuarista, criador de cavalos de raça e rico empresário pernambucano, atua de acordo com o vento (por falta de oportunidade, não faltam oportunistas), já tendo passado por quatro partidos, mas virou um inimigo feroz do presidente Lula. Detesta a política externa do atual governo, critica a "gastança" com os programas sociais, exigi maior repressão aos movimentos sociais. Ele gosta de posar de ético, mas ficou famoso pelo envolvimento no escândalo dos “anões do orçamento”, em 1993.
Destemperado, ele cria constrangimentos no seu próprio partido. Numa entrevista à revista Veja, em janeiro último, ele bombardeou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e concluiu: “Nós vamos acabar com ele”. A confissão irritou o PSDB e Sérgio Guerra teve que engolir suas besteiras. Na semana passada, ele voltou a rosnar num artigo na Folha, no qual afirmou que Lula é “contra a liberdade de imprensa” e disparou mentiras grosseiras contra Cuba e Venezuela.
Inimigo da reforma agrária e do MST
Já Xico Graziano é sempre acionado para o trabalho sujo nas eleições. Ajudou nas campanhas de José Serra, em 2002, e Geraldo Alckmin, em 2006. Foi assessor especial do ex-presidente FHC e se projetou na presidência do Incra ao defender a concentração fundiária – “a reforma agrária é um atraso” – e ao criminalizar o MST, tratado como “banditismo rural”, cujo seus líderes “botam medo no Estado” e são “justiceiros, que invocam cânones divinos e arrebentam cercas”.
Como coordenador do programa, é de se esperar uma plataforma direitista bem nítida. Graziano não esconde suas idéias fascistóides. Num artigo escrito às vésperas da eleição de 2006, atacou: “Ao lado do MST, você tem um setor muito atrasado da Igreja Católica, aglutinado na Comissão Pastoral da Terra, cujo expoente é Tomás Balduíno. À esquerda atrasada da Igreja, soma-se a esquerda atrasada petista... E o governo Lula não tem coragem de assumir a modernidade”. Na prática, há muito ele se converteu à tese oligárquica de que “a luta social é caso de polícia”.
Os “operadores” de campanha
Os empresários Andrea Matarazzo e Márcio Fortes serão os pivôs de arrecadação da campanha. O primeiro, sobrinho-neto do “conde” Francesco Matarazzo, é uma peça chave nos esquemas de José Serra. Neoliberal convicto, ele comandou vários programas de privatização em São Paulo. Quando o grão-tucano foi eleito governador, ele permaneceu na prefeitura da capital, ocupando a secretaria de coordenação das subprefeituras, mas logo saiu devido aos atritos com o demo Gilberto Kassab. Ficou famoso por sua política de “higienização”, contra os moradores de rua.
A indicação de Andrea Matarazzo pode causar dores de cabeça para Serra. Recentemente, com a eclosão dos escândalos de suborno da multinacional Alstom, o nome do “operador” de campanha do grão-tucano voltou à berlinda. Ele seria uma dos responsáveis pela montagem do caixa-2 dos tucanos, que teria a empresa francesa como uma das principais financiadoras ilegais. Tanto que ele já foi batizado, na Assembléia Legislativa de São Paulo, de “Andrea Alstom Matarazzo”.
“Acima de qualquer suspeita?”
O empresário carioca Marcio Fortes, outro “operador” de José Serra, também está envolvido em várias denúncias. De forma estranha, ele foi transferido para São Paulo e ocupa a presidência da Emplasa (Empresa de Planejamento Paulista). Na época da ditadura militar, ele foi assessor do Ministério da Fazenda e até ocupou interinamente o cargo. Mas ele ficou “famoso” no próspero período das privatizações da era FHC, que rendeu bilhões de dólares aos “cofres públicos”.
Como ex-tesoureiro nacional do PSDB, ele foi acionado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por emitir notas fiscais da sua própria empresa para justificar gastos da campanha de 2002. Na época, ele chiou à Folha: “Eu me considerava acima de qualquer suspeita”. Na sua gestão, as contas tucanas foram alvo de várias investigações. Estes são os empresários “acima de qualquer suspeita” que novamente comandarão a arrecadação financeira da campanha de José Serra.
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domingo, 4 de abril de 2010
Datafolha e os escribas de Kafka
Reproduzo artigo de Gilson Caroni, publicado no sítio Carta Maior:
Picles não combinam com morangos, mas o jornalismo brasileiro, em anos eleitorais, é a cozinha das combinações intragáveis. Se for do agrado do paladar do patrão, titulares de carteirinha de jornalista se esmeram em preparar saladas que levam o agridoce ao paroxismo. Como já observou Alberto Dines, em artigo publicado no Observatório da Imprensa, "ampliam-se as insignificâncias, criam-se pseudofatos (os famosos factóides), e até confere-se relevância política às matérias produzidas pelos marqueteiros nos seus comerciais. É a inversão total de simples preceitos jornalísticos".
