terça-feira, 5 de maio de 2026

Rádio Eldorado chega ao fim após 68 anos

Por Altamiro Borges

Cerca de 400 pessoas se reuniram neste domingo (3) em frente ao vão livre do Masp, na Avenida Paulista, em protesto contra o fechamento da icônica Rádio Eldorado, que está no ar há 68 anos. Com cartazes e faixas, os saudosos ouvintes se alternaram no microfone para demonstrar o inconformismo com o encerramento das atividades de emissora – previsto para 15 maio. A rádio pertence ao Grupo Estado e operava em frequência educativa com a Fundação Brasil 2000. O fim da parceria e mudanças no consumo de áudio inviabilizaram a operação, segundo nota oficial. Com o fechamento, cerca de 60 profissionais da rádio devem ser demitidos.

Segundo a organizadora do protesto, a artista Nina Vogel, que criou um abaixo-assinado online, a revolta contra a decisão do Grupo Estado é grande, com milhares de mensagens recebidas e mais de 15 adesões até o final de semana. “A rádio dos melhores ouvintes é nossa, é um bem imaterial brasileiro. Enquanto cidadã, não posso aceitar o desmonte de instituições culturais fundantes. A Eldorado formou ouvintes, é uma questão pedagógica”, explica a artista.

A justificativa do Grupo Estado

O protesto, que durou duas horas sob chuva fina, teve a presença de vários apresentadores da grade da emissora, como Paula Lima, Leandro Cacossi, Felipe Tellis, Baba Vacaro, André Góis e Roberta Martinelli. A última, locutora dos programas “Som a Pino” e “Clube do Livro”, destacou a curadoria musical e a liberdade editorial, com espaço para experimentação e conteúdos como literatura. “Onde mais iam me deixar atender telefone para falar com as pessoas sem filtro? Onde iam deixar um programa de literatura em que você fica uma hora falando e isso entra no ar?”.

Procurado pela rival Folha, o Grupo Estado justificou o fechamento de forma calculista e fria. “Nos últimos anos, sobretudo após a pandemia, observamos mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio. O crescimento acelerado das plataformas de streaming musical e a transformação no uso dos meios lineares têm impactado de forma estrutural o papel das rádios FM tradicionais... Essa decisão se insere em um movimento mais amplo de reposicionamento estratégico do Estadão, que vem ampliando de forma consistente sua presença digital”.

Programação musical e jornalismo cultural 

Conforme lembra o jornal, “os primeiros sinais da mudança vieram ainda em janeiro, quando funcionários da rádio leram uma publicação do Portal Tudo Rádio, informando que a Band poderia assumir o dial. Até então, a equipe não havia sido comunicada oficialmente. A confirmação interna veio apenas depois, em reunião convocada após boatos. Segundo fontes ouvidas pela Folha, diretores já acompanhavam havia meses as tratativas envolvendo a frequência, mas não tinham comunicado os funcionários da equipe”.

Ainda segundo a reportagem, a decisão de fechar a emissora contrasta com resultados recentes de percepção de marca. Uma pesquisa qualitativa encomendada pelo grupo indicou que a Eldorado tinha imagem mais positiva que o próprio Estadão entre ouvintes e assinantes. O estudo destacou atributos como curadoria musical, identidade editorial e diferenciação no dial – características frequentemente associadas à emissora ao longo de sua trajetória. “Fundada há 68 anos, a rádio construiu reputação como espaço de programação musical selecionada e jornalismo cultural. Ao longo das décadas, contou com a participação de nomes como Jô Soares, Fernanda Young e Rita Lobo”.

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