sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Bacurau retrata um Brasil que resiste e luta

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

O Prêmio do Júri do Festival de Cannes tem uma importância inegável na trajetória de qualquer filme, em qualquer país. Mesmo que Bacurau não tivesse sido premiado, porém, não faltariam ótimas razões para ir ao cinema.

A primeira: é um ótimo filme, sob todos os aspectos. Possui um bom roteiro, sustendo por um elenco de atores de qualidade e uma direção firme de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles.

O enredo é muito bom e, como você já deve saber, pode ser acompanhado como uma referência corajosa e coerente com a tragédia política que se abate sobre o Brasil de nossos dias. Acredite. Agressivo, sem concessões, violento quando necessário, afetivo quando preciso, é uma obra com a rara coragem de ir a fundo nos problemas que expõe.

Seus contatos com o momento político brasileiro são claros e diretos, mas o filme está longe de ser um panfleto. É uma obra com valor em si, inteiramente brasileira e, ao mesmo tempo, universal.

Manifesta um respeito profundo e honesto pelos valores e necessidades de homens, mulheres e crianças de um povoado fictício do interior de Pernambuco, capazes de enfrentar a pior miséria econômica e a opressão política mais vergonhosa sem perder a dignidade e o respeito pelos próprios valores - e travar um combate de vida ou morte quando isso se faz necessário.

Não vou dar outros detalhes para permitir que os leitores desse texto tenham o direito supremo de todo espectador - usufruir a surpresa de cada cena e de cada personagem que irá surgir na tela ao longo de mais duas horas de espetáculo. Com oportunidades para a emoção e para a reflexão, o único momento previsível de Bacurau ocorre depois da cena final - quando a plateia presta homenagem a atores e diretores com aplausos demorados.

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