Ao ocultar os dados da mais recente pesquisa Vox Populi que, demonstrando um consistente crescimento da candidatura de Dilma Rousseff, desmente as últimas projeções do Datafolha, O Globo e Folha de S.Paulo deixam claro que, dependendo do resultado, sondagens de opinião servem para tudo. Ou para nada, de acordo com a preferência da clientela.
Se o resultado é conveniente para os candidatos das corporações, números teoricamente transitórios são utilizados como tendência definitiva. Se ocorrer o contrário, trata-se de “um retrato do momento” com alta probabilidade de ser modificado até o dia do pleito. Não peçam análise séria em exercícios de imaginação militante.
Pelos caminhos da ficção, Franz Kafka atingiu a realidade da incoerência e da solidão humana. Pelos caminhos da redação partidarizada, se chega com facilidade a uma literatura ridícula, inversamente hilária à verdade factual que pretende distorcer. É uma experiência humorística que não pode ser ignorada, sob pena de perdermos excelente oportunidade de divertimento. Vejamos dois casos recentes. São excelentes exemplos de genuflexão permanente.
Ainda no sábado (3/4), a jornalista Renata Lo Prete, editora da coluna Painel, da Folha de S.Paulo, ciente de números que só seriam divulgados à noite pela TV Bandeirantes, lançou dúvidas sobre a metodologia da sondagem que desmontava o resultado obtido pelo instituto de pesquisa da família Frias:
"Chama a atenção, no questionário de pesquisa Vox Populi sobre a sucessão presidencial com campo em 30 e 31 de março, a inclusão de pergunta relativa aos cargos que os candidatos já ocuparam, quebrando o fluxo das respostas espontânea e estimulada sobre intenção de voto. Esse tipo de procedimento é conhecido por distorcer resultados".
É questionável se a ordem da apresentação dos temas (menção espontânea, conhecimento dos candidatos, menção estimulada) pode ou não influenciar nas respostas ao último quesito. Justamente por isso é leviano insinuar, como faz a colunista, que tal procedimento tenha produzido qualquer distorção na pesquisa do Vox Populi.
Consultar especialistas não faria mal algum se Lo Prete não soubesse o que querem seus senhores. Seria interessante lembrar que a lisura do processo eleitoral compreende principalmente a lisura da imprensa que o acompanha. E nesse ponto não resta dúvida que, para patrões e seus escribas, eleições ainda são um jogo que não pressupõe qualquer relação com amadurecimento democrático e cidadania ampliada.
Outro exemplo do burlesco travestido de análise pode ser encontrado no jornal O Globo. Em sua coluna de sexta-feira, 2/04, Merval Pereira oferece trechos memoráveis que merecem ser destacados. O servilismo, esteja ou não a serviço de fanfarras eleitorais, oferece imagens que nem de longe configuram um desenho ético ou qualquer propósito respeitável.
Tentando demonstrar traços de subalternidade na postura da ex-ministra Dilma Rousseff, o colunista não titubeia: "Ela chegou a usar 28 vezes o tratamento de ' senhor' ao se referir ao presidente Lula no seu discurso de despedida, o que é um sinal de subserviência não candidata com o papel de candidata à Presidência da República"
É compreensível o espanto de Merval. Afinal, trabalha em uma organização que obriga jornalista a chamar patrão de colega. Mas, tirando a força do hábito, qual seria o tratamento adequado a ser dispensado a um presidente? Para responder, bastava uma consulta aos acadêmicos que sistematizam suas reflexões diárias. Mas o tempo das manobras não permite perda de tempo com esse tipo de questão.
Em seguida, misturando números, épocas e fatos, o sincero partícipe das convicções de quem lhe paga o sal, entra em transe e soçobra diante da falta de senso lógico que ilumina os seus escritos: “Lula não tem se mostrado tão bom de voto quanto sua popularidade atual indica. Perdeu duas vezes no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso, o que certamente é sua maior frustração, e venceu duas vezes no segundo turno".
Impressionante! A popularidade de 2010 não foi capaz de eleger Lula em 1994 e 1998! Se Franz Kafka estivesse entre nós certamente abriria um largo sorriso ao ler o que vai na alma do jornalista global.Repetindo Odradeck, personagem de um breve conto seu, diria que "o conjunto se apresenta sem sentido, mas no seu gênero é completo"
Renata Lo Prete, Merval Pereira e Datafolha não ganhariam apenas sentido. A semelhança alucinante entre as receitas aventadas por eles e os detalhes que deformam os homens na literatura kafkaniana ganharia contorno definitivo.
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Picles não combinam com morangos, mas o jornalismo brasileiro, em anos eleitorais, é a cozinha das combinações intragáveis. Se for do agrado do paladar do patrão, titulares de carteirinha de jornalista se esmeram em preparar saladas que levam o agridoce ao paroxismo. Como já observou Alberto Dines, em artigo publicado no Observatório da Imprensa, "ampliam-se as insignificâncias, criam-se pseudofatos (os famosos factóides), e até confere-se relevância política às matérias produzidas pelos marqueteiros nos seus comerciais. É a inversão total de simples preceitos jornalísticos".
Ao ocultar os dados da mais recente pesquisa Vox Populi que, demonstrando um consistente crescimento da candidatura de Dilma Rousseff, desmente as últimas projeções do Datafolha, O Globo e Folha de S.Paulo deixam claro que, dependendo do resultado, sondagens de opinião servem para tudo. Ou para nada, de acordo com a preferência da clientela.
Se o resultado é conveniente para os candidatos das corporações, números teoricamente transitórios são utilizados como tendência definitiva. Se ocorrer o contrário, trata-se de “um retrato do momento” com alta probabilidade de ser modificado até o dia do pleito. Não peçam análise séria em exercícios de imaginação militante.
Pelos caminhos da ficção, Franz Kafka atingiu a realidade da incoerência e da solidão humana. Pelos caminhos da redação partidarizada, se chega com facilidade a uma literatura ridícula, inversamente hilária à verdade factual que pretende distorcer. É uma experiência humorística que não pode ser ignorada, sob pena de perdermos excelente oportunidade de divertimento. Vejamos dois casos recentes. São excelentes exemplos de genuflexão permanente.
Ainda no sábado (3/4), a jornalista Renata Lo Prete, editora da coluna Painel, da Folha de S.Paulo, ciente de números que só seriam divulgados à noite pela TV Bandeirantes, lançou dúvidas sobre a metodologia da sondagem que desmontava o resultado obtido pelo instituto de pesquisa da família Frias:
"Chama a atenção, no questionário de pesquisa Vox Populi sobre a sucessão presidencial com campo em 30 e 31 de março, a inclusão de pergunta relativa aos cargos que os candidatos já ocuparam, quebrando o fluxo das respostas espontânea e estimulada sobre intenção de voto. Esse tipo de procedimento é conhecido por distorcer resultados".
É questionável se a ordem da apresentação dos temas (menção espontânea, conhecimento dos candidatos, menção estimulada) pode ou não influenciar nas respostas ao último quesito. Justamente por isso é leviano insinuar, como faz a colunista, que tal procedimento tenha produzido qualquer distorção na pesquisa do Vox Populi.
Consultar especialistas não faria mal algum se Lo Prete não soubesse o que querem seus senhores. Seria interessante lembrar que a lisura do processo eleitoral compreende principalmente a lisura da imprensa que o acompanha. E nesse ponto não resta dúvida que, para patrões e seus escribas, eleições ainda são um jogo que não pressupõe qualquer relação com amadurecimento democrático e cidadania ampliada.
Outro exemplo do burlesco travestido de análise pode ser encontrado no jornal O Globo. Em sua coluna de sexta-feira, 2/04, Merval Pereira oferece trechos memoráveis que merecem ser destacados. O servilismo, esteja ou não a serviço de fanfarras eleitorais, oferece imagens que nem de longe configuram um desenho ético ou qualquer propósito respeitável.
Tentando demonstrar traços de subalternidade na postura da ex-ministra Dilma Rousseff, o colunista não titubeia: "Ela chegou a usar 28 vezes o tratamento de ' senhor' ao se referir ao presidente Lula no seu discurso de despedida, o que é um sinal de subserviência não candidata com o papel de candidata à Presidência da República"
É compreensível o espanto de Merval. Afinal, trabalha em uma organização que obriga jornalista a chamar patrão de colega. Mas, tirando a força do hábito, qual seria o tratamento adequado a ser dispensado a um presidente? Para responder, bastava uma consulta aos acadêmicos que sistematizam suas reflexões diárias. Mas o tempo das manobras não permite perda de tempo com esse tipo de questão.
Em seguida, misturando números, épocas e fatos, o sincero partícipe das convicções de quem lhe paga o sal, entra em transe e soçobra diante da falta de senso lógico que ilumina os seus escritos: “Lula não tem se mostrado tão bom de voto quanto sua popularidade atual indica. Perdeu duas vezes no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso, o que certamente é sua maior frustração, e venceu duas vezes no segundo turno".
Impressionante! A popularidade de 2010 não foi capaz de eleger Lula em 1994 e 1998! Se Franz Kafka estivesse entre nós certamente abriria um largo sorriso ao ler o que vai na alma do jornalista global.Repetindo Odradeck, personagem de um breve conto seu, diria que "o conjunto se apresenta sem sentido, mas no seu gênero é completo"
Renata Lo Prete, Merval Pereira e Datafolha não ganhariam apenas sentido. A semelhança alucinante entre as receitas aventadas por eles e os detalhes que deformam os homens na literatura kafkaniana ganharia contorno definitivo.
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Samir Amin e os modelos de desenvolvimento
Em recente entrevista ao jornal italiano Il Manifesto, o economista egípcio Samir Amin, um dos maiores intelectuais da atualidade, falou do seu novo livro “A life looking forward” – ainda não traduzido no Brasil. A entrevista é instigante e polêmica. Reproduzo-a abaixo:
Com a crise econômico-financeira, interrogamo-nos novamente sobre os limites da globalização neoliberal e, mais em geral, sobre os limites do capitalismo. Pode nos explicar em que sentido, como o senhor escreve em "The World We Wish to See", "o desenvolvimento mundial do capitalismo sempre foi polarizante", e o imperialismo representa não "uma fase do capitalismo, mas sim a característica permanente da sua expansão global"?
No início, adotei a tese de Lenin, segundo a qual o capitalismo dos monopólios constitui uma nova fase na história do capitalismo, anunciada no fim do século XIX, e o capitalismo se tornou uma forma de imperialismo apenas a partir daquela data. Em seguida, porém, acabei elaborando a ideia do caráter originariamente polarizante – portanto, de algum modo imperialista – do capitalismo desde as suas origens.
Considero, de fato, que a acumulação em escala mundial sempre existiu, de modo não exclusivo, mas prevalente, uma acumulação por expropriação. Uma expropriação que não se refere apenas à "acumulação primitiva" analisada por Marx e referida nas origens do capitalismo, mas que é sim um traço permanente na história do capitalismo realmente existente, a partir da época mercantilista. Aquele longo período de transição em que o papel central na mundialização, organizada em torno à conquista das Américas e à obtenção de escravos, assume a forma evidente e indiscutível da acumulação por expropriação. Essa acumulação se estende depois ao longo de todo o século XIX e se radicaliza com a formação dos monopólios, que favorecem a exportação de capital em uma escala muito mais ampla, "instalando" segmentos do sistema capitalista mundializado nas colônias "de além mar", nas semicolônias, nas colônias da América Latina.
De outro lado, o fato de a polarização ser imanente ao desenvolvimento mundializado do capitalismo, acompanhando-o desde as origens, é demonstrado por um simples dado: até aproximadamente 1820, o PIB per capita da China era superior ao PIB médio da Europa avançada. Entre 1820 e 1900, passa-se ao invés de uma relação 1-1 a uma relação 1-20, e, de 1900 ao ano 2000, de 1-20 a 1-50.
Ainda em "Oltre il capitalismo senile", o senhor escrevia que, justamente por causa do seu "calcanhar de Aquiles" – a dimensão financeira –, o sistema capitalista estaria preparando "uma iminente catástrofe financeira". Ora, a iminência é realidade: o que o senhor entende quando defende que a crise atual é "a crise do capitalismo imperialista dos oligopólios", organicamente ligados à financeirização do sistema?
Prosseguindo na direção da pesquisa inaugurada pelo livro de Sweezy e Baran de 1966, "Monopoly Capital" – a primeira formulação coerente da transformação qualitativa do capitalismo ocorrida no final do século XIX com a instituição dos monopólios – localizei o impacto de duas grandes ondas no processo de monopolização: a primeira, tem início no final do século XIX e se estende até 1945, a segunda começa nos anos 60 do século passado e, portanto, não coincide de fato com a crise financeira de 2008.
Nessa segunda onda, o grau de monopolização assume um relevo sem comparações, o que me leva a considerar que o capitalismo contemporâneo é um capitalismo dos oligopólios generalizados, mundializados e financeirizados. Oligopólios generalizados porque controlam a economia no seu conjunto (além do âmbito político e cultural), até aqueles setores não diretamente monopolizados. E mundializados também por efeito das políticas liberais e neoliberais dos anos 80, 90 e 2000.
Agora, no que se refere à financeirização, também da "esquerda", boa parte das análises sobre o sistema financeiro tendem a separar a financeirização, artificial e negativa, do bom capitalismo produtivo. Não é assim: os dois aspectos vão lado a lado. Os oligopólios são financeirizados justamente no sentido de que não há de um lado um setor financeirizado, o dos bancos, dos seguros, dos fundos de pensão, e de outro um setor produtivo sadio. Pelo contrário, são os próprios oligopólios que são proprietários das grandes empresas produtivas e, ao mesmo tempo, das grandes instituições financeiras. E, por sua vez, esses oligopólios têm necessidade da expansão financeira para assegurarem o domínio sobre a economia e sobre a sociedade inteira.
A "sobreposição", como Baran já defendia, é total. E tem razíes em um sistema que leva por si mesmo à estagnação relativa, particularmente marcada a partir de 1970, quando nos países da Tríade imperialista (EUA, Europa e Japão) verificou-se uma drástica redução das taxas de lucro, de crescimento e de investimento. É essa estagnação – um excesso de superávit com relação à possibilidade de expansão do capital para ampliar e incrementar os investimentos produtivos – que alimenta as bolhas financeiras, que não são o produto de derivações ou desregulamentações, mas sim uma exigência imanente do sistema capitalista contemporâneo: a financeirização é a única maneira à disposição dos capitalistas dos oligopólios generalizados e mundializados para superar a tendência profunda e intrínseca à estagnação.
Por isso, estou convencido de que só nos resta, como alternativa, sair desse capitalismo em crise. Ou, mais modestamente, começar a se dirigir à saída, rumo a outro modelo de desenvolvimento, cuja fisionomia ainda não está clara e para cuja definição serão necessários 50, 100 anos.
Em um recente artigo, o senhor afirma que uma mundialização negociada passa pelo "desengajamento" para a construção de uma economia nacional autocentrada, mas não autárquica. Uma economia que – o senhor escreve em "A Life Looking Forward" – "encontraria sérios obstáculos se não fosse reforçada por formas de integração regional capazes de aumentar seu efeito positivo". Como combinar estratégias de desengajamento do sistema global com a construção de blocos regionais?
Não existem alternativas praticáveis ao desenvolvimento autocentrado, que subordinem as relações externas às exigências de transformação interna, as mais progressistas possíveis. Não se trata de simples autarquia, mas da subversão da lógica atual: em vez de se adequar, em vez de se curvar às tendências dominantes em escala mundial, é preciso agir para que sejam essas tendências se adequem às exigências internas. Esse é o sentido que eu atribuo às iniciativas independentes por parte dos países do Sul do mundo. As razões para fazer isso são evidentes na maior parte dos casos. Talvez não para os três novos gigantes econômicos: China, Índia e Brasil, que, cada um por si, podem contar com um peso equivalente ao de uma grande região, e que por isso pareceria que não têm necessidade de se confiar a acordos sub-regionais e inter-regionais.
Porém, esses países também acusam déficits, basta pensar na escassez dos recursos naturais, energéticos em primeiro lugar, dos quais têm necessidade. E isso vale com maior razão para as outras regiões, para os países do sudeste asiático, do mundo árabe, da África subsaariana, da América Latina espanhola. Em todos esses casos, os acordos sub-regionais servem para instituir, por via negociada, formas de complementariedade, que se articulem em mais planos.
Por exemplo, o das tecnologias: hoje, os países do Sul são capazes – nem todos da mesma forma – de desenvolver capacidade tecnológica sem ter que necessariamente submeter-se ao protecionismo do direito industrial promovido pela Organização Mundial do Comércio. O mesmo deveria ocorrer com as infraestruturas, para a localização de estratégias de complementariedade industrial, a partir das indústrias de base, obviamente, mas também para as indústrias do grande consumo, para o acesso aos recursos naturais.
A propósito dos recursos naturais: o senhor defende que, "longe de estar resolvida, a 'questão agrária' está mais do que nunca no centro dos desafios que a humanidade deverá enfrentar no século XX". Por que o senhor considera que o capitalismo, "pela sua própria natureza, é incapaz de resolvê-la" e por que acredita que ele sabe apenas oferecer a perspectiva de um planeta de favelas?
A acumulação por expropriação que caracteriza o capitalismo histórico, o que, no início do século XIX foi se cristalizando em torno ao triângulo Londres-Amsterdã-Paris, não se refere apenas aos povos das Américas, mas também aos agricultores europeus. O modelo é o das "enclosures" da Grã-Bretanha, a expropriação dos agricultores ingleses e irlandeses, que sofreram, os primeiros da Europa, uma forma de apropriação privada da terra, depois generalizada ao continente europeu.
Esse modelo histórico teria tido consequências explosivas se não fosse acompanhado por aquele enorme "aparato de segurança" e "válvula de escape" constituída pelo sistema das migrações às Américas: os processos migratórios permitiram que a Europa construísse em outro lugar uma outra Europa, senão mais importante em termos de população do que a do continente.
Mas se considerarmos os outros continentes, a Ásia, a África, a América Latina, onde hoje vivem 75% da população mundial, da qual metade é agrícola, nos damos conta de que esse sistema é inaceitável e ineficaz. Como demonstra o recente nascimento de um planeta de favelas: os agricultores expulsos das terras não podem ser "absorvidos" pelos mecanismos da moderna industrialização e não podem recorrer de modo maciço às migrações. A solução à questão agrária proposta pelo modelo capitalista requereria que se concedesse à Ásia, à África e à América Latina pelo menos outras quatro Américas.
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Com a crise econômico-financeira, interrogamo-nos novamente sobre os limites da globalização neoliberal e, mais em geral, sobre os limites do capitalismo. Pode nos explicar em que sentido, como o senhor escreve em "The World We Wish to See", "o desenvolvimento mundial do capitalismo sempre foi polarizante", e o imperialismo representa não "uma fase do capitalismo, mas sim a característica permanente da sua expansão global"?
No início, adotei a tese de Lenin, segundo a qual o capitalismo dos monopólios constitui uma nova fase na história do capitalismo, anunciada no fim do século XIX, e o capitalismo se tornou uma forma de imperialismo apenas a partir daquela data. Em seguida, porém, acabei elaborando a ideia do caráter originariamente polarizante – portanto, de algum modo imperialista – do capitalismo desde as suas origens.
Considero, de fato, que a acumulação em escala mundial sempre existiu, de modo não exclusivo, mas prevalente, uma acumulação por expropriação. Uma expropriação que não se refere apenas à "acumulação primitiva" analisada por Marx e referida nas origens do capitalismo, mas que é sim um traço permanente na história do capitalismo realmente existente, a partir da época mercantilista. Aquele longo período de transição em que o papel central na mundialização, organizada em torno à conquista das Américas e à obtenção de escravos, assume a forma evidente e indiscutível da acumulação por expropriação. Essa acumulação se estende depois ao longo de todo o século XIX e se radicaliza com a formação dos monopólios, que favorecem a exportação de capital em uma escala muito mais ampla, "instalando" segmentos do sistema capitalista mundializado nas colônias "de além mar", nas semicolônias, nas colônias da América Latina.
De outro lado, o fato de a polarização ser imanente ao desenvolvimento mundializado do capitalismo, acompanhando-o desde as origens, é demonstrado por um simples dado: até aproximadamente 1820, o PIB per capita da China era superior ao PIB médio da Europa avançada. Entre 1820 e 1900, passa-se ao invés de uma relação 1-1 a uma relação 1-20, e, de 1900 ao ano 2000, de 1-20 a 1-50.
Ainda em "Oltre il capitalismo senile", o senhor escrevia que, justamente por causa do seu "calcanhar de Aquiles" – a dimensão financeira –, o sistema capitalista estaria preparando "uma iminente catástrofe financeira". Ora, a iminência é realidade: o que o senhor entende quando defende que a crise atual é "a crise do capitalismo imperialista dos oligopólios", organicamente ligados à financeirização do sistema?
Prosseguindo na direção da pesquisa inaugurada pelo livro de Sweezy e Baran de 1966, "Monopoly Capital" – a primeira formulação coerente da transformação qualitativa do capitalismo ocorrida no final do século XIX com a instituição dos monopólios – localizei o impacto de duas grandes ondas no processo de monopolização: a primeira, tem início no final do século XIX e se estende até 1945, a segunda começa nos anos 60 do século passado e, portanto, não coincide de fato com a crise financeira de 2008.
Nessa segunda onda, o grau de monopolização assume um relevo sem comparações, o que me leva a considerar que o capitalismo contemporâneo é um capitalismo dos oligopólios generalizados, mundializados e financeirizados. Oligopólios generalizados porque controlam a economia no seu conjunto (além do âmbito político e cultural), até aqueles setores não diretamente monopolizados. E mundializados também por efeito das políticas liberais e neoliberais dos anos 80, 90 e 2000.
Agora, no que se refere à financeirização, também da "esquerda", boa parte das análises sobre o sistema financeiro tendem a separar a financeirização, artificial e negativa, do bom capitalismo produtivo. Não é assim: os dois aspectos vão lado a lado. Os oligopólios são financeirizados justamente no sentido de que não há de um lado um setor financeirizado, o dos bancos, dos seguros, dos fundos de pensão, e de outro um setor produtivo sadio. Pelo contrário, são os próprios oligopólios que são proprietários das grandes empresas produtivas e, ao mesmo tempo, das grandes instituições financeiras. E, por sua vez, esses oligopólios têm necessidade da expansão financeira para assegurarem o domínio sobre a economia e sobre a sociedade inteira.
A "sobreposição", como Baran já defendia, é total. E tem razíes em um sistema que leva por si mesmo à estagnação relativa, particularmente marcada a partir de 1970, quando nos países da Tríade imperialista (EUA, Europa e Japão) verificou-se uma drástica redução das taxas de lucro, de crescimento e de investimento. É essa estagnação – um excesso de superávit com relação à possibilidade de expansão do capital para ampliar e incrementar os investimentos produtivos – que alimenta as bolhas financeiras, que não são o produto de derivações ou desregulamentações, mas sim uma exigência imanente do sistema capitalista contemporâneo: a financeirização é a única maneira à disposição dos capitalistas dos oligopólios generalizados e mundializados para superar a tendência profunda e intrínseca à estagnação.
Por isso, estou convencido de que só nos resta, como alternativa, sair desse capitalismo em crise. Ou, mais modestamente, começar a se dirigir à saída, rumo a outro modelo de desenvolvimento, cuja fisionomia ainda não está clara e para cuja definição serão necessários 50, 100 anos.
Em um recente artigo, o senhor afirma que uma mundialização negociada passa pelo "desengajamento" para a construção de uma economia nacional autocentrada, mas não autárquica. Uma economia que – o senhor escreve em "A Life Looking Forward" – "encontraria sérios obstáculos se não fosse reforçada por formas de integração regional capazes de aumentar seu efeito positivo". Como combinar estratégias de desengajamento do sistema global com a construção de blocos regionais?
Não existem alternativas praticáveis ao desenvolvimento autocentrado, que subordinem as relações externas às exigências de transformação interna, as mais progressistas possíveis. Não se trata de simples autarquia, mas da subversão da lógica atual: em vez de se adequar, em vez de se curvar às tendências dominantes em escala mundial, é preciso agir para que sejam essas tendências se adequem às exigências internas. Esse é o sentido que eu atribuo às iniciativas independentes por parte dos países do Sul do mundo. As razões para fazer isso são evidentes na maior parte dos casos. Talvez não para os três novos gigantes econômicos: China, Índia e Brasil, que, cada um por si, podem contar com um peso equivalente ao de uma grande região, e que por isso pareceria que não têm necessidade de se confiar a acordos sub-regionais e inter-regionais.
Porém, esses países também acusam déficits, basta pensar na escassez dos recursos naturais, energéticos em primeiro lugar, dos quais têm necessidade. E isso vale com maior razão para as outras regiões, para os países do sudeste asiático, do mundo árabe, da África subsaariana, da América Latina espanhola. Em todos esses casos, os acordos sub-regionais servem para instituir, por via negociada, formas de complementariedade, que se articulem em mais planos.
Por exemplo, o das tecnologias: hoje, os países do Sul são capazes – nem todos da mesma forma – de desenvolver capacidade tecnológica sem ter que necessariamente submeter-se ao protecionismo do direito industrial promovido pela Organização Mundial do Comércio. O mesmo deveria ocorrer com as infraestruturas, para a localização de estratégias de complementariedade industrial, a partir das indústrias de base, obviamente, mas também para as indústrias do grande consumo, para o acesso aos recursos naturais.
A propósito dos recursos naturais: o senhor defende que, "longe de estar resolvida, a 'questão agrária' está mais do que nunca no centro dos desafios que a humanidade deverá enfrentar no século XX". Por que o senhor considera que o capitalismo, "pela sua própria natureza, é incapaz de resolvê-la" e por que acredita que ele sabe apenas oferecer a perspectiva de um planeta de favelas?
A acumulação por expropriação que caracteriza o capitalismo histórico, o que, no início do século XIX foi se cristalizando em torno ao triângulo Londres-Amsterdã-Paris, não se refere apenas aos povos das Américas, mas também aos agricultores europeus. O modelo é o das "enclosures" da Grã-Bretanha, a expropriação dos agricultores ingleses e irlandeses, que sofreram, os primeiros da Europa, uma forma de apropriação privada da terra, depois generalizada ao continente europeu.
Esse modelo histórico teria tido consequências explosivas se não fosse acompanhado por aquele enorme "aparato de segurança" e "válvula de escape" constituída pelo sistema das migrações às Américas: os processos migratórios permitiram que a Europa construísse em outro lugar uma outra Europa, senão mais importante em termos de população do que a do continente.
Mas se considerarmos os outros continentes, a Ásia, a África, a América Latina, onde hoje vivem 75% da população mundial, da qual metade é agrícola, nos damos conta de que esse sistema é inaceitável e ineficaz. Como demonstra o recente nascimento de um planeta de favelas: os agricultores expulsos das terras não podem ser "absorvidos" pelos mecanismos da moderna industrialização e não podem recorrer de modo maciço às migrações. A solução à questão agrária proposta pelo modelo capitalista requereria que se concedesse à Ásia, à África e à América Latina pelo menos outras quatro Américas.
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Merval Pereira, o Freud de O Globo
Reproduzo o irônico artigo de Brizola Neto, publicado no seu excelente blog:
O Conselho Nacional de Psicologia devia dar um título honorário – ou uma queixa por exercício ilegal da profissão – ao colunista Merval Pereira, por sua coluna deste sábado em O Globo.
Eu, que não sou psicólogo e também não sou aspirante a lorde inglês, dei foi boas risadas.
Vejam que pérolas do “jornalismo”:
“Ela (Dilma) chegou a usar 28 vezes o tratamento de “senhor” ao se referir ao presidente Lula em seu discurso de despedida do ministério, o que é um sinal de subserviência não com o papel de candidata à presidência da República”.
Como é que se trata o presidente da República numa cerimônia oficial e pública? “Aí, xará“? “Mano“? “Cara“? “Ô, psit“?
Ou ela deveria chamá-lo de “Doutor”, como Merval e outros chamavam Roberto Marinho, que era tão diplomado quanto Lula?
Mas tem mais:
“Pois ele (Lula) não está escondendo a dificuldade com que está lidando com a perspectiva do fim do poder”.
Aí, xará, senti firmeza…Dignóstico legal, profundo, resultado de horas de análise. Qual seria o dignóstico do Dr. Sigmund Merval sobre os arreganhos de Fernando Henrique que, para desespero de José Serra, tenta ser uma voz de oposição – reconheça-se a sua honestidade – a Lula? Merval – não posso chamar de senhor Merval para não ser submisso – deveria ler sobre a “Síndrome do Ninho Vazio”, que acomete pais quando os filhos criam asas e se vão, tucaninhos donos de seus próprios bicos.
Mas você pensa que acabou?
“Encarar a alternância de poder como uma derrota é uma maneira de querer continuar no poder eternamente (…)”
Uai, um presidente, um governador, um prefeito é vitorioso se a oposição ganha a eleição? Não é derrota? Pode não ser o fim do mundo, pode não ser o desastre que, neste caso, é… Mas que é derrota, é! Nada a ver com não aceitar o resultado, a manifestação do eleitor. Mas achar que perder eleição é vitória e não derrota, é caso de ir pro divã ou, então, para o palanque do adversário.
"O presidente Lula está parecendo até aqueles funcionários que não querem se aposentar, mesmo que a lei os obrigue a isso"
Pronto, aí está a terapêutica mervalina para o futuro ex-presidente: ir jogar truco em São Bernardo. Mas não vai dar certo, truco é jogo gritado, se passa a mão no queixo para marcar o Rei barbudo e se manda o Zap (quatro de paus, obrigado) na testa…
Melhor não, Dr. Merval. O senhor, como psicólogo, deveria saber que a ociosidade é má conselheira. Lula vai ter muito trabalho ajudando Dilma a enfrentar os colunistas que querem descartar o Lula, porque acham que a Dama é fraca no truco e perderá para os valetes de Serra.
“Se Dilma vencer, vai querer tutelá-la. Se vencer Serra, Lula vai comandar uma oposição ferrenha contra aquele que o tirou do poder.”
Ué, “aquele que o tirou do poder”? Não era aposentadoria, não era “vitória da alternância de poder”?
Lula não vai comandar “uma oposição ferrenha”. Nem vai exercer tutela. Isso é vício de quem só enxerga as relações humanas como de “chefe” e subordinado. Coisa de quem não tem causa, da qual todos somos servos, e não há posição de maior altivez do que ser servo de idéias. Fica quilômetros acima da de ser lorde na corte dos poderosos.
Mas é natural que se pense assim. Quem se formou no ambiente da subserviência ao poder não consegue ver senão a ambição como motor do comportamento humano.
Freud, o verdadeiro, explica.
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O Conselho Nacional de Psicologia devia dar um título honorário – ou uma queixa por exercício ilegal da profissão – ao colunista Merval Pereira, por sua coluna deste sábado em O Globo.
Eu, que não sou psicólogo e também não sou aspirante a lorde inglês, dei foi boas risadas.
Vejam que pérolas do “jornalismo”:
“Ela (Dilma) chegou a usar 28 vezes o tratamento de “senhor” ao se referir ao presidente Lula em seu discurso de despedida do ministério, o que é um sinal de subserviência não com o papel de candidata à presidência da República”.
Como é que se trata o presidente da República numa cerimônia oficial e pública? “Aí, xará“? “Mano“? “Cara“? “Ô, psit“?
Ou ela deveria chamá-lo de “Doutor”, como Merval e outros chamavam Roberto Marinho, que era tão diplomado quanto Lula?
Mas tem mais:
“Pois ele (Lula) não está escondendo a dificuldade com que está lidando com a perspectiva do fim do poder”.
Aí, xará, senti firmeza…Dignóstico legal, profundo, resultado de horas de análise. Qual seria o dignóstico do Dr. Sigmund Merval sobre os arreganhos de Fernando Henrique que, para desespero de José Serra, tenta ser uma voz de oposição – reconheça-se a sua honestidade – a Lula? Merval – não posso chamar de senhor Merval para não ser submisso – deveria ler sobre a “Síndrome do Ninho Vazio”, que acomete pais quando os filhos criam asas e se vão, tucaninhos donos de seus próprios bicos.
Mas você pensa que acabou?
“Encarar a alternância de poder como uma derrota é uma maneira de querer continuar no poder eternamente (…)”
Uai, um presidente, um governador, um prefeito é vitorioso se a oposição ganha a eleição? Não é derrota? Pode não ser o fim do mundo, pode não ser o desastre que, neste caso, é… Mas que é derrota, é! Nada a ver com não aceitar o resultado, a manifestação do eleitor. Mas achar que perder eleição é vitória e não derrota, é caso de ir pro divã ou, então, para o palanque do adversário.
"O presidente Lula está parecendo até aqueles funcionários que não querem se aposentar, mesmo que a lei os obrigue a isso"
Pronto, aí está a terapêutica mervalina para o futuro ex-presidente: ir jogar truco em São Bernardo. Mas não vai dar certo, truco é jogo gritado, se passa a mão no queixo para marcar o Rei barbudo e se manda o Zap (quatro de paus, obrigado) na testa…
Melhor não, Dr. Merval. O senhor, como psicólogo, deveria saber que a ociosidade é má conselheira. Lula vai ter muito trabalho ajudando Dilma a enfrentar os colunistas que querem descartar o Lula, porque acham que a Dama é fraca no truco e perderá para os valetes de Serra.
“Se Dilma vencer, vai querer tutelá-la. Se vencer Serra, Lula vai comandar uma oposição ferrenha contra aquele que o tirou do poder.”
Ué, “aquele que o tirou do poder”? Não era aposentadoria, não era “vitória da alternância de poder”?
Lula não vai comandar “uma oposição ferrenha”. Nem vai exercer tutela. Isso é vício de quem só enxerga as relações humanas como de “chefe” e subordinado. Coisa de quem não tem causa, da qual todos somos servos, e não há posição de maior altivez do que ser servo de idéias. Fica quilômetros acima da de ser lorde na corte dos poderosos.
Mas é natural que se pense assim. Quem se formou no ambiente da subserviência ao poder não consegue ver senão a ambição como motor do comportamento humano.
Freud, o verdadeiro, explica.
